O argumento de Mário Nogueira é simples: se a esquerda inviabilizar as propostas do PSD e do CDS para a recontagem do tempo de serviço estará a fazer um favor ao Governo e a deitar ao lixo mais de seis anos de carreira dos docentes que viram as suas carreiras congeladas. Para o líder da Fenprof, aceitar as condições colocadas pelo PSD e pelo CDS é sempre melhor do que ver todas as iniciativas chumbadas.

Em declarações à SIC Notícias, Mário Nogueira tentou sensibilizar Bloco de Esquerda e PCP. “A alternativa não é uma negociação sem critérios, é apagar esse tempo“, disse. Um argumento que não convenceu os bloquistas, que, ao início desta tarde, enviaram um comunicado às redações onde reafirmavam que iam manter o sentido de voto da Comissão de Educação. “Confirmaremos o voto favorável à recuperação de 2 anos 9 meses e 18 dias a partir de 2019 e à negociação do restante tempo de serviço a partir de 2020 sem direito a retroativos. Em coerência, rejeitamos as propostas que obrigam futuros governos a critérios impostos por Bruxelas para impedir a recuperação integral do tempo de serviço dos professores no futuro”, lê-se na nota.

Ou seja, o Bloco de Esquerda considera que as propostas da direita são uma cedência às instituições europeias e não uma reposição de direitos dos professores.

Já no PCP reina o silêncio. “O partido não vai reagir agora“, informou uma fonte oficial dos comunistas contactada pelo Observador. À semelhança do que acontece todas as segundas-feiras, a comissão política do partido vai reunir-se na Soeiro Pereira Gomes para discutir a atualidade política. “Não se trata de uma reunião sobre este tema em específico, embora seja expectável que seja debatido”, explicou a mesma fonte.

Só depois disso será assumida uma posição por parte dos comunistas. Tudo indica que o PCP mantenha a coerência e não mude o seu sentido de voto. Na votação indiciária, o partido votou contra as propostas que PSD e CDS querem agora avocar para plenário, em que se prevê “um travão financeiro” para a recuperação do tempo de serviço condicionado pelos indicadores económicos do país. Tanto nas declarações de Jerónimo de Sousa como nos comunicados que o partido emitiu desde sexta-feira, os comunistas têm repetido sucessivas vezes que vão “manter a posição”, não sendo expectável que a reunião desta tarde delibere em sentido contrário.

No entanto, o silêncio que tem reinado entre os comunistas desde o apelo de Mário Nogueira tem deixado espaço para que se comecem a fazer contas à direita. Isto porque um eventual voto favorável — ou até uma abstenção — por parte do PCP na votação das avocações pode fazer com que as propostas do PSD e do CDS sejam aprovadas, provocando assim a demissão do Governo. A probabilidade de que este cenário venha a concretizar-se é remota mas não tem sido posto de parte pela direita.

O Observador sabe que entre hoje e amanhã o PCP deve tomar uma posição sobre a matéria. Até lá, nenhum cenário está a ser descartado.