O Partido Comunista da Venezuela (PCV) acusou o regime de Caracas de cinismo por ter criticado a decisão dos EUA de deportar migrantes venezuelanos para uma prisão em El Salvador. Numa conferência de imprensa na capital, o PCV alertou que esses migrantes enfrentam as mesmas injustiças que os compatriotas detidos no seu próprio país.
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“Neste caso particular das deportações, assistimos a um comportamento hipócrita e cínico de parte da administração de [o Presidente] Nicolás Maduro e de alguns dos porta-vozes da direção do Partido Socialista Unido da Venezuela [PSUV, no poder]”, disse Neirlay Andrade, do Bureau Político do Comité Central do PCV.
A dirigente recordou que o regime tem denunciado violações dos direitos humanos dos migrantes, que não têm tido direito à defesa nem a um processo justo.
“No entanto, a narrativa que o governo denuncia, surpreende a opinião pública (…) porque a descrição é um retrato fiel do Governo de Nicolás Maduro [que] mantém atualmente centenas de venezuelanos em detenção arbitrária. A administração de Nicolás Maduro viola repetidamente o devido processo, não permite advogados de confiança, e viola o direito à defesa”, disse.
Mais de 2.200 detidos, entre eles 13 jornalistas, em protestos após presidenciais na Venezuela
Segundo Neirlay Andrade, há cidadãos na Venezuela que “foram arbitrariamente presos no contexto dos protestos pós-eleitorais [presidenciais de 28 de julho de 2024] e que morreram sob custódia do Estado”.
“Há numerosos familiares que têm denunciado o tratamento cruel de filhos, pais e irmãos nas prisões venezuelanas”, sublinhou.
Andrade insistiu que a descrição feita pela direção do PSUV sobre a situação dos migrantes venezuelanos na prisão em El Salvador “não é muito diferente da situação dos trabalhadores, estudantes, ativistas sindicais e dirigentes políticos que se encontram arbitrariamente detidos nas prisões” da Venezuela.
“Queremos chamar mais uma vez a atenção para esta política de violação sistemática, que também deixa os nossos compatriotas em território venezuelano sem direitos fundamentais e mínimos, como o direito à vida e à saúde, mesmo quando estão presos”, disse Neirlay Andrade.
O PCV acusa ainda o regime de tentar apresentar o repatriamento de centenas de compatriotas como vitórias diplomáticas para a sua gestão e diz que esses venezuelanos estão a ser deportados de maneira arbitrária e em violação dos procedimentos que protegem os migrantes em todo o mundo.
Em 16 de março, o Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, anunciou a chegada de 238 alegados membros do grupo criminoso venezuelano Tren de Aragua e do Mara Salvatrucha (MS-13), transferidos para o Centro de Confinamento do Terrorismo ao abrigo de um acordo com o Presidente norte-americano, Donald Trump.
Em 15 de março, os Estados Unidos expulsaram 261 imigrantes em dois voos para El Salvador e Honduras, que partiram do Texas.
Em fevereiro, Trump classificou o Tren de Aragua, uma organização criminosa da Venezuela, e o MS-13, um gangue com origem em Los Angeles em 1980, como “organizações terroristas globais”.
Logo que assumiu o cargo, em janeiro, Donald Trump, retirou o estatuto de proteção temporária contra a deportação de que beneficiavam aproximadamente 600 mil venezuelanos devido à crise económica e de segurança no seu país.
Mais de 7,8 milhões de venezuelanos emigraram na última década, em grande número para os Estados Unidos, segundo as Nações Unidas.