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Em 1999, num festival com a curadoria de Nick Cave, Nina Simone deu o seu último concerto no Reino Unido. Tinha na altura 66 anos e uma saúde já muito debilitada. Pouco antes de subir ao palco (e depois de ter pedido que lhe trouxessem ao camarim um pouco de champanhe, salsichas e cocaína), a cantora chama Nick Cave e pede-lhe que a apresente como Doctor Nina Simone. Diante do seu ídolo, Cave naturalmente concorda, mas repara na preocupação que se abatera sobre a comitiva.

Nina Simone estava prostrada, tinha dificuldades para se mexer e um olhar perdido, como é bem notório nas duas primeiras fotografias de entre as muitas que acompanham o texto de Ellis. No entanto, de repente, o público, entre o qual se encontrava Warren Ellis, a assistir a tudo a partir da quinta fila, começa a chamar pela cantora e esta, de andarilho e a mascar pastilha, dirige-se ao palco. Warren diz que naquela noite eram os espectadores, e não a artista, quem estava nervoso. Nina Simone senta-se ao piano, encara em silêncio a audiência durante o que pareceram uns largos minutos, cheia de ódio nos olhos, saca da pastilha, cola-a debaixo do piano e, depois de uma música ainda a meio-gás, arranca para um concerto que, na introdução do livro, Nick Cave descreve como o melhor de sempre, como um momento que mudou a vida de todos os presentes.

No final, Warren Ellis invade sorrateiramente o palco, pega numa toalha que servira para limpar o rosto da cantora e, com toda a minúcia, rouba a pastilha presa ao piano, que ao longo do livro é comparada ao último fôlego de Thomas Edison, captado pelo filho do inventor e exposto no Museu Henry Ford, e às relíquias de Cristo veneradas por milhões de cristãos.

Mais de vinte anos depois desse glorioso dia, a pastilha seria exposta em lugar de enorme destaque, sob um altar de mármore e protegida por vidro duplo e alarmes, na exposição “Stranger than Kindness”, organizada por Nick Cave em Copenhaga, na Biblioteca Real Dinamarquesa.

"Nina Simone’s Gum" foi editado pela Faber, não estando para já prevista a sua tradução para português

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A premissa da exposição é a de exibir objetos com um valor monetário muitíssimo inferior à importância que estes têm para os seus proprietários, sendo por isso captada na perfeição pela pastilha de Warren Ellis, como, aliás, Nick Cave imediatamente intuiu. A exposição parece assim perspetivar a arte (ou pelo menos as obras de arte pertencentes a esta colecção) como dependente de uma conversa e não tanto de um pretenso valor objetivo. Neste aspeto, a exposição “Stranger than Kindness” não se distingue de muitas galerias de arte contemporânea, em que a compreensão do valor dos objetos expostos depende em grande medida do que estes tenham a acrescentar a uma conversa normalmente tida em circuito fechado, cujos termos escapam aos leigos na matéria. No entanto, o valor conferido aos objetos expostos não depende, neste caso, da depuração infinita dos termos de discussões estéreis, mas antes de uma ideia muito palpável de empatia.

Perto do fim de Nina Simone’s Gum, Warren Ellis confessa-se surpreendido por o livro, que inicialmente seria apenas um álbum de fotografias a mostrar as peripécias da pastilha, se ter vindo a tornar numa espécie de autobiografia. No entanto, basta lermos as dez primeiras páginas para percebermos que essa transformação faz todo o sentido. Nessas páginas, em três momentos diferentes, torna-se por demais evidente a característica mais admirável de Warren Ellis. Ellis é um artista extraordinário e o seu trabalho quer com os Bad Seeds quer com os Grinderman deixará uma marca perene na história da música do nosso século. No entanto, não é essa a sua característica mais digna de louvor.

O traço mais edificante de Warren Ellis parece-me ser a maneira sincera e quase infantil com que reverencia os seus ídolos artísticos, olhando-os de baixo para cima, como se ocupasse invariavelmente a posição do leproso a quem é concedido tocar, ainda que só por um segundo, nas túnicas dos seus salvadores. E essa atitude não se altera mesmo quando estes ídolos trabalham lado a lado consigo há mais de duas décadas. É isso que vemos acontecer por três vezes no início de Nina Simone’s Gum e é isso que torna tão comoventes as duzentas páginas de um livro onde cenas que envolvem uma mulher de meia-idade a soltar cautelosamente uma pastilha de uma toalha de rosto são infinitamente mais tensas do que qualquer episódio de “Squid Game”.

As primeiras duas ocasiões em que este peculiar traço de carácter se revela surgem no primeiro capítulo do livro. Warren conta que uma noite, quando tinha cinco anos, o relvado à frente da sua casa foi invadido por um bando de palhaços silenciosos, que grelhavam hambúrgueres e trepavam às árvores no mais absoluto silêncio. Warren fica para ali a olhá-los, cheio de espanto e admiração.

De seguida, conta que o seu pai, Johnny, tinha por ficar à porta do quarto que o músico partilhava com o seu irmão antes de estes adormecerem a rezar uma miscelânea de orações e preces entre as quais se incluía o Pai Nosso. Ellis confessa que, mais tarde, ao ouvir um padre a rezar apenas esta última parte, não conseguiu compreender o motivo pelo qual um homem com tantas responsabilidades se esquecera de recitar parte da oração que Johnny escrevera. Esta ternurenta reverência, mais tarde replicada na história da pastilha, é de novo evidente (e, neste caso, mútua) nas fotografias da troca de SMS entre Warren e Nick Cave que vemos na página seguinte, onde duas das maiores estrelas rock de sempre trocam mimos como “You’re heartbreaking” (diz Cave a Ellis) ou “That spinning song idea is so beautiful” (diz Ellis a Cave, provavelmente referindo-se a Skeleton Tree).

É ainda curioso que nas duas primeiras histórias, os adorados protagonistas sejam sempre vistos em contraluz, como se de aparições divinas se tratassem, estando os palhaços iluminados pela lua lá fora e o pai pela luz do corredor. Muito mais à frente na história, Ellis narra uma experiência mística em que ele próprio se aproxima do patamar dos seus ídolos e parece ser simultaneamente o adorador e o adorado, fundindo-se com o espectro de Beethoven. Nesse momento, Ellis vê-se a si mesmo de uma perspetiva distante e a iluminação da cena é explicitamente comparada à do episódio dos palhaços. Contudo, ao contrário do que seria de esperar, o tom do episódio não é igualmente triunfal, deixando a ecoar no leitor as palavras com que Ellis encerra o já referido primeiro capítulo:

“Depois da oração, eu ficava à espera do ocaso. Deitado na cama, o crepúsculo ganhava vida. Formas gentis moviam-se gentilmente; espíritos reconfortantes tocavam-me no rosto (…) Conseguia ver o escuro. Nunca tinha medo. Um dia, esses espíritos foram-se embora. Procurei-os desde então. À espera de que regressassem.”

joaopvala@gmail.com