Não é de agora que o grupo é conhecido, mas nas últimas semanas o Tren de Aragua (TDA) — um grupo de crime organizado venezuelano que opera nos EUA e em outros países da América Central — está nas bocas do mundo por ser alvo das polémicas deportações exigidas pela administração Trump com base numa lei com mais de 200 anos.
No domingo, 261 homens, dos quais 238 acusados de pertencer ao gangue venezuelano, foram transportados pelos EUA até à prisão de segurança máxima de El Salvador. Os republicanos invocaram uma lei de 1798 para validar a transferência, horas após um juiz federal ter decidido impedir o Governo de usar essa mesma lei para efetivar as deportações. Nessa altura, já as mais de duas centenas de venezuelanos estavam a sobrevoar território norte-americano em direção ao país da América Central.
A Casa Branca justifica a ação — em claro desafio à ordem judicial — com a necessidade de defender o país contra uma possível ameaça ao território dos Estados Unidos. Trump classifica o cartel enquanto uma “organização terrorista estrangeira” para sustentar a aplicação da lei que pressupõe a existência de uma ameaça externa.
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É claro para vários especialistas na lei americana que a nova administração está a fazer um uso abusivo da lei, que implica que os EUA estejam sob ataque de um governo estrangeiro. Por muito que este gangue tenha origem na Venezuela, não é uma organização estadual. Teria de haver uma ação ofensiva do governo venezuelano para que a lei pudesse ser aplicada, não basta a simples atuação do grupo criminoso estrangeiro.
Mas que gangue é este? Quando foi criado? E como é que se estabeleceu em território norte-americano?
Tren de Aragua nasceu de organização sindical que depressa se transformou em grupo de crime
O Tren de Aragua é a estrutura criminosa mais poderosa da Venezuela e o único grupo de origem local que conseguiu estabelecer-se no estrangeiro, de acordo com a organização sem fins lucrativos InSight Crime, que investiga e analisa crime organizado e corrupção na América Latina e nas Caraíbas.
A formação do gangue criminoso remonta, segundo esta organização, a 2005, fazendo os seus membros originais parte de um sindicato de trabalhadores da construção de uma obra ferroviária que pretendia ligar os estados venezuelanos de Aragua e Carabobo. Está explicado o batismo do grupo: “Tren”, que em espanhol significa comboio, e “Aragua”, o território venezuelano onde os membros se conheceram.
Tudo começou com o sindicato a cobrar pela cedência de postos de trabalho e a extorquir os empreiteiros em troca de favores de segurança, mas depressa a sua atividade principal evoluiu para o tráfico de pessoas e de droga e para a extração ilegal de minerais. Soma-se ainda o tráfico de armas e sucata, a cobrança da “causa” – a taxa que cada preso deve pagar dentro das prisões venezuelanas — e ainda crimes de roubo e sequestro de acordo com a CNN Venezuela.
Durante anos a fio, a sede do grupo criminoso foi a prisão de Tocorón. O cartel assinou um acordo com as autoridades venezuelanas em que tomava o controlo de várias prisões do país em troca de “manter a ordem e reduzir os homicídios”. Nessa altura, não só prisioneiros viviam no complexo controlado pelo gangue, mas também mais de três centenas de famílias de reclusos, incluindo mulheres e crianças.
▲ Parentes de reclusos olham para veículos blindados que passam perto da prisão de Tocoron, em setembro de 2023
AFP via Getty Images
Só em setembro de 2023 é que o estabelecimento prisional — onde os membros do cartel tinham à sua disposição discotecas, piscinas e muitos outros luxos — voltou a ser controlada pelas autoridades venezuelanas numa operação militar.
Gangue deixou de ter dimensão local e passou a ameaça transnacional
Até setembro de 2023, era a partir das celas “de luxo”, em Tocorón, que os membros do Tren de Aragua supervisionavam a atuação do cartel, não só na Venezuela, mas em outros países. E mesmo depois da perda da sua base de operações, a liderança do gangue escapou e as suas células transnacionais puderam continuar a operar quase como dantes.
Nessa altura, já existiam membros a atuar na Colômbia, Peru e Chile, estando as autoridades locais alerta para a necessidade de vigiar determinados membros do gangue pelo seu nível de influência local, nos respetivos locais em que estivessem sediados. A expansão transnacional ocorreu, sobretudo, à custa do êxodo maciço venezuelano, conclui a InSight Crime, sendo que foi também nessa altura que o grupo se passou a dedicar maioritariamente ao tráfico humano.
As saídas em massa, auxiliadas pelo gangue, começaram por ter como destino os países da América do Sul já nomeados, mas depressa começaram a surgir evidências da expansão do grupo nos EUA. Foi por isso que, em julho de 2024, o Departamento do Tesouro, da então administração norte-americana de Joe Biden, declarou o Tren de Aragua uma organização criminosa transnacional. Trump acabou por ir mais longe, nomeando-a “terrorista”.
O Departamento de Estado dos EUA, em colaboração com o governo colombiano, decidiu oferecer 12 milhões de dólares (cerca de 11 milhões de euros) em recompensas por informações que permitissem a detenção de três dos seus principais líderes. Entendem que é nos cabecilhas que reside o poder do grupo e que com a sua detenção deverá cair parte da organização.
Foram oferecidos 5 milhões de dólares por informações sobre “Niño Guerrero”, reconhecido enquanto o principal líder do cartel, 4 milhões de dólares por “Johan Petrica” e até 3 milhões de dólares por “Giovanny”.
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Porque foram os membros dos Tren de Aragua levados para El Salvador?
Os 238 homens acusados de pertencer ao gangue venezuelano chegaram no domingo a El Salvador, mais concretamente à maior prisão da América Central, o CECOT — Centro de Confinamento do Terrorismo — inaugurado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador, em 2023.
Secretaria de Prensa de la Presidencia/Handout via REUTERS
Bukele acordou com Donald Trump receber nesta e noutras prisões, criminosos perigosos, sendo que Washington se comprometeu a pagar 20 mil dólares por cada detido entregue ao país. O acordo inclui, no total, 6 milhões de dólares para alojar cerca de 300 reclusos migrantes durante um ano.
Foi o próprio Bukele a confirmar que os detidos venezuelanos, quase todos do Tren de Aragua, foram transferidos para CECOT “por um ano (renovável)”. O Presidente de EL Salvador olha para estes homens como uma força de trabalho dentro da prisão, que pretende que se torne auto-sustentável.
Today, the first 238 members of the Venezuelan criminal organization, Tren de Aragua, arrived in our country. They were immediately transferred to CECOT, the Terrorism Confinement Center, for a period of one year (renewable).
The United States will pay a very low fee for them,… pic.twitter.com/tfsi8cgpD6
— Nayib Bukele (@nayibbukele) March 16, 2025
Depois desse período de 12 meses não se sabe ao certo o que se vai passar com estes reclusos, sendo que o mais certo é não haver a possibilidade de retornarem aos EUA no final de cumprirem as penas e serem deportados definitivamente para a Venezuela.