Tiago Rebelo escolheu o caminho da engenharia aeronáutica “porque era tímido”, confidencia, sentado numa cadeira branca, minimalista, no piso térreo do grande edifício futurista do Ceiia, o Centro de Engenharia e Desenvolvimento, localizado numa das entradas privilegiadas de Matosinhos. O mar está a menos de um quilómetro e em trinta passos podemos alcançar o hangar multiusos que, numa semana pode ter aviões e na semana seguinte pode ter ventiladores e carros híbridos.

Quando era criança, não sonhava com o espaço, mas apaixonou-se por ele. E também nunca sonhou que os conhecimentos de Engenharia Aeroespacial pudessem, um dia, vir a ser úteis para fazer um “ventilador pandémico”. Mas, aos 29 anos, é hoje o mais jovem coordenador de sempre dessa entidade privada fundada em 1999, que aposta na investigação aplicada e na inovação, liderando a equipa de 120 pessoas responsável pelo ventilador.

O Atena V1 foi o projeto mais fácil de gerir, porque toda a gente estava motivada para a causa.”

O ventilador mecânico invasivo desenvolvido em Matosinhos está validado em Portugal dentro do regime de exceção, pronto “para dar suporte a qualquer doente com pneumonia aguda causada por Covid 19”, diz o coordenador do Ceiia. “É a diferença entre a vida e a morte.” Ou seja, é o plano B, caso o país deixe de ter disponíveis ventiladores com marcação CE, uma certificação do espaço económico europeu. Tiago Rebelo garante que é fácil de utilizar, rápido de produzir e com preço competitivo, estimado em cerca de 13 mil euros.

O projeto angariou 1,8 milhões de euros graças a mecenato, crowdfunding e apoios à investigação por parte de entidades como a Fundação “La Caixa” (ver caixa em baixo), Fundação Calouste Gulbenkian, EDP, REN, Efacec, empresas do Grupo Sonae e Medinfar. Dos cem ventiladores desenvolvidos para doação ao Sistema Nacional de Saúde, uma parte já foi entregue aos hospitais, outros permanecem no Ceiia como estratégia SOS. Atualmente, o centro de investigação tem stock de componentes e equipamentos para fabricar, pelo menos, mais 900 ventiladores Atena V1.

Na Unidade de Desenvolvimento de Produto e Serviço todos se empenharam em dar a melhor resposta a um problema que se temia em março: a falta de ventiladores no SNS. Agora o tema volta a estar na ordem do dia

Rebelo tem um protagonismo oposto ao que achou que iria ser o seu percurso. Pensou que seguir Engenharia Aeroespacial seria a desculpa infalível para se manter, profissionalmente, nos bastidores. Mas a vida tratou de fazer o oposto. A prova mais recente foi quando, em pleno pico da pandemia de Covid-19, este engenheiro que acredita que um dia teremos carros voadores teve de apresentar o Atena V1 a um grupo restrito de vinte médicos. Nesse dia, o ventilador não ligava e não havia qualquer razão aparente. Durante cerca de duas horas, o engenheiro tímido contou a história do ventilador.

Relatou como, por exemplo, se aliou ao conhecimento médico os conhecimentos das áreas das engenharias eletrónica, de software, mecânica, dinâmicas de fluidos e pneumática. Durante esse improviso de storyteller, os colegas conseguiram corrigir uma linha de código na programação. Missão superada.

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Mas a conspiração da vida para o tirar do lugar conforto começara logo na caminhada académica. Para tirar o curso de Engenharia Aeronáutica fez as malas desde a margem sul do Tejo, no Montijo, rumo à Universidade da Beira Interior, na Covilhã. Depois, aos 20 anos, “frágil e sozinho”, saiu do país para ser o primeiro português a integrar o programa internacional Erasmus Mundus Master Course in Space Science and Technology da SpaceMaster. Obteve duplo mestrado em Ciência e Tecnologia Espacial. Nessa altura, teve de viver durante seis meses em Kiruna, na Suécia, em pleno Círculo Polar Ártico, para estudar Física Espacial e auroras boreais. Essa vivência num lugar tão inóspito, “com a escuridão, com a solidão”, numa cidade que pode atingir temperaturas de 30 graus negativos, confinado à vida em comunidade com outros colegas de 26 nacionalidades, foi o dínamo para mudar a cadeia dos acontecimentos. Percebeu que era feliz na relação intercultural e como isso influenciaria o seu estilo de liderança de equipas e a gestão de negócios. “É algo que continuo a trazer para tudo aquilo que faço: mostrar a fragilidade não tem o mínimo problema e dependemos uns dos outros enquanto seres humanos e uma equipa também é isso.”

Tiago Rebelo estudou em cinco universidades, terminou o mestrado na Alemanha, na Airbus, um dos grandes fabricantes europeus de aviões e satélites. Com 22 anos voltou para Portugal para fazer o Doutoramento MIT-Portugal, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. No ano seguinte, integraria a equipa do Ceiia, na então nova área de Investigação e Desenvolvimento. E o Doutoramento foi para a gaveta. Começou com iniciativas de I&D e, aos 27 anos, assumiu a direção da Unidade de Desenvolvimento de Produto e Serviço. “Só numa organização aberta à mudança como esta é que um miúdo como eu poderia ter feito o percurso que fez e ir crescendo.”

O ventilador que se segue

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O Atena V1 originou um conhecimento exclusivo a que “é preciso dar sustentabilidade”. Por isso o Atena V2 está já em desenvolvimento no 4Life Lab, laboratório formalizado recentemente e liderado pelo Hospital de São João, no Porto, em parceria com o Ceiia, a Universidade do Minho, o Hospital de Braga e a Efacec, entre outros parceiros nacionais. Será criada uma linha de investigação autónoma, fora do Ceiia, apostando no desenvolvimento de um ventilador invasivo com certificação CE, para competir no mercado global. A concretizar-se, o Atena V2, para o qual  se espera resultados nos próximos dois anos, colocará Portugal na linha da frente da criação de ventiladores médicos.

O desenvolvimento do Atena V1 é um bom exemplo dessa abertura da empresa. Nunca antes se tinham colocado desta forma engenheiros e médicos a desenvolver um equipamento clínico. Sobretudo num país sem essa tradição e dependente do mercado externo. Por isso, naquele sábado de março – e já em teletrabalho – quando o CEO do Ceiia lhe telefonou a dizer que tinham de concentrar esforços para desenvolver um ventilador, senão poderia acontecer um colapso, este engenheiro que lê Jane Austen e livros de liderança, habituado sobretudo a desenvolver projetos de aeronáutica e para a indústria automóvel, pensou: “E agora, como se faz um ventilador?”

Hoje sabe explicar minuciosamente todo o processo, relaciona os vários modos de ventilação, ao mesmo tempo que fala fluentemente sobre investigação aplicada, gestão e negócios. Para ele, desenvolver um ventilador “é relativamente simples, do ponto de vista da engenharia”. O que o torna “complexo” é “a segurança e a viabilidade”, garantindo o funcionamento “de uma forma repetitiva e constante” ao longo da necessidade do paciente de Covid-19.

Temos duas fases da doença: a fase crítica e a fase aguda que pede ora ventilação em volume, ora ventilação em pressão. O Atena foi pensado assim.”

O V1 está neste momento em testes num laboratório na Alemanha. Este mês vão iniciar-se ensaios em humanos, nos hospitais de Braga e de Santo António, no Porto, “para fazer prova da não inferioridade do ventilador face a outros ventiladores comerciais”. Trata-se de um ensaio “voluntário com doentes em cuidados intensivos com pneumonia aguda, mas não necessitam de ser com Covid 19”. Enquanto isso, o negócio com o Brasil de venda de cerca de 800 ventiladores está em stand by. Rebelo considera no entanto que poderá ter havido uma má interpretação da opinião pública do pedido de maior demonstração do Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, responsável (também) pela autorização de introdução no mercado de novos equipamentos. No fundo, trata-se de um sistema de respiração artificial, de baixo custo e fácil montagem, como alternativa excecional para suprir a carência de ventiladores médicos. “Acima de tudo, estes ventiladores são úteis num contexto pandémico”, ressalva, indicando que os testes que estão a fazer vão para “além do regime de exceção”, para fazerem “prova inequívoca do funcionamento do ventilador”.

“E agora, como se faz um ventilador?”, perguntou Tiago Rebelo quando o CEO lhe telefonou em março a pedir para pensar nisso. Hoje sabe explicar todo o processo, relaciona os vários modos de ventilação, ao mesmo tempo que fala fluentemente sobre investigação aplicada, gestão e negócios

Como o Atena V1 é um ventilador a prazo, “de backup”, o jovem coordenador ressalva que têm de procurar outros mercados para disponibilizar “estes ventiladores em países de carência e de necessidade”. Neste momento, estão também em processo de submissão do Atena V1 ao escrutínio da Food and Drug Administration (FDA), porque há uma empresa norte-americana interessada em comprar os ventiladores para os colocar na Índia e na África do Sul. Há já uma encomenda de 500 ventiladores, com uma opção de outros 400, “condicionada à aprovação na FDA e condicionada a eles ficarem com a licença de produção destes equipamentos para o mercado americano”.

Este artigo faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação “la Caixa” e o BPI. O projeto Desenvolvimento e Produção Descentralizada do Ventilador Atena, liderado por Tiago Rebelo, do Centre of Engineering and Product Development (CEiiA), foi um dos seis selecionados (dois em Portugal) – entre 349 candidaturas – para financiamento pela fundação sediada em Barcelona, ao abrigo da edição especial dedicada à Covid do programa Caixa Impulse. O investigador recebeu 300 mil euros. O CaixaImpulse promove a transformação do conhecimento científico criado em centros de investigação, universidades e hospitais em empresas e produtos que geram valor para a sociedade. As candidaturas para a edição de 2021 abrem em fevereiro do próximo ano.