Falámos sobre a questão do racismo e sobre a forma de lidar com a situação. O Harry Kane até disse que se acontecer, devemos sair do relvado todos juntos. É uma coisa de equipa. Não isolar ninguém”. As palavras não chegam a ter uma semana e pertencem a Tammy Abraham, avançado inglês de origem nigeriana que joga no Chelsea e representa Inglaterra. Na antevisão do encontro da passada sexta-feira com a República Checa, Abraham foi questionado sobre o desta segunda-feira, com a Bulgária. O motivo era simples: numa altura em que o racismo é um dos temas em cima da mesa no futebol inglês — e tendo em conta que o próprio jogador já foi alvo de insultos desde o início da temporada –, os adeptos búlgaros já foram castigados por cânticos racistas e xenófobos num passado recente.

As declarações de Tammy Abraham, ainda assim, foram criticadas. As principais vozes críticas defendiam que os búlgaros estavam a ser condenados antes de cometerem qualquer crime — algo que, vistas bem as coisas, tem a sua quota parte de razão. Passou o jogo com a República Checa, que Inglaterra até perdeu, e chegou o encontro com a Bulgária em Sófia. E os adeptos búlgaros fizeram questão de dar razão a Abraham e aos restantes jogadores às ordens de Gareth Southgate. Marcus Rashford, um jogador negro (um pormenor absolutamente irrelevante mas que, nesta história, faz toda a diferença), inaugurou o marcador logo aos sete minutos. Foi nessa altura, logo depois do golo do avançado do Manchester United, que as bancadas do Estádio Vasil Levski se incendiaram com cânticos e insultos racistas, saudações nazis e sons que imitavam macacos.

O jogo esteve interrompido duas vezes devido aos cânticos e insultos que se ouviam das bancadas

O protocolo seguido foi o indicado pela FIFA: o speaker do estádio começou por avisar os adeptos de que o jogo seria interrompido caso os cânticos e insultos continuassem. Ao minuto 28, numa altura em que Inglaterra já ganhava por 0-2, o árbitro do encontro foi obrigado a parar o jogo. Depois de recomeçar, voltou a ser interrompido ainda antes do intervalo, quando o resultado já estava nos 0-3. Gareth Southgate discutiu de forma visível e intensa com a equipa de arbitragem mas os jogadores ingleses — visivelmente abatidos e afetados por tudo o que se estava a passar — acabaram por permanecer dentro de campo, ao contrário do que tinha sido dado a entender por Tammy Abraham dias antes. Durante o intervalo, e numa atitude que está a ser louvada, o capitão da seleção da Bulgária dirigiu-se às bancadas e pediu aos adeptos que parassem. Na segunda parte, que os ingleses só jogaram “para que os racistas não ganhassem”, segundo o presidente da Football Association Greg Clarke, o abuso racial acalmou mas surgiram nas bancadas camisolas onde se lia no respect, “sem respeito”, a contrariar o slogan da UEFA, que é simplesmente a palavra “respeito”.

No final da partida, Inglaterra goleou a Bulgária por 0-6 e Raheem Sterling, uma das caras contra o racismo no futebol e um dos principais visados pelos búlgaros, marcou dois golos. Mas Gareth Southgate, o selecionador inglês, estava visivelmente incomodado com tudo o que se passou em Sófia. “Os jogadores queriam continuar a jogar mas todos sabíamos que se algo acontecesse na segunda parte, íamos embora. Infelizmente, devido às experiências que já tiveram no próprio país, são duros. Não sei o que é que isso diz sobre a nossa sociedade mas é a realidade. E isso entristece-me (…) Tomámos uma enorme posição com a forma como jogámos, em circunstâncias tão difíceis. Acho que um jogo desta magnitude nunca tinha sido interrompido duas vezes. Por isso, estou incrivelmente orgulhoso de todos os jogadores e de todo o staff”, explicou Southgate.

O assunto, que já era manchete em todos os jornais ingleses — desportivos ou não –, ganhou ainda mais relevo com as declarações do selecionador búlgaro, Krasimir Balakov, o antigo jogador do Sporting. “Pessoalmente, não ouvi nada. Vi o árbitro a parar o jogo mas tenho de dizer que o mau comportamento não foi só dos adeptos búlgaros, foi também dos ingleses, que estavam a assobiar e a gritar durante o hino nacional da Bulgária. E durante a segunda parte usaram palavras contra os nossos adeptos que eu acho inaceitáveis”, afirmou Balakov. Já Boyko Borissov, o primeiro-ministro do país, condenou os adeptos e pediu a demissão imediata do presidente da Federação búlgara. Até agora, a UEFA ainda não fez qualquer comentário à situação e ainda não revelou se vai ou não castigar a seleção da Bulgária.