As primeiras projeções começaram por dar boas perspectivas a Benjamin Netanyahu, mas, à medida que as horas foram passando, a tão ambicionada maioria tornou-se cada vez mais difícil e o impasse político pode continuar em Israel.

Com 88% dos votos contados, confirma-se que o Likud é o partido mais votado, conseguindo eleger 30 deputados no Knesset (parlamento), mais 13 que o seu principal adversário, o centrista Yesh Atid, de Yair Lapid.

No entanto, o bloco pró-Netanyahu, que além do Likud incluiu três partidos religiosos, está a dois deputados de conseguir chegar aos 61 deputados, o número mágico que permite a formação de uma maioria, contando com a possibilidade e o Yamina (sete deputados) vir a chegar a acordo com o atual primeiro-ministro.

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A divulgação dos resultados finais é esperada apenas na sexta-feira, e até lá tudo pode mudar, como foi comprovado esta noite, em que Netanyahu começou por celebrar mas agora vê a maioria a poder escapar-lhe pela quarta vez.

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De acordo com os resultados conhecidos até à manhã desta quarta-feira, do bloco pró-Netanyahu, o Shas e o Judaísmo da Torá Unido conseguem, respetivamente, nove e sete deputados, enquanto o partido Sionismo Religioso, de extrema-direita, ultrapassa o limiar de 3,25% e consegue entrar no Knesset com seis deputados.

Nesta contas, Netanyahu consegue, ao que tudo indica, o apoio de 52 deputados e mesmo com os sete do Yamina (extrema-direita), de Naftali Bennett, fica a dois lugares de conseguir a maioria absoluta.

Por seu turno, o bloco anti-Netanyahu, que junta partidos de todas as áreas políticas, da esquerda à extrema-direita, no total, junta 61 deputados (aos 17 do Yesh Atid, juntam-se os oito do Azul Branco, os sete tanto para Partido Trabalhista como Israel Beitenu, os seis para a Lista Conjunta e para o Nova Esperança, e o cinco conseguidos tanto pelo Meretz como pelo Ra’am).

No entanto, mesmo que estes partidos consigam os 61 deputados, as divergências ideológicas podem dificultar um acordo de governo, tendo em conta que os partidos têm pouco em comum além do desejo de ver Netanyahu afastado do poder.

Na primeira declaração sobre as projeções, após telefonar aos seus aliados políticos, Netanyahu agradeceu aos israelitas que votaram no Likud e falou numa “grande vitória para a direita”. “O Likud é de longe o maior partido. É claro que a maioria dos israelitas são de direita e que querem um governo de direita estável e forte”, afirmou o primeiro-ministro israelita no Twitter.

Enquanto se aguardam os resultados finais, os partidos já começaram em conversações, e Netanyahu espera conseguir chegar a acordo com Naftali Bennett, apontado como o actor político decisivo para o desfecho destas eleições.

Até à divulgação dos resultados finais, é expectável que os cenários em cima da mesa continuem a mudar à medida que forem contados mais votados, permanecendo, por isso, três possibilidades em cima da mesa: uma maioria de Netanyahu; uma maioria do bloco anti-Netanyahu; ou o impasse político que, no limite, pode levar a umas quintas eleições.

Independentemente da solução governamental que venha a ser encontrada, certo é que o Knesset passa a ser composto maioritariamente por partidos de direita, verificando-se um crescimento dos partidos religiosos e extremistas, como é o caso do Sionismo Religioso, um partido com ligações a um movimento extremista judaico, que defende a expulsão de árabes do Estado hebraico e anexação total da Cisjordânia, além das suas posições contra a comunidade LGBT ou contra o papel das mulheres na política.

Aumento da abstenção

Nas três últimas legislativas em Israel, em abril e setembro de 2019 e março de 2020, Netanyahu enfrentou o mesmo rival, o ex-chefe das Forças Armadas e líder da coligação centrista Azul e Branco, Benny Gantz, de centro-esquerda. Após três duelos sem vencedor, os dois formaram em maio de 2020 um governo de união para enfrentar a pandemia, que caiu em dezembro, após o orçamento de Estado ser chumbado.

Nestas eleições, o eleitorado anti-Netanyahu decidiu punir Gantz por ter aceitado coligar-se com o líder do Likud, e o partido vê assim a sua representação parlamentar diminuir substancialmente (de 35 para sete ou oito deputados).

Com a perda de influência de Gantz, os principais adversários de Netanyahu nestas eleições foram ex-ministros dos seus executivos, e a disputa eleitoral deixou de ser entre o clássico esquerda-direita, para passar a ser entre os que querem a continuidade de Netanyahu no poder e os que o querem fora da vida política.

A campanha foi condicionada pela pandemia de Covid-19, que se tornou no tema central da mesma, juntamente com as acusações de corrupção de que Netanyahu é alvo.

Netanyahu esperava que o sucesso na vacinação contra a Covid-19 — mais de metade da população israelita já recebeu a segunda dose da vacina — lhe permitisse conseguir uma maioria confortável, pondo fim a uma instabilidade política que se prolonga há dois anos. No entanto, o primeiro-ministro foi igualmente criticado pelas medidas tomadas antes do início da campanha da vacinação, e o desgaste de 12 anos de poder, agravado pelas acusações de corrupção, podem prejudicar as pretensões de Netanyahu.

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Estas eleições contrariam ainda uma tendência que se verificou nas últimas idas dos israelitas às urnas, verificando-se um aumento da abstenção.

Segundo os números do Comité Central de Eleições, votaram 67,2% dos israelitas elegíveis, menos 4,3 pontos percentuais comparativamente às eleições de março de 2020, quando votaram 71,5% dos israelitas. A participação eleitoral nas legislativas desta terça-feira foi a mais baixa desde 2013.

As urnas encerraram às 22h em Israel (20h em Portugal continental). Devido à pandemia de Covid-19, no entanto, as autoridades eleitorais já alertaram que a contagem dos votos poderá demorar mais tempo, e é expectável que os votos continuem a ser contados na quarta-feira e que os resultados finais demorem alguns dias até serem conhecidos, sendo expectável que sejam divulgados na sexta-feira.

Partidos dramatizaram e apelaram ao voto

Durante a tarde, Netanyahu esteve a fazer campanha em Beersheba, no sul do país, e pouco depois, segundo as Forças de Defesa de Israel, foi disparado um rocket a partir da Faixa de Gaza.  No entanto, de acordo com o Times of Israel, não há registo de quaisquer feridos ou danos materiais, e os alarmes acabaram por não soar na região.

O episódio, no entanto, levou a que os adversários de Netanyahu, nomeadamente Gideon Saar e Naftali Bennett acusassem o primeiro-ministro de ser benevolento em relação ao Hamas.

“Na campanha de 2009, Netanyahu prometeu derrubar o governo do Hamas em Gaza. agora, dá-lhes vacinas. Não admira que eles pensem que somos uma piada”, escreveu no Twitter Gideon Saar, líder do Nova Esperança.

“Espero que Netanyahu combata o Hamas da mesma forma que me combate. O Hamas está a rir-se da fraqueza de Netanyahu”, disse, por seu lado, Naftali Benneett, do Yamina.

Os líderes dos vários partidos políticos votaram logo pela manhã e apelaram ao voto, dramatizando as eleições e alertando que, caso não haja uma maioria estável para governar, os israelitas poderão ter de ser chamadas novamente às urnas nos próximos meses.

“Trabalhei para vocês toda a minha vida e hoje peço-vos uma coisa: saiam de casa e votem no Likud. Com mais dois lugares [no Knesset] teremos um governo de direita forte, sem [Yair Lapid], sem rotação e sem novas eleições”, afirmou Netanyahu na rede social Twitter. “Tragam três amigos ou familiares para votarem no Likud, e a vitória será nossa”, acrescentou.

Por seu turno, o líder da oposição Yair Lapid, do Yesh Atid, considerou estas eleições são “o momento da verdade em Israel”.

“No final, tudo se resume a duas opções: um Yesh Atid forte ou um governo sombrio, perigoso, racista e homofóbico que vai tirar o dinheiro das pessoas trabalhadoras e entregá-lo a quem não trabalha”, afirmou Lapid, citado pelo Times of Israel.

No mesmo sentido, Benny Gantz, líder do Azul e Branco, apelou ao voto “no bloco que está a pressionar por mudanças” e alertou que, caso os partidos anti-Netanyahu não consigam formar governo, “haverá um regime diferente” em Israel.

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Já Gideon Saar, líder do Nova Esperança, sublinhou que o voto no seu partido, que reúne muitos dissidentes do Likud, é a única forma de Israel mudar. “Apenas um forte Nova Esperança pode trazer mudança e um futuro melhor para Israel”, disse Saar, citado pelo Haaretz.

Naftali Bennett, que poderá vir a ser decisivo na formação do próximo executivo, apelou ao voto no seu partido e disse que o Yamina será fundamental para “formar um governo que se importe” com os israelitas.

Também o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, cujo mandato termina este ano, votou logo pela manhã e manifestou preocupação com a instabilidade política no país.

“Estou a votar pela última vez enquanto Presidente, mas também como um cidadão preocupado”, disse Rivlin, citado pelo Times of Israel. “Uma quarta eleição [em dois anos] prejudica a confiança do público e o processo democrático”, acrescentou.

Atualizado a 24/03 às 09h10