Por dois centímetros, a curtíssima distância que invalidou um golo de Pedro Gonçalves em Moreira de Cónegos que poderia ter garantido mais uma vitória ao Sporting frente ao Moreirense, o Campeonato ganhou um outro contexto. Ou, pelo menos, esta 26.ª jornada. Porque os leões, apesar de terem mantido a invencibilidade na prova e de continuarem com um avanço significativo de oito pontos na liderança, chocaram com uma realidade que ao longo do tempo foram tentando combater sem sucesso: marcar primeiro e gerir sem fechar o encontro com um segundo golo pode trazer dissabores. Pelo menos, é um risco. E o próprio Rúben Amorim percebeu o significado da igualdade, afastando também no discurso para fora uma pressão extra que cresceu de forma natural.

Sporting-Famalicão. Leões tentam voltar às vitórias e manter vantagem de oito pontos na Liga

“A resposta que vamos dar é sempre importante, já tivemos com Rio Ave essa situação. Mas começa a ver-se no início da semana. Temos muitos inconscientes e despreocupados na equipa, é o que sinto. Talvez seja bom sinal”, começou por dizer o treinador entre sorrisos, voltando a elogiar o jogo da equipa em Moreira de Cónegos: “Já estive em grupos mais experientes, os resultados vão acontecer. Podemos ter um dia menos bom e não ganhar alguns jogos. A forma como os perdemos é mais importante. Foi mais difícil lidar com o Santa Clara, que ganhámos aos 90 minutos do que com este jogo, em que não posso pedir mais. Poderíamos ter ganho com outra facilidade. Controlámos para isso, mas não aconteceu. Sinto a equipa bem preparada para o Famalicão”.

Mais do que a preparação em si, Rúben Amorim chamou a si também a responsabilidade de qualquer resultado negativo até ao final da temporada, focando os objetivos entretanto concretizados num projeto que teve início nas últimas dez jornadas da época transata. “Há várias equipas que podem ser campeãs, no fim alguém vai ganhar e os outros todos vão perder. É a única forma de encarar isto. Só o treinador do Sporting pode perder, porque o Sporting já projetou jogadores e o seu futuro. O plantel tem de estar tranquilo, a responsabilidade é do treinador. Mais importante que o resultado é a forma como jogamos. Só o treinador pode perder o Campeonato, os jogadores podem estar tranquilos”, voltou a apontar, tirando de novo o foco sobre o plantel leonino e puxando de um dado a que não costuma recorrer no lançamento do jogo com o Famalicão: os dados históricos.

“Quando fizemos o planeamento e discussão entre jogos, eu próprio disse que preferia jogar de uma certa forma. Com este jogo podemos alcançar a melhor série sem perder do clube. Nós queremos ganhar. Mas mais do que os dois pontos que perdemos com o Moreirense, estamos a melhorar. Concordem ou não, entendo que a equipa está a melhorar e temos de continuar o nosso caminho. Voltar a ganhar é o único remédio. Não temos de olhar para os outros, dependemos de só nós. Quando falei da ‘estrelinha’ a seguir ao último jogo foi apenas para dizer que acontece a todos, não sinto que os jogadores estejam a facilitar. Esta é uma equipa jovem, que tenta sentir-se confortável na parte final dos jogos e que talvez por isso não seja tão acutilante. Temos dominado a maioria dos jogos, falta o resto mas isso vem com o tempo e só temos de olhar para a frente”, salientou.

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O contexto a seguir ao deslize em Moreira de Cónegos mudou, as vitórias tranquilas de FC Porto (Tondela, 2-0) e Benfica (P. Ferreira, 5-0) adensaram essa alteração, o bom momento vivido pelo Famalicão com Ivo Vieira no comando materializado em dois triunfos sólidos com Marítimo (4-0 fora) e P. Ferreira (2-0 em casa) depois do empate com o Sp. Braga ainda mais. E tudo isso acabou por sentir-se ao longo dos 90 minutos, que terminaram com Coates como exemplo, Pedro Gonçalves como MVP e uma equipa que nem sempre percebe o conceito de “Onde vai um vão todos”, o “lema” que nasceu na primeira volta em Famalicão. Com um look renovado, Pote pisou terrenos diferentes ao longo do jogo que nunca os habituais e foi o exemplo de como ter Fama nem sempre resulta em proveito, sendo dos poucos a disfarçar a intranquilidade que a equipa atravessa nesta fase. E não, os jogadores não estão inconscientes do momento. Pelo contrário. E isso mexe de forma consciente. Tanto que, de forma inconsciente, foi Pedro Gonçalves que, não deixando o “jogo a jogo”, admitiu a luta pelo título.

Com Luís Neto no lugar do lesionado Gonçalo Inácio e Tiago Tomás na vaga de Daniel Bragança, Rúben Amorim quis dar continuidade à experiência feita em parte da segunda parte em Moreira de Cónegos com a colocação de Pedro Gonçalves numa posição mais de apoio pelo corredor central e abrindo na frente Tiago Tomás e Paulinho, procurando não só outra criatividade pelo meio mas também mais chegada a zonas de finalização, naquele que foi um dos pontos menos conseguidos identificados pelo próprio técnico. No entanto, a entrada personalizada e destemida do Famalicão, sem medo de defender com linhas mais avançadas e com capacidade de sair com bola ainda que sem traduzir depois essas transições em perigo, eclipsou o jogo ofensivo dos leões, com mais posse mas longe da baliza e apenas um remate no quarto de hora inicial de Tiago Tomás muito ao lado (14′).

Aos poucos, o Sporting foi encontrando mais linhas de passe, melhorou na exploração dos espaços sem bola, fez a posse correr mais pelos corredores laterais e conseguiu também ter mais qualidade nas zonas de pressão mais avançadas, o que acabaria por valer o primeiro golo por Pedro Gonçalves, que fez uma interceção à saída do primeiro terço do Famalicão para receber depois a assistência de Paulinho e rematar de pé esquerdo para o golo inaugural (25′). Os leões tinham acabado de fazer o mais complicado mas claudicaram de seguida no mais fácil: a gestão da vantagem. E os visitantes demoraram pouco mais de um minuto para chegarem ao empate, com Rúben Vinagre a superar Porro pela esquerda, Iván Jaime a receber na área caindo no relvado mas a bola a sobrar para Anderson rematar de pé esquerdo de primeira sem hipóteses para Adán (27′).

O Famalicão, que acabara de marcar mais golos nos últimos quatro encontros do que nos 16 anteriores, tinha cedido numa má saída de bola mas empatou e jogou de seguida nos minutos seguintes com a intranquilidade verde e branca, ganhando uma série de cantos ainda que sem criar perigo. O Sporting precisava sair do colete de forças que tinha quebrado a equipa no plano anímico, algo que aconteceu a partir de uma boa saída de Pedro Porro pela esquerda com diagonal para o meio e remate para defesa de Luis Júnior (34′). O encontro manteve-se equilibrado até ao intervalo mas os leões tinham recuperado da tremideira defensiva após o golo sofrido (e o conjunto de Rúben Amorim já não consentia golos em jornadas consecutivas desde janeiro), tendo ainda uma boa oportunidade por Tiago Tomás, que recebeu bem na área famalicense mas rematou à figura (36′).

Ao intervalo, Rúben Amorim não esperou e fez logo duas alterações: Matheus Reis entrou para o lugar de Feddal (opção ou lesão, só o próprio poderá confirmar) e Daniel Bragança ocupou a vaga de João Palhinha, que estava condicionado com um cartão amarelo frente a um Famalicão com grande capacidade nas transições. E o segundo tempo começou de forma mexida, com Iván Jaime a intercetar um passe de Daniel Bragança em zona proibida sem que Ugarte (que fez uma exibição gigante no dia do 20.º aniversário) conseguisse depois visar a baliza e João Mário a soltar-se bem da pressão dos adversários para arriscar o remate de fora que saiu muito por cima. Os leões tentavam forçar com outra agressividade e criaram por Coates uma oportunidade flagrante, com o central a recuperar a bola em zonas avançadas depois de uma bola parada e a fazer o segundo passe para finalização da noite para Tiago Tomás rematar isolado na área antes do corte de Patrick William para canto (56′).

Rúben Amorim via a equipa crescer, a jogar mais no meio-campo contrário e a somar cantos mas queria mais, tendo então apostado na entrada de Jovane Cabral para o lugar de João Mário em busca de mais jogo entre linhas e capacidade de meia distância mas não demorou a gelar com uma oportunidade flagrante para o Famalicão, com Iván Jaime a receber de forma orientada um passe da direita e a rematar forte para grande defesa de Adán com… a cabeça (64′). Apesar de terem forçado mais com o coração do que com a cabeça apesar da maior largura que Nuno Santos conferiu à equipa, os leões tiveram mais uma oportunidade flagrante por Jovane Cabral que rematou por cima mas não conseguiram desfazer o empate, terminando não só sem dois pontos mas também com um cartão vermelho a Rúben Amorim, pelos protestos num lance de possível penálti no final.