A Inspeção Geral da Administração Interna (IGAI) iniciou um processo administrativo ao Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública (SUPSP), avança o Público. O ato da IGAI surge devido a uma publicação do SUPSP no Facebook na qual era referido que Cláudia Simões, a mulher que foi detida na Amadora em frente à filha num autocarro da Vimeca, podia ter “doenças graves”, inferindo que podia ter contagiado o agente que a deteve. A publicação foi, entretanto, apagada do Facebook.

A publicação original do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública

A IGAI pediu ainda à Direção Nacional da PSP para se pronunciar sobre a publicação, entidade que se tem afastado da responsabilidade sobre o conteúdo. Esta associação sindical da PSP é a mesma que em 2018 divulgou fotografias de assaltantes que fugiram de um tribunal no Porto e que agrediam idosos, num momento em que estavam algemados. Posteriormente, após críticas à divulgação da imagem, o sindicato divulgou no Facebook a imagem de um polícia numa cama de hospital.

O Sindicato Unificado da PSP é presidido por Peixoto Rodrigues, um agente da PSP que em 2019 foi constituído arguido pelos crimes de peculato e falsificação de documento, como avançou o Diário de Notícias, acusado de ter beneficiado de um “acordo” entre os agentes da autoridade e alguns funcionários da Transportes Sul do Tejo (TST), no âmbito do qual os primeiro trocavam alegadamente por dinheiro as requisições que a PSP lhes entregara para carregamento de passes. O agente da PSP foi ainda candidato às eleições europeias pelo partido Chega, liderado pelo deputado André Ventura.

Cláudia Simões, uma portuguesa de 42 anos, foi alegadamente agredida por agentes da PSP na noite de dia 19, na Amadora, em frente à filha Vitória, de 8 anos, tendo ficado “num estado grave” e foi conduzida ao Hospital Amadora-Sintra. Nas redes sociais foi publicado um vídeo com parte da detenção, no qual é possível ver um agente da PSP em cima da mulher. Na causa do incidente terão estado desacatos com o motorista do autocarro e, posteriormente, com a PSP, por Vitória não ter um um bilhete para andar no autocarro. O caso foi denunciado pela associação SOS Racismo esta segunda-feira dizendo que se tratou de uma questão de racismo por a mulher ser negra.

Em comunicado no mesmo dia, a Direção Nacional da PSP, afirmou que o motorista terá chamado o agente que estava de patrulha na rua porque havia uma mulher que se recusava a “proceder ao pagamento da utilização do transporte da sua filha, e também pelo facto de o ter ameaçado e injuriado”. E apresenta uma versão diferente do caso: “A cidadã, de imediato e sem que nada o fizesse prever, mostrou-se agressiva perante a iniciativa do polícia em tentar dialogar, tendo por diversas vezes empurrado o polícia com violência, motivo pelo qual lhe foi dada voz de detenção”, pode ainda ler-se no comunicado.

“A partir desse momento, alguns outros cidadãos que se encontravam no interior do transporte público tentaram impedir a ação policial, nomeadamente pontapeando e empurrando o polícia”, disse ainda a PSP. Cláudia afirma que, depois de ser detida, foi agredida.

O agente agora acusado de agressão já recebeu louvores de dois ministros

Carlos Canha, atualmente agente na esquadra do Casal de São Brás, na Amadora, fez parte do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, revelou [acesso condicionado] esta quinta-feira o Expresso. Em 2009, chegou a ser distinguido pelos então ministros da Administração Interna e da Justiça, Rui Pereira e Alberto Costa, respetivamente.

Nos documentos que louvam o agente da PSP, referem-se a “a lealdade, o zelo, o aprumo, a discrição e a total disponibilidade de que deu provas” durante o serviço que desempenhou  neste corpo de “elite” da PSP. Carlos Canha continuaria a desempenhar funções de proteção ao ministro da Administração Interna.

Depois de ter estado ausentado da PSP, o agente terá tentado voltar ao Corpo de Segurança Pessoal desta polícia, não o tendo conseguido, percurso que o terá levado à esquadra da Amadora.

Comissão contra discriminação racial participa ao MP de sindicato da PSP

Ainda sobre a mesma publicação, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) apresentou queixa ao Ministério Público.

A ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, deu conta da participação no decurso da sua audição parlamentar no âmbito das discussões na especialidade do Orçamento do Estado para 2020 (OE2020), em resposta a uma intervenção da deputada socialista Isabel Moreira, que mencionou a publicação do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública nas redes sociais que mostrava uma fotografia das mãos com ferimentos ligeiros do polícia que alegadamente agrediu Cláudia Simões, de 42 anos, na Amadora, e que insinuava que a mulher agredida teria doenças graves.

“A presidente da CICDR instaurou hoje a abertura oficiosa de um procedimento contraordenacional face à publicação que referiu do sindicato que referiu. Contudo, porque está em causa um crime, foi enviada também [a participação] para o Ministério Público. A importância da CICDR também é saber distinguir e atuar face à diversidade e ao diferente nível das queixas que recebe, o que neste caso faz”, disse a ministra.