Uma casa de campo do século XVII situada em Ashe Park, em Steventon, Hampshire, frequentada pela famosa escritora Jane Austen será demolida após a decisão da câmara municipal Basingstoke e Deane, no Reino Unido. A propriedade foi considerada sem relevância histórica direta na produção literária da autora de Orgulho e Preconceito (1813), Mansfield Park (1814) ou Emma (1816).
De acordo com o jornal The Telegraph, o imóvel foi comprado em outubro de 2022, por 17 milhões de libras (cerca de 20 milhões de euros). Os proprietários solicitaram pouco depois à autarquia a sua demolição, alegando que o edifício está “degastado e mal-administrado” sem qualquer “mérito arquitetónico”.
A conhecida autora nasceu a cerca de 1 km da propriedade, na aldeia de Steventon, em 1775, tendo ali frequentado bailes na década de 1790 e feito, inclusive, referência à casa Cartas de Jane Austen (1932).
Num comunicado, citado pelo jornal inglês DailyMail, a instituição britânica de defesa do património Save Britain’s Heritage argumentou que “o edifício é um importante património histórico para Hampshire e a sua demolição causaria danos injustificados”.
No entanto, no relatório citado no jornal britânico, The Telegraph, os especialistas da Historic England (HE), organismo que aconselha o governo britânico em questões históricas, alegaram que a casa não era a mesma que Austen costumava visitar devido à “dimensão das alterações realizadas (…) construídas quase 50 anos após a sua morte, nem que tenha tido qualquer influência direta na sua produção literária”.
[Já saiu o terceiro episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
Cerca de 20 moradores manifestaram a sua indignação com a decisão, alegando que é uma “vergonha” e um “desperdício”, tendo em consideração a importância cultural e histórica do local, bem como a sua ligação a uma das escritoras mais influentes da literatura inglesa.
Enquanto a autarquia afirma que a casa não tem valor histórico suficiente, os moradores argumentam que a sua demolição apagaria um pedaço importante da herança cultural de Hampshire. Caroline Sykes, uma habitante de Steventon, expressou o seu descontentamento: “Acho que é um desperdício. Não é uma casa listada [não faz parte da lista de casas consideradas históricas e sendo por isso património protegido] o que não funciona a seu favor, mas tem interesse histórico. Parece uma pena remover esse pedaço de história.” Além disso, disse que os proprietários só usavam a casa “ocasionalmente” e “não tinham estado lá praticamente nos últimos dois anos desde que a compraram”.
A casa possui sete quartos, cinco salas de receção e uma biblioteca “ornamentada”. Existem também vários anexos, incluindo um “celeiro de festas” com um cinema, um campo de pólo e um jardim repleto de árvores de fruto e flores silvestres.
Para além do valor histórico da casa, os habitantes também destacaram o seu potencial turístico associado à obra da escritora: “Austen continua a ser celebrada, em todos os grandes aniversários há muitas coisas a acontecer, ainda recebemos turistas que vêm só para ver a aldeia onde ela nasceu“, disse Laura Shuttle, citada pelo The Telegraph.
Apesar da contestação dos vizinhos que são contra a demolição, o conselho municipal de Basingstoke e Deane já aprovou os planos de destruição, mas ainda não foram revelados pormenores acerca da data da demolição.
A proposta pretende destruir a estrutura atual e a construir uma nova casa de campo tradicional, inspirada no estilo arquitetónico Queen Anne.
Texto editado por Dulce Neto