A decisão de conceder asilo a Bashar Al-Assad partiu do Presidente russo, mas o encontro frente a frente com Vladimir Putin não está agendado. Enquanto a Rússia ainda se esforça para garantir os seus interesses no Médio Oriente, o clã Assad está de volta a Moscovo, cidade com a qual tem ligações profundas e de valor.
A família do ditador sírio, que segundo o departamento de Estado norte-americano, tem um património líquido de 2 mil milhões de dólares, terá aprofundado esses laços a partir de 2015, quando a Rússia apoiou militarmente a fação governamental na guerra civil da Síria.
Em 2019, uma notícia do Financial Times revelou que membros da família Assad são proprietários de um total de 18 apartamentos de luxo no complexo residencial Cidade de Capitais, dois arranha-céus no centro de negócios de Moscovo, que, até 2012, eram os edifícios mais altos da Europa. A família Makhlouf, cujo líder Rami é o homem mais rico da Síria e primo de Bashar Al-Assad, é o responsável pelos investimentos.
Muitos dos proprietários são membros da família que estão sob sanções do Ocidente devido ao papel que tiveram na guerra civil. Ainda assim, através de um esquema de empréstimos, os Makhlouf conseguiram contornar o congelamento de bens e restrições nos vistos de viagens, impostos pela UE e pelos EUA, garantindo um estilo de vida luxuoso na capital russa, como descreve o artigo do jornal norte-americano. Não é ainda claro se a família Assad se vai instalar numa das suas propriedades na capital ou se, por questões de segurança, vai ocupar uma habitação governamental. Mas se optar por um dos apartamentos na Cidade de Capitais, terá como vizinhos alguns dos homens mais ricos da Rússia e hotéis de cinco estrelas, refere o The Telegraph.
No entanto, nem toda a família será obrigada a fazer grandes mudanças. Nos últimos anos, Hafez Al-Assad — um dos três filhos adultos de Bashar e Asma, a quem foi dado o nome do avô, presidente da Síria entre 1971 e 2000 — tem frequentado um doutoramento em ciências físicas e matemáticas na Universidade Estatal de Moscovo.
Segundo o Daily Mail, a defesa da sua dissertação ocorreu a 29 de novembro e Bashar Al-Assad poderá ter estado na capital russa para presenciar esse momento, numa altura em que a ofensiva rebelde sobre Alepo já estava em curso. Na dissertação, Hafez agradece “aos mártires da pátria mãe — Síria — e, antes de mais, aos mártires das Forças Armadas da Síria Árabe”, numa referência às forças governamentais comandadas pelo pai.
É possível que as movimentações de outros elementos da família tenham antecipado a queda do regime, que ocorreu no passado domingo. Os pais da primeira-dama Asma Al-Assad, casal composto por um renomado cardiologista e por uma diplomata reformada há muito tempo estabelecidos em Londres, podem ter-se adiantado à chegada da filha e netos a Moscovo, segundo o tablóide inglês.
Há cerca de uma semana, quando a ofensiva rebelde já tinha um avanço significativo no terreno, a habitação do casal em Acton, Londres, estava fechada e sem sinal de movimento, assinalam vários meios de comunicação. Fontes da comunidade síria de Acton, que dizem conhecer os sogros do Presidente deposto assinalam que desde o início da guerra civil, há mais de uma década, que o casal tem mantido um perfil mais reservado.
Moscovo: ponto de encontro de líderes depostos
No passado domingo à noite, enquanto as forças rebeldes sírias vandalizavam e retiravam bens do palácio presidencial em Damasco, o ditador sírio aterrava na Rússia, país que lhe concedeu asilo por “razões humanitárias“. As forças especiais russas terão retirado Assad do país num avião militar, fazendo a ponte entre a base aérea militar, na província costeira de Latakia, usada pela Rússia, e Moscovo.
Palácio de Assad saqueado: fotos rasgadas pelo chão, mobília roubada
À chegada, o ministério dos Negócios estrangeiros russo afirmou que Assad tinha “decidido deixar o posto presidencial saindo do país, dando instruções para uma transferência de poder pacífica“. A Rússia admite não ter participado nessas negociações entre o Presidente deposto e os rebeldes, mas afirma estar a fazer “todos os possíveis para entrar em contacto com aqueles que possam assegurar a segurança” das bases.
Uma fonte no Kremlin, citada pela Reuters, assegura que o acordo foi feito precisamente para tentar não perder influência no Médio Oriente. Para além da base aérea por onde Assad se evadiu, as Forças Armadas da Rússia querem assegurar o controlo de uma base naval em Tartous, igualmente localizada na costa mediterrânica da Síria. Porém, Rybar, um blogger russo próximo do Kremlin, avisa que a presença das forças russas na região “está pendurada por um fio”.
Mikhail Ulyanov, embaixador russo em Viena, confirmou nas suas redes sociais, como a X, a chegada de Assad a Moscovo, garantindo que a “Rússia não atraiçoa os seus amigos em situações complicadas”.
Breaking! #Assad and his family are in Moscow. Russia does not betray its friends in difficult situations. This is the difference between #Russia and the #US.
— Mikhail Ulyanov (@Amb_Ulyanov) December 8, 2024
Viktor Yanukovych, presidente da Ucrânia pró-russo, deposto com a revolução do Maidan, em 2014, e Askar Akayev, ex-presidente do Quirguistão, derrubado com a revolução das Tulipas em 2005, são exemplos de aliados de Vladimir Putin que se refugiaram na capital russa, após perderem o poder nos respetivos países.
De acordo com o Telegraph, Yanukovych aproveita Moscovo para desfrutar de uma vida opulenta, tendo o hábito, partilhado por Putin, de fazer viagens à região de Sochi para caçar. O gosto por uma vida sumptuosa parece ser partilhada pelo ditador sírio, tendo em conta vídeos recentemente gravados, em Damasco, por rebeldes, após a tomada do poder, nos quais se pode ver a garagem onde Assad guardava mais de 40 carros de luxo.
The car collection of deposed Syrian President Bashar al-Assad. ????
Of course there’s a Mercedes-Benz 600… there always is ???? pic.twitter.com/AizOOFAE2P
— Jesse – Mr. Car Facts (@MrCarFacts) December 8, 2024
Ainda assim, na capital russa, a família Assad não estará imune aos desenvolvimento dos eventos no Médio Oriente. Na segunda-feira, na embaixada da síria, em Moscovo, um grupo de homens hasteou a bandeira da oposição. “Hoje [segunda-feira] a embaixada abriu e trabalha normalmente com uma nova bandeira”, anunciou um representante da embaixada, citado pela Reuters.
Texto editado por Dulce Neto