Guo Ping, o chairman (líder rotativo) da Huawei, era um dos nomes mais esperados para o arranque da Web Summit. No Altice Arena, no mesmo palco onde minutos antes Edward Snowden tinha avisado que as tecnológicas fazem parte do problema da humanidade — “se temos de confiar na Nokia ou na Huawei, temos um problema”, disse o denunciante — Guo Ping esquivou-se do elefante na sala. Não houve reafirmações de confiança na Huawei nem promessas de um futuro de cooperação diplomática risonho. Houve um “5G+X” (título da conferência).

Como o título da conferência, até ao fim ficou a incógnita: vai Guo Ping falar sobre a polémica em que a Huawei está, com os EUA e a Comissão Europeia a afirmar que há razões para ter desconfiança na empresa? “Hoje é uma oportunidade de ouro para a nossa indústria (…). Queremos criar uma nova era inteligente [smart]. Isto pode inteligência e dados. Como todos sabem, o 5G é para indústria que ainda estão a nascer”, disse o líder da Huawei sem sequer tocar no assunto.

Durante o resto do tempo, Ping, que tem liderado a empresa num dos períodos mais complicados que atravessa, focou-se na importância da tecnologia que vai mudar várias indústrias. “Prevemos 60 redes de telecomunicações 5G até ao final do ano. Um milhão de utilizadores assinaram contratos 5g durante os primeiros 60 dias. Permite três vezes mais dados do que um um utilizador 4G consegue”, referiu Ping.

Relativamente aos problemas de segurança que a tecnologia levanta, nada, apenas o cenário otimista. Para mostrar o copo meio cheio que o 5G vai trazer, Ping mostrou um vídeo sobre a forma como esta tecnologia ajuda no diagnóstico médico de perda de visão ou como permite que as comunicações de canto a canto do mundo não tenham quebras técnicas. “O 5G é uma atualização na nossa estrutura vertical de comunicações”, referiu, ao falar de programas da empresa para incentivar programadores a criarem projetos com as suas tecnologias.

Apesar de nos EUA a Huawei estar numa lista negra e as empresas norte-americanas estarem proibidas de negociar com a tecnológica chinesa, na Europa as restrições têm sido, para já, maioritariamente no espectro político. Com as primeiras redes 5G a serem implementadas em alguns países, em Portugal a melhor previsão é que sejam lançadas apenas em 2020 e ainda não há informação sobre se vai haver ou não restrições à Huawei.

A Altice, a NOS e a Vodafone têm afirmado ter confiança na Huawei, continuando a contar com a empresa como fornecedora de equipamentos de telecomunicações. No final da conferência, o pitch de Ping na Web Summit quase que pareceu direcionado a ao mercado onde estava que, pelo forma como não falou do assunto em palco, parece não preocupar o líder da empresa.

“A Huawei está ansiosa de trabalhar com a indústria e com as startups para criar o futuro das aplicações. Convidamo-vos a criar uma nova era inteligente [smart]”, terminou Ping, num pavilhão onde o ministro adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira, se sentou na primeira fila, logo no início desta conferência (não esteve presente durante Snowden).

Nesta segunda-feira, a Huawei revelou um estudo sobre o impacto económico da Huawei na Europa no ano passado, realizado pela consultora britânica Oxford Economics. Neste, a empresa chinesa diz que teve um impacto de 12,8 mil milhões de euros no PIB dos países europeus em 2018. No caso de Portugal, a Huawei diz que pesou 50 milhões de euros no PIB nacional no ano passado.

Ainda este domingo, a Bloomberg avançou que a guerra comercial entre a China e os EUA, que tem a Huawei no meio, vai começar a ser desbloqueada. Até meio de novembro, se os EUA e a China não chegarem a acordo, acaba o período de benevolência que permite ligações de empresas norte-americanas com a Huawei.

No final de maio, os EUA emitiram um decreto executivo que proibia negócios com a Huawei. Rapidamente, e depois do alvoroço criado pela cessação de parcerias com a maioria das empresas tecnológicas norte-americanas — como a Google, que detém o Android, ou a fabricante de chips Qualcomm —, houve uma suspensão dos efeitos do embargo até agosto e, nesse mês, foi alargado para o próximo 17 de novembro.

Como medida para salvaguardar o seu negócio, a Huawei anunciou recentemente que vai lançar o seu próprio sistema operativo, que poderá vir a concorrer com o Android, que é utilizado como base dos smartphones da empresa, uma medida que foi encarada como um dos planos para a empresa mostrar que pode não vir a depender tanto de empresas norte-americanas. Além disso, tem anunciado vários contratos para redes 5G, como na Rússia.

Com o prolongamento da suspensão do embargo até novembro, as empresas norte-americanas podem continuar a negociar com a tecnológica chinesa. Contudo, será apenas até este mês. Em 2018, a Huawei gastou cerca de 10 mil milhões de euros a comprar componentes a empresas norte-americanas. A empresa chinesa depende de ligação a empresas dos EUA para continuar a fabricar produtos como tem feito até à data. Além do software Android, a tecnológica precisa de utilizar chips e ter licenças para fabricar vários dos produtos.

A Web Summit é a maior feira de empreendedorismo e tecnologia da Europa e vai decorrer entre 4 e 7 de novembro, na FIL e na Altice Arena, em Lisboa. Entre os oradores confirmados estão nomes como Brad Smith, responsável jurídico e presidente da Microsoft, Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, e a comissária europeia Margrethe Vestager. A Huawei tem este ano uma presença dominante no evento, com vários stands dedicados ao 5G.