Desde a morte de Soleimani, os 34 militares portugueses no Iraque só podem circular de colete à prova de bala. “Até aqui, os militares portugueses tinham de andar dentro da base com o colete à prova de bala e o capacete sempre à mão. Hoje, quando circulam, têm de andar com o colete envergado, não vá haver algum rocket que caia lá dentro, e o capacete, arma pessoal e óculos”, explicou ao Público (conteúdo fechado) o chefe do Estado-Maior do Comando Conjunto para as Operações Militares, general Marco Serronha.

Também não podem sair da base de Besmayah, que fica a 50 quilómetros de Bagdad, e a cerca de 300 km da base de Al Asad e a 400 km da base de Erbil, os dois locais atingidos esta noite por 15 mísseis iranianos, em retaliação pelo assassinato, por ordem de Trump, do general iraniano Qassem Soleimani, comandante da força de elite iraniana Al-Quds.

Os militares portugueses estavam a dar formação a forças de segurança dentro da base e numa carreira de tiro próxima. Mas a missão está suspensa, porque os iraquianos deixar de aparecer depois de Soleimani ter sido abatido. “Os portugueses não andam lá aos tiros ao Daesh”, assegurou o general Marco Serronha ao Público, estimando em “uma dúzia” o número de militares americanos na mesma base onde estão os portugueses.

Ministro: “Se não for para dar formação, então não faz sentido lá estarem”

Horas antes do ataque iraniano às bases americanas, o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, garantiu: “A força nacional destacada está perfeitamente salvaguardada, está em segurança, está a cerca de 30 ou 40 quilómetros de Bagdade, num local chamado Besmayah, que é um acampamento militar, é uma base militar portanto está perfeitamente protegida”.

Em declarações à agência Lusa à margem de uma visita ao centro de apoio social de Oeiras do Instituto de Ação Social das Forças Armadas, o ministro assinalou que “a missão desta força não é uma força de combate, é uma força de formação”.

“Neste momento a formação está suspensa, mas a nossa expectativa é que ela venha a ser retomada dentro de algum tempo, logo que houver uma normalização, e eles continuarão a fazer o trabalho para o qual foram para o Iraque”, advogou.

Esta missão, que teve início em novembro, deveria terminará em maio. “Se não for para dar formação, então não faz sentido lá estarem”, afirmou João Gomes Cravinho. “A nossa esperança é que se possa retomar o trabalho dentro das próximas semanas, porque é isso que faz sentido, é isso que dá sentido à nossa missão no Iraque. Se isso não for possível, então obviamente teremos de reequacionar a existência desta força nacional destacada no Iraque”, sublinhou.

Na missão da NATO, iniciada em 2018 e também de formação e treino, está, desde dezembro passado, uma major portuguesa, colocada igualmente na base de Besmayah.

Por agora, esclareceu João Gomes Cravinho, o Governo vai “esperar que a situação se esclareça”, na esperança de que “em breve possam retornar às atividades de formação”. O ministro da Defesa Nacional explicou que os militares portugueses “estão enquadrados pelo contingente espanhol, um contingente muito maior” do que o português. “E já no fim de semana tive oportunidade de falar com a senhora ministra da Defesa de Espanha por telefone, comparar as nossas ideias. Estamos perfeitamente sintonizados, tal como com a generalidade dos países aliados”, precisou.

Costa foi ao Iraque antes do Natal e ofereceu relógios aos militares

Recorde-se que uma semana antes do Natal, a 18 de Dezembro, estes militares portugueses no Iraque receberam a visita do primeiro-ministro durante quatro horas. António Costa elogiou, no Iraque, o contributo dos militares portugueses em missões externas para o prestígio internacional do país e para a segurança coletiva, considerando vital que as ameaças sejam combatidas nos seus focos de origem.

O primeiro-ministro defendeu a tese de que Portugal, ao longo de nove séculos, “assegurou sempre a independência nacional projetando a sua capacidade de influência” no plano externo.

Daí ter considerado “fundamental o papel desempenhado pelas Forças Armadas e pelo conjunto das forças de segurança nacionais em missões externas”.

“Embora não haja qualquer ameaça direta em relação ao território nacional, Portugal está num mundo onde há várias ameaças globais e que são atualmente cada vez mais diversificadas. Antes as guerras faziam-se entre Estados, agora fazem-se entre Estados e grupos mais ou menos organizados”, advogou, numa alusão indireta à atual conjuntura do Iraque.

Essas ameaças à segurança coletiva, de acordo com António Costa, “infiltram-se no continente africano ou podem estar na origem de uma explosão de uma bomba no centro de Londres ou de Nova Iorque”. “O combate a estas ameaças deve começar o mais próximo possível do ponto de origem dessas mesmas ameaças. Quero agradecer muito a vossa missão”, disse.

António Costa ofereceu relógios aos militares como presente de Natal. Depois disse à Lusa: “A presença das Forças Armadas portuguesas e também das forças de segurança nacionais nestas missões destacadas são da maior importância para afirmar a credibilidade externa do país e para termos uma participação ativa em organizações internacionais como as Nações Unidas ou a NATO, ou nas coligações que celebramos. É muito importante que o poder político dê um sinal inequívoco de apoio”.