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Num dia igual aos outros, na cidade feliz de Oran, de frente para o mar Mediterrâneo, um rato saiu das sombras e veio morrer ensanguentado numa rua primaveril. Pensou-se que era coisa de adolescentes ociosos, até que dezenas, centenas e depois milhares de ratos juncaram a cidade quase indiferente. Só quando morreu o primeiro homem é que o doutor Rieux teve coragem de pronunciar a palavra: “peste”. Mas já era então tarde demais.

Oran, uma cidade real da Argélia onde, ao longo da história se registaram vários episódios de peste e epidemias várias, foi o cenário escolhido por Albert Camus para, em 1947, escrever aquela que muitos consideram ser a sua obra-prima e que integra o chamado Ciclo da Revolta, juntamente com os romances O Homem Revoltado e Os Justos. E se, nos anos 40, ela foi lida como uma metáfora do nazismo que destruiu a Europa, o tempo confirmou o seu simbolismo muito mais abrangente; uma crónica sobre a desmesurada força da Natureza contra a força humana, desvelando todo o absurdo da nossa condição. Absurdo que só se supera com a revolta, revolta que aqui toma a forma do altruísmo. Numa cidade fechada, assolada pela doença e a morte. Sem Deus, sem medicamentos, resta aos homens a possibilidade de se salvarem uns aos outros.

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