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Venezuela

Maduro prefere dar armas a milicianos que equipar enfermeiros, diz presidente do Colégio de Enfermagem

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Os enfermeiros venezuelanos alertam para a falta de ajuda humanitária no país e dizem que a incapacidade política do regime de Nicolás Maduro é a causa da "morte de doentes por falta de medicamentos".

Os enfermeiros locais referem que têm de atender entre 24 a 40 doentes por dia

PAULO CUNHA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Um grupo de enfermeiros do Hospital Universitário de Caracas fez, esta segunda-feira, um protesto para denunciar a situação dramática que se vive nos hospitais, considerando que “para Maduro é mais rentável dar armas aos milicianos do que equipar enfermeiros”.

Concentrados em frente do edifício do Hospital Universitário de Caracas, os enfermeiros quiseram deixar claro que o que está a acontecer “é um crime” e que “os venezuelanos estão a morrer por falta de medicamentos”.

Embora não disponha de números, porque desde 2014 que a Venezuela deixou de participar em tudo o que são convenções internacionais, Ana Rosario Contreras, presidente da Junta Diretiva do Colégio de Profissionais de Enfermagem do Distrito Capital – Caracas, lembra, a propósito do Dia Internacional da Enfermagem, que se assinalou no domingo: “Não temos nada para comemorar. Pelo contrário, hoje só temos é muitos motivos para protestar”. “Os doentes estão a morrer, porque falta material médico”, diz Ana Rosario Contreras, lamentando o que já foi um hospital emblemático e hoje não passa de “um fantasma em destruição, não há medicamentos, converteu-se em carne putrefacta, em urina, em evacuações constantes, porque não há água nem luz”.

A enfermeira fala em emigração forçada, em busca de melhores condições de trabalho, mas também de vida, já que na Venezuela os enfermeiros não têm “um salário que permita sobrevivência e ter uma vida familiar”. “Nós negamo-nos a abandonar o nosso país, negamo-nos a deixar morrer pacientes neste país, que tem sequestrada a liberdade, por isso estamos em luta”, disse, em declarações à Lusa.

Os enfermeiros alertaram ainda para os atrasos na distribuição de ajuda humanitária, nomeadamente da Cruz Vermelha Internacional. “A pergunta é, onde está? Como se vai distribuir? Quem vai distribuir? Quem são os beneficiários? Passaram muitas semanas, senhores da Cruz Vermelha…”, refere Maria do Rosario.

As denúncias que fazem são muitas, desde “crianças que morrem de cancro”, “doentes de diálise sem resolução”. Por isso garantem que vão continuar a protestar nas ruas contra a incapacidade do Governo de Nicolás Maduro, Presidente do país.

Em relação à profissão, a presidente do Colégio de Enfermagem refere os rácios internacionais que apontam para 8,8 enfermeiros para cada mil habitantes, mas aponta uma realidade muito diferente: “Na Venezuela, uma enfermeira tem de atender entre 24 a 40 doentes diários. Esse rácio de 8,8 sugere que cada enfermeiro devia dedicar 45 minutos diários a cada paciente. Lamentavelmente há muito tempo que vivem uma sobrecarga”.

Outro número revelador é que deveriam existir cerca de 300 mil destes profissionais de saúde. “Hoje há apenas uns 30 mil enfermeiros”, apontaram. Para os enfermeiros, “todos os 32 milhões de habitantes da Venezuela estão em risco”, pois “entrar num hospital é logo um risco, simplesmente porque não há sequer material para desinfeção”, adverte Ana Rosario.

As causas desta crise na área da saúde têm um responsável, segundos os enfermeiros. “Há razões políticas, há uma incapacidade que tem demonstrado o Governo de Nicolás Maduro para resolver os problemas de saúde”, consideram.

Em relação à frustração que sentem por não conseguirem atender os doentes que diariamente têm nos hospitais, Maria do Rosario Contreras diz que já passou, assim como o temor. Hoje, esse medo foi convertido “numa força para continuar a lutar para curar os pacientes, para cumprir o objetivo da sua formação, restituir às pessoas o direito à vida e à saúde”.

Ziomara Valenilla, também enfermeira, revela o outro lado da tragédia. Além das dificuldades para exercer a profissão, viu a sua filha morrer, em outubro, “por falta de medicamentos, de material médico, de material de cirurgia e por falta de pessoal”. A morte é traumatizante, mas também pensa nos outros: “Nesse dia foi a minha filha, mas todos os dias morrem venezuelanos nos nossos hospitais. Não há medicamentos e o Governo continua em silêncio. Basta”, frisa. Para esta enfermeira, “é um crime o que se está a passar nos hospitais” da Venezuela: “O regime genocida está a deixar morrer os doentes e as enfermeiras estão de mãos atadas”.

Lumidia Lizardi acabava de sair do hospital depois de visitar um doente e também quis denunciar aos jornalistas aquilo que viu no interior. “Estou de acordo com todos estes heróis, porque são heróis, os médicos e enfermeiros. O Governo não pode ficar calado, há pessoas a morrer. Nicolás Maduro, por favor, já basta, aceita ajuda humanitária”, apela Lumidia Lizardi.

A crise política na Venezuela agravou-se a 23 de janeiro, quando o líder do parlamento, Juan Guaidó, jurou assumir funções de presidente interino, formar um Governo de transição e organizar eleições livres, contando com apoio de mais de 50 países.

Na madrugada de 30 de abril, um grupo de militares manifestou apoio a Juan Guaidó, que pediu à população para sair à rua e exigir uma mudança de regime. Nicolás Maduro, no poder desde 2013, denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado.

À crise política na Venezuela soma-se uma grave crise económica e social, que já levou mais de 2,3 milhões de pessoas a emigrarem desde 2015, segundo as Nações Unias.

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