Desta vez, António Costa não deixou muito para as entrelinhas, embora só tenha posto em cima da mesa um único cenário para os tempos que aí vêm e em que vai ter de negociar com os outros partidos, já que não tem maioria absoluta. Ficou a 10 deputados dessa fasquia (pode ser que ainda fique a menos, se correr bem nos círculos da emigração por apurar). Quer chegar lá com os mesmos de sempre e também com PAN e Livre. O plano B é governar pontualmente, mas isso já pode chocar com a ambição de conseguir a estabilidade para quatro anos, ainda que Bloco e PCP estejam mais soltos (podem abster-se nas votações decisivas e ainda assim viabilizar).

Já passava da meia noite quando Costa chegou para o discurso de vitória do piso -1 do Hotel Altis, em Lisboa. O espaço estava igualmente cheio, mas bem mais eufórico do que há quatro anos, quando o socialista perdeu as eleições para a direita e deixou um discurso cheio de enigmas que acabaram por resultar num acordo, 54 dias depois, com o PCP, PEV e PCP. Agora, quer reeditar esse acordo, mesmo sabendo que os comunistas têm reservas. E quer ainda alargá-lo ao PAN, que reforçou a presença parlamentar, e ao Livre, que elegeu pela primeira vez.

[Começa agora a prova dos nove. O filme da noite eleitoral]

Há um dado que quer que fique claro: “Os programas do PCP e BE foram conhecidos e tiveram o apoio que os portugueses entenderam dar-lhe. O nosso teve apoio reforçado“. O PS é o único partido da “geringonça” que teve mais votantes do que em 2015 e António Costa sublinha isso numa altura em que se prepara para voltar à mesa das negociações com os parceiros dos últimos quatro anos. Quer ser ele a ditar as regras e é por isso que, questionado sobre o caderno de encargos que alguns partidos (nomeadamente o Bloco) lhe colocaram logo na noite eleitoral, o socialista avisou: “Não são só os outros que têm cadernos de encargos. O nosso caderno de encargos foi o que apresentámos aos portugueses e os portugueses aceitaram”.

A correlação de forças que o PS passou a campanha a dizer que era decisiva para definir o passo a dar no dia seguinte está determinada e os socialistas estão agora empenhados em sublinhar que foi apenas o seu partido que se fortaleceu. Deixou claro até que não falará apenas com PCP e Bloco, mas também com o PAN (que há quatro anos não chegou a acordo para entrar na solução governativa) e também com o Livre. O objetivo é também ele claro: “Um acordo de legislatura”.

Dia-a-dia. À Guterres

Sabe que o PCP não está interessado em repetir  — “já disse que o quadro é diferente” — e que o BE está disponível — embora coloque à cabeça voltar a mexer no Código Laboral –, e se não resultar como em 2015? “Se for possível dessa forma, excelente, se não for possível haveremos de encontrar caminho para assegurar estabilidade”. Os acordos pontuais — sem um acordo maior — são uma hipótese? “Se não houver vontade dos outros parceiros na continuidade dessa solução, terei de respeitar naturalmente essa vontade e teremos de prosseguir com um Governo do PS que trabalhará dia-a-dia para manter essa estabilidade ao longo dos quatro anos“. E tanto PCP como BE não rejeitaram isso. Dia-a-dia, caso a caso, Orçamento a Orçamento, ou melhor ainda: à Guterres (e no primeiro, de 1995 a 1999, foi mesmo ministro dos Assuntos Parlamentares e conhece dessa poda).

A pergunta até era sobre acordos com o PSD, caso a economia obrigue à contenção orçamental, quando Costa deixou cair esta resposta. Quando foi diretamente questionado sobre essa solução de negociar Orçamento a Orçamento, a resposta não foi tão clara. “O que correu bem não deve ser alterado”, insistiu dando conta da sua preferência pela reedição da geringonça.

O que é certo é que também não deixou de atirar aos parceiros da esquerda. Disse-lhes respeitar, por exemplo, “uma interpretação que o PCP possa fazer que estes quatro anos não correram como os portugueses avaliam que correram. É manifesto que rejeitaram a tese que estes quatro anos foram a luta da esquerda contra o PS. Manifestamente não foi. Também não disseram que esta era uma solução para não repetir”. Avisou ainda que “as contas certas” são para continuar, bem como “a redução do défice e a redução da dívida” — pontos sensíveis para a esquerda, que continua a clamar pelo rompimento com compromissos europeus nestas matérias.

Também sublinhou, a este propósito, que em 2015 a posição do então Presidente da República, Cavaco Silva, “para dificultar a constituição desta solução” foi fazer “exigências” que afinal resultaram em “condições que a solidificaram”. Essa “exigência” foi que o acordo ficasse firmado por escrito e com garantia de aprovação de quatro orçamentos. O máximo que António Costa convenceu os comunistas a aceitarem foi o “exame comum” de cada Orçamento e o apoio “na perspetiva de uma legislatura”. Se já foi um caminho difícil nessa altura, mais ainda agora que o PCP entra para a negociação a dar uma nega à Geringonça II.

Responsabiliza “todos” por aquilo que sair das negociações, garantindo que o seu objetivo é garantir “quatro anos de estabilidade para Portugal”. A pressão sobre a esquerda está feita.

Já sobre a direita, sublinhou “a derrota histórica” e diz que isso aconteceu “por não terem apresentado alternativa credível ao país, mas também a rejeição que os portugueses fazem de uma campanha eleitoral assente em casos e ataques pessoais” — Tancos na mente, mas continua a não aceitar falar na acusação que apanha o seu ex-ministro da Defesa. Também deu um chega para lá na extrema-direita, ao dizer que o PS não conta “com o Chega para nada”.