Morreu esta segunda-feira aos 88 anos o Papa Francisco, informou o cardeal Kevin Ferrell, o atual camerlengo. “Às 7h35 desta manhã, o bispo de Roma, Francisco, regressou à casa do pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da sua Igreja”, disse o cardeal Farrell a partir da capela de Santa Marta, no Vaticano. “Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão por seu exemplo como verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, recomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino.”
O argentino Jorge Mario Bergoglio, antigo arcebispo de Buenos Aires e uma das figuras centrais da Igreja Católica latino-americana das últimas décadas, liderou a Igreja Católica durante cerca de doze anos. Foi eleito em 2013 para suceder a Bento XVI, que fez história ao tornar-se o primeiro Papa dos tempos modernos a abdicar do trono pontifício — e teve um pontificado marcado por profundas reformas institucionais no topo da hierarquia eclesiástica e pela abertura ao debate sobre alguns dos temas fraturantes que durante décadas foram tabu dentro da instituição católica, incluindo o lugar dos leigos nos cargos de liderança e a ordenação de mulheres.
Francisco, que durante toda a vida teve uma saúde frágil, viu a sua condição física deteriorar-se profundamente nos últimos anos como Papa. Esta deterioração tornou-se mais visível quando Francisco começou a surgir frequentemente de cadeira de rodas nos eventos públicos, especialmente debilitado pela dor ciática. Mas foram as questões respiratórias que mais o afetaram durante toda a vida: na juventude, sofreu de uma grave pleurisia, uma inflamação da pleura, a membrana que reveste os pulmões, e teve de ser operado de urgência para que lhe fosse retirada uma parte do pulmão direito. As dificuldades respiratórias perduraram toda a vida e era frequente que o Papa ficasse visivelmente ofegante com pequenos esforços.
O Papa argentino tinha sido hospitalizado em meados de fevereiro, depois de ter sido diagnosticado com uma bronquite e de ter exibido fortes dificuldades em respirar — que o obrigaram, em várias ocasiões, a interromper a leitura de homilias em celebrações. Depois da hospitalização, o quarto internamento desde a sua eleição como Papa, o Vaticano anunciou que Francisco tinha sido diagnosticado com uma “infeção polimicrobiana das vias respiratórias”. Em março, ao fim de mais de um mês de internamento, teve alta e regressou ao Vaticano, onde os médicos lhe pediram que observasse pelo menos dois meses de repouso. Ainda assim, Francisco apareceu várias vezes em público, especialmente durante as celebrações da Semana Santa e da Páscoa — a última das quais no domingo de Páscoa.
▲ Nos últimos anos, o Papa Francisco surgia na maioria dos eventos públicos de cadeira de rodas
ALESSANDRO DI MEO/EPA
Nos últimos anos, devido à deterioração da saúde física, pairou sempre sobre o Papa Francisco a ideia de que o argentino poderia seguir o exemplo do antecessor e também renunciar ao trono pontifício. O próprio Papa Francisco alimentou esse rumor ao pronunciar-se várias vezes sobre o assunto de forma ambígua, ora dizendo que não hesitaria em tomar a decisão caso sentisse que tinha chegado o momento, ora garantindo que a possibilidade não lhe tinha sequer passado pela cabeça nos momentos em que esteve hospitalizado. Quando, em 2022, Francisco visitou a cidade italiana de L’Aquila, onde está sepultado o Papa Celestino V — que fez história ao abdicar do papado em 1294 —, os rumores voltaram a surgir, especialmente porque também Bento XVI tinha visitado aquele lugar antes de anunciar a sua renúncia.
Francisco chegou mesmo a deixar algumas pistas sobre como poderia ser a sua renúncia: ao contrário de Bento XVI, não continuaria a viver no Vaticano, voltaria a vestir a sua batina preta de bispo e usaria apenas o título de “bispo emérito de Roma”, em vez de “Papa emérito”. Numa entrevista ao Observador em 2023, o vaticanista norte-americano John Allen Jr. especulava que Francisco teria na sua agenda algumas prioridades antes de ponderar uma renúncia: o Sínodo sobre a Sinodalidade, que só ficou concluído em outubro de 2024 (e que Francisco não abdicaria de supervisionar diretamente, para evitar que um sucessor mais conservador deitasse os esforços por terra); e o Jubileu de 2025, cujas celebrações se prolongam até janeiro de 2026. Francisco acabou por morrer antes do final do Ano Jubilar.
Nascido a 17 de dezembro de 1936 em Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio cresceu numa família muito ligada à Igreja Católica, no bairro de Flores. Estudou em escolas católicas, mas a vocação religiosa só chegou mais tarde, depois de uma juventude marcada pela vida boémia, pela paixão pelo tango e por uma consciência aguda da miséria vivida nas favelas de Buenos Aires. Estudou química na escola industrial, mas a eventual carreira científica foi interrompida em setembro de 1953, quando entrou numa igreja do seu bairro, se confessou com um sacerdote e a possibilidade de uma vocação religiosa lhe atravessou pela primeira vez o espírito.
Entrou no seminário diocesano depois de concluir a sua formação como técnico químico, mas optou depois por ingressar na Companhia de Jesus. Dizia que não queria ser um “padre de uma basílica”, mas ir “para os bairros, para as villas, estar com as pessoas”. Foi essa vontade que o levou a tornar-se jesuíta. A sua formação religiosa coincidiu com as reformas trazidas pelo Concílio Vaticano II e, nos anos 60, enquanto concluía os estudos, deu também aulas de literatura num colégio.
Foi ordenado padre a 13 de dezembro de 1969, em Buenos Aires. Depois, viajou até Espanha, para concluir a formação como jesuíta, que o levaria aos votos perpétuos em abril de 1973. Como jesuíta, teve um importante percurso na Argentina: foi mestre de noviços, professor na faculdade de Teologia, reitor do Colégio Máximo e chegou mesmo a provincial dos jesuítas argentinos, um cargo que desempenhou durante seis anos. O seu tempo como líder jesuíta na Argentina ficou também marcado pela ditadura militar no país. Bergoglio chegou a ser acusado de colaborar com os militares, mas viria mais tarde a saber-se que, na verdade, usou a sua posição e influência para salvar dezenas de pessoas perseguidas pelo regime — uma história contada no livro A Lista de Bergoglio, do autor italiano Nello Scavo.
Bergoglio chegou ao episcopado no início da década de 1990, quando foi escolhido para bispo auxiliar de Buenos Aires. Poucos anos depois, ascendeu à liderança da arquidiocese, tornando-se arcebispo de Buenos Aires em 1998. O Papa João Paulo II criou-o cardeal em 2001. Durante estes anos, Jorge Mario Bergoglio tornou-se numa das mais destacadas figuras da Igreja Católica latino-americana, particularmente devido ao seu papel no encontro de Aparecida, em 2007 — um conferência dos bispos da América Latina cujo documento final, redigido por Bergoglio, seria já um prenúncio do programa de Francisco para a Igreja a nível global, focado na atenção às periferias existenciais e na opção preferencial pelos pobres.
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Um pontificado de reformas
No conclave de 2005, o cardeal Bergoglio foi um dos nomes mais votados para suceder a João Paulo II, impulsionado por um movimento de cardeais reformistas que se opunham à eleição de Ratzinger. Contudo, o que esteve quase para acontecer em 2005 acabaria mesmo por se concretizar em 2013: depois da abdicação de Bento XVI, Bergoglio foi eleito para chefiar a Igreja Católica.
No primeiro momento em que se apresentou ao mundo como Francisco, acenou aos fiéis e inaugurou o pontificado dizendo “boa noite”. Nos primeiros dias, várias pequenas histórias ajudaram a catapultar o novo Papa para as manchetes dos jornais internacionais como um homem normal: rejeitou as vestes pomposas e as alfaias ornamentadas, dispensou a cruz de ouro e os sapatos vermelhos, telefonou ao quiosque de Buenos Aires para pedir que deixassem de lhe guardar o jornal diário, cancelou uma consulta no dentista na Argentina e foi pagar a conta da hospedaria romana onde tinha estado antes do conclave.
Apesar de quase anedóticos, aqueles primeiros detalhes escondiam já um programa de governo que Francisco trazia para a Igreja Católica. A própria eleição de um Papa latino-americano, o primeiro não-europeu em 1.300 anos, era já reflexo de uma Igreja em mudança, menos eurocêntrica, menos fechada nas históricas catedrais do Velho Continente, em expansão na América Latina, na África e na Ásia: Francisco era o rosto de uma nova Igreja para o século XXI.
Francisco é Papa há dez anos. Os debates que Bergoglio abriu na Igreja Católica
Durante mais de uma década como Papa, Francisco quis transformar a Igreja Católica: no seu entender, já não havia lugar para a ideia de uma Igreja composta pelos puros, que fechava as portas a quem considerava moralmente indigno. Comparou a Igreja a um “hospital de campanha” ao serviço de um mundo ferido, pediu que a hierarquia católica não transformasse a Igreja numa “alfândega” que decide quem entra e quem sai, defendeu uma Igreja capaz de sair de si própria e de ir ao encontro de todas as pessoas, onde elas estivessem, nas periferias humanas, existenciais e geográficas. Viajou por todo o mundo, sem dar prioridade às grandes capitais e aos países historicamente católicos, preferindo justamente as periferias. Em Lisboa, na Jornada Mundial da Juventude de 2023, deixou uma das expressões mais populares do seu pontificado quando pediu uma Igreja para “todos, todos, todos”.
Apesar de ter sido um dos mais populares papas da história contemporânea, dentro da Igreja não faltaram as críticas ao Papa Francisco, que chegou a ser acusado de heresia por alguns teólogos e cardeais mais conservadores. Como Papa, quis que os bispos católicos saíssem das suas catedrais e percorressem as ruas e os bairros das dioceses que supervisionavam. Nos temas mais fraturantes, como a ordenação de mulheres, a abertura à comunidade LGBT ou o aborto, procurou colocar as pessoas antes das polémicas, abrindo debates e tomando algumas medidas concretas que contribuíram decisivamente para a reforma da Igreja.
Do ponto de vista institucional, implementou uma profunda reforma da Cúria Romana, cujo aspeto mais visível foi o facto de os principais cargos da liderança global da Igreja (os prefeitos dos dicastérios) terem deixado de ser exclusivamente cardeais. Agora, os leigos — e, por conseguinte, as mulheres — podem chegar à cúpula da Cúria Romana. Sobre a ordenação de mulheres, determinou a criação de estruturas para estudar a possibilidade da ordenação diaconal. Ao mesmo tempo, colocou várias mulheres em lugares-chave da estrutura eclesiástica, incluindo na secretaria-geral do Sínodo dos Bispos, que pela primeira vez em 2023-2024 pôde contar com os votos de mulheres.
Foi também sob o pontificado de Francisco que a Igreja Católica reforçou o combate à crise dos abusos sexuais de menores, com a criação de uma comissão pontifícia de proteção de menores e com a realização da histórica cimeira de bispos de 2019. Durante o pontificado, Francisco pôs no topo da agenda global assuntos como a pobreza ou as migrações (a sua primeira viagem fora de Roma foi a Lampedusa, para lançar uma coroa de flores ao mar e chorar os mortos que ninguém chora, como disse na altura). Nestas matérias, chocou de frente com líderes políticos como Donald Trump ou Matteo Salvini.
O Papa Francisco deixa também como legado alguns dos mais importantes documentos escritos no século XXI, incluindo as encíclicas Laudato Si’, a primeira encíclica papal sobre o ambiente e as alterações climáticas, e Fratelli Tutti, um longo texto sobre a fraternidade e a amizade social.