A passagem do ciclone Idai já provocou, pelo menos, 350 mortos nos três países afetados pela passagem do ciclone Idai, Moçambique, Zimbabué e Maláui, de acordo com informação avançada pela agência AFP.

Há, pelo menos 200 mortos, só em Moçambique, de acordo com o último balanço divulgado pelo presidente moçambicano, Filipe Nyusi — que na segunda-feira disse recear que o número de mortos ultrapassasse os mil –, citado pela AFP.

Pela informação que nos foi fornecida aqui, neste contexto de mortes confirmadas (…) estamos nos 200 e tal“, disse o chefe de estado durante uma reunião do Conselho de Ministros, na cidade de Beira.

No Zimbabué, as autoridades contabilizaram, pelo menos, uma centena de mortos, embora admitam que o número de vítimas mortais possa atingir os 300. Há ainda registo de 217 desaparecidos, bem como cerca de 1.600 casas e oito mil pessoas afetadas no distrito de Chimanimani, em Manicaland.

[Vídeo. Os sobreviventes à espera de resgate nos telhados]

No Maláui, as estimativas do Governo apontam para pelo menos 56 mortos e 577 feridos, com mais de 920 mil pessoas afetadas nos 14 distritos atingidos pelo ciclone, incluindo 460 mil crianças.

O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, anunciou que, “porque situação está grave, o Governo vai decretar a emergência nacional na República de Moçambique” e ainda três dias de luto nacional em Moçambique. “Sabendo de 350 mil cidadãos que estão em situação de risco e da severa destruição devido a esta tragédia, então o Conselho de Ministros decide decretar o luto nacional na República de Moçambique, por um período de três dias, com inicio às próximas 00h00 [menos duas horas em Lisboa] do dia 20 de março”, disse o chefe de Estado.

Aldeia em Moçambique a horas de ficar submersa. Sobreviventes nos telhados espera ajuda

Há uma aldeia em Moçambique que deverá ficar submersa nas próximas horas, devido à passagem do ciclone Idai — já descrito como “o pior desastre do hemisfério sul”. O alerta foi dado pela organização não-governamental Save the Children: Buzi, uma aldeia onde vivem cerca de 2500 crianças, pode estar prestes a ficar debaixo de água. As equipas de resgate lutam contra o tempo.

Cerca de 50 quilómetros do território já ficaram submersos depois da passagem do ciclone Idai, depois de as margens do rio Buzi terem deslizado. A água transbordou e provocou inundações que atingiram esta aldeia. Várias pessoas estão nos telhados das casas, como se pode ver nas imagens satélite da aldeia, onde aguardam ajuda e que alguém os venha resgatar.

Muitas pessoas que subiram aos telhados estão a ser atingidas por objetos, especialmente placas de metal, que estão a voar pelos ares. “Há placas de metal a voar e a decapitar pessoas. As pessoas estão muito mal aqui, algumas estão no hospital. Não temos ajuda nenhuma aqui. Isto está a ficar pior. Estamos a comer mal, estamos a dormir mal e não temos casa” disse um residente de Beira à AFP.

A passagem do ciclone Idai atingiu na quinta-feira Moçambique, Maláui e Zimbabué, com fortes chuvas e ventos de até 170 quilómetros por hora. A porta-voz da Organização Meteorológica Mundial, Claire Nullis, defendeu, citado pela Sky News, que este ciclone pode ser “o pior desastre relacionado com o clima do hemisfério sul”. “Isto é um verdadeiro desastre humanitário“, disse o presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

De acordo com as autoridades, pelo menos 267 salas de aula e 24 unidades de saúde foram afetadas pelo ciclone Idai nas províncias moçambicanas de Sofala, Manica, Zambézia e Inhambane.

ONU alerta. Próximas 72 horas serão “críticas” para Moçambique

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários alertou esta terça-feira que as próximas 72 horas serão “críticas” para Moçambique, devido aos efeitos do ciclone Idai, com cheias esperadas nas bacias dos rios Buzi e Pungoé. Em comunicado, aquela agência das Nações Unidas aponta o elevado risco de inundações em zonas urbanas da Beira e do Dondo, no centro de Moçambique.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, sigla inglesa), assinala na mesma informação que milhares de pessoas nas províncias centrais de Zambézia e Tete continuam a necessitar de assistência, no seguimento das inundações que começaram no início de março. Segundo a OCHA, são esperadas chuvas fortes nas províncias de Sofala e Manica entre 19 e 21 de março.

UNICEF estima que 260 mil crianças estão entre a população afetada

A UNICEF estima que cerca de 260 mil crianças estão entre a população afetada pelo ciclone Idai, informou esta organização da ONU em comunicado, onde explica que “esta é apenas uma primeira avaliação, e pode mudar nos próximos dias”.

A população afetada, incluindo famílias e crianças, está a lutar desesperadamente pela sobrevivência e está a deslocar-se para zonas mais elevadas, como os telhados”, informa a UNICEF.

A organização explica que “Beira sofreu extensos danos” e que não há ainda acesso rodoviário à cidade. Além disso, o armazém da UNICEF na Beira e alguns dos apoios que estavam no seu interior ficaram danificados devido às inundações — o que está a dificultar as operações de salvamento e o trabalho dos vários funcionários da UNICEF que se encontram em Beira “a trabalhar com o Governo em coordenação com outras agências de apoio humanitário”

[Vídeo: “Não há comida, não há socorro”. Moçambique em estado de emergência]

O serviço de urgência do hospital da Beira também ficou danificado, torando impossível a realização de cirurgias complexas. “Felizmente, a enfermaria pediátrica está a funcionar e todos os recém-nascidos estão em segurança”, diz ainda a UNICEF.

A organização alerta que serão necessários 20,3 milhões de dólares (cerca de 18 milhões de euros) para “apoiar a resposta nos três países afetados”: 10 milhões de dólares (cerca de 8,8 milhões de euros) para Moçambique; 8 milhões de dólares (cerca de 7 milhões de euros) para Maláui; e 2 milhões de dólares (cerca de 1,76 milhões de euros) para o Zimbabué.

Entidades intensificam mobilização. UE atribui 3,5 milhões de euros

Em Moçambique são várias as entidades públicas e privadas que estão a mobilizar apoios para as vítimas do ciclone Idai, no centro de Moçambique, pedindo essencialmente produtos não perecíveis e de higiene.

A MPDC, empresa gestora do porto de Maputo, revelou esta terça-feira que está a receber bens doados para serem transportados por via marítima para o centro do país, onde serão distribuídos pelas vítimas do ciclone. Produtos alimentares e de higiene, cobertores, roupa e calçado, bem como utensílios domésticos são os bens de maior necessidade para a emergência que se vive no centro do país, segundo a MPDC.

O consulado-geral de Portugal em Maputo apelou à solidariedade para com as vítimas da tempestade no centro, indicando um espaço onde, a partir de quinta-feira, podem ser doados bens destinados à assistência humanitária. No comunicado é apontada a necessidade de bens de maior necessidade farinha, arroz, óleo, açúcar e feijão, produtos para tratamento de água, lençóis, mantas e redes mosquiteiros.

A empresa Hidroelétrica de Cahora baixo (FPN) anunciou um apoio monetário no valor de quatro milhões de meticais (56 mil euros) para a assistência humanitária às vítimas do ciclone. A bancada parlamentar da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, anunciou uma doação de pouco mais de 400 mil meticais (5.600 euros) a favor das vítimas do ciclone.

Também a União Europeia (UE) anunciou esta terça-feira um apoio de emergência de 3,5 milhões de euros para ajudar a população africana. Em comunicado, a Comissão Europeia anuncia um “pacote inicial de ajuda de emergência de 3,5 milhões de euros”, após as “graves inundações e o ciclone tropical Idai terem causado um grande número de vítimas e danos em casas e infraestruturas em Moçambique, no Maláui e no Zimbabué”.

Bruxelas precisa que a verba “será usada para fornecer apoio logístico para as pessoas afetadas, como abrigos de emergência, higiene, saneamento e cuidados de saúde”. Do total, dois milhões serão alocados a Moçambique, um milhão ao Maláui e 500 mil euros ao Zimbabué. Além desta verba, a UE já deu 250 mil euros para ajudar a população afetada na região.

Citado pela nota, o comissário europeu para ajuda humanitária e gestão de crises, Christos Stylianides, salienta que a “UE está solidária” com o povo daquela região, pelo que a verba anunciada se destina às “necessidades humanitárias urgentes”. Christos Stylianides adianta que a União vai enviar técnicos para o local, que irão ajudar as autoridades locais e os parceiros humanitários.

O Presidente da República de Cabo Verde anunciou que a CPLP está a tentar desencadear uma ação de assistência a Moçambique. Na sua página na rede social Facebook, Jorge Carlos Fonseca, presidente em exercício da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), escreveu que está a aguardar um contacto pessoal com o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, mas que este “está difícil”.

O chefe de Estado cabo-verdiano revelou ainda que contactou o secretário executivo e homólogos da CPLP e que estes procuram “desencadear” uma ação de “mobilização e coordenação da assistência necessária e possível”. “A tragédia humana em Moçambique toca-nos fundamente”, lê-se na mensagem de Jorge Carlos Fonseca.

Costa expressa solidariedade e anuncia apoio. Secretário de Estado a caminho de Moçambique

O primeiro-ministro, António Costa, expressou solidariedade para com Moçambique, num “momento de grande dor”, e disse que Portugal está a preparar o envio de apoio, entre a Defesa e a Administração Interna.

António Costa disse que os Ministérios da Defesa Nacional e da Administração Interna estão reunidos esta tarde de terça-feira para “articular as capacidades de Proteção Civil e das Forças Armadas para dar todo o apoio ao povo irmão de Moçambique neste momento de grande dor”. O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas viajará esta terça-feira para Moçambique, disse.

“Temos de expressar toda a solidariedade, independentemente das organizações internacionais, toda a solidariedade bilateral para com um país irmão”, disse António Costa, em resposta a um pedido de esclarecimento da presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, durante o debate quinzenal, no parlamento, em Lisboa. Antes de entrar no tema que levou ao debate, a saúde, Assunção Cristas referiu-se à situação em Moçambique, pedido o empenho do primeiro-ministro junto das organizações internacionais perante a “tragédia humana que mostra o impacto do clima”.