“A Crimeia é o nosso território, o território do povo da Ucrânia”. Foi assim que o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, respondeu aos jornalistas sobre a alegada proposta que tem sido discutida entre EUA e a Rússia de cedência da península do Mar Negro a Moscovo.
A possibilidade do território ser agora a carta principal de uma negociação de paz conta-se em dois capítulos. Segundo o Financial Times, Moscovo terá delineado uma nova estratégia para a guerra que terá como pretexto a anexação da Crimeia. Num encontro com o enviado norte-americano Steve Witkoff em São Petersburgo, Putin terá pela primeira vez admitido a possibilidade de parar a invasão, que dura desde fevereiro de 2022, cristalizando as zonas de ocupação como parte da Rússia. Isto significaria que iria abandonar as pretensões que ainda tem sobre a totalidade das quatro regiões ucranianas que pretende anexar – Luhansk, Donetsk, Zaporíjia e Kherson – ficando só com as zonas que controlaria no momento do cessar-fogo.
O editor do jornal pró-Kremlin Nezavisimaya Gazeta, Konstantin Remchukov, afirmou num editorial citado pelo jornal britânico que as indicações dadas pelo governo russo é que estão à espera que o resto da região de Kursk seja reconquistada para poderem avançar com mais força nesta ideia nas negociações. “Para Putin, obviamente, é inaceitável negociar o território da região de Kursk. Este deve ser completamente libertado aquando do acordo”, escreveu, acrescentando: “Penso que Trump, graças a Witkoff, se apercebeu disto. E espera que tudo isto aconteça antes de 30 de abril e que possa declarar com orgulho que cumpriu a missão de paz nos primeiros 100 dias da sua presidência.”
Esta cedência russa não deverá vir, porém, sem moeda de troca. Fontes consultadas pelo FT afirmam que os EUA terão de compensar Moscovo com “cedências geopolíticas mais abrangentes”, tais como a proibição da Ucrânia entrar na NATO ou então o já referido reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia.
Casa Branca apresenta solução a aliados
A península está em mãos russas desde 2014, ano em que os conflitos entre Kiev e Moscovo se intensificaram depois da Revolução de Maidan e tem sido uma das linhas vermelhas ucranianas. Ora, o segundo capítulo desta nova possibilidade acontecido igualmente esta terça-feira, tendo o Washington Post, citando fontes próximas norte-americanas, noticiado que os EUA iriam apresentar a possibilidade de ceder permanentemente a Crimeia à Rússia no encontro com representantes ucranianos e dos aliados europeus, que se irá realizar em Londres esta quarta-feira.
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Os EUA têm sido pontas de lança a pressionar Kiev para aceitar conceder para atingir um cessar-fogo, com uma fonte consultada pelo jornal a referir que os representantes norte-americanos têm colocado uma pressão “espantosa” aos ucranianos. “Não vamos continuar com este esforço durante semanas e meses a fio“, avisou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, falando aos jornalistas à saída de Paris, onde se realizou o último encontro com aliados realizado na sexta-feira.
Por outro lado, os aliados da Ucrânia que vão participar no encontro de Londres, especialmente a Alemanha e o Reino Unido, têm assumido o papel principal na defesa das posições ucranianas perante os EUA, pressionando os norte-americanos para que qualquer acordo que seja atingido contenha garantias de segurança para um eventual cessar-fogo e que o país possa ter um plano de reconstrução depois que a paz seja atingida.
Negociações diretas só com cessar-fogo, diz Zelensky
Os EUA têm servido como mediadores ativos em todas as discussões entre ucranianos e russos, já que ambas as partes não chegaram a acordo para discussões diretas.
Na segunda-feira, Putin admitiu rondas negociais diretas e, esta terça-feira, Zelensky voltou a avisar que há uma condição fundamental para que tal aconteça: uma trégua.
“Estamos dispostos a registar que, após um cessar-fogo, estamos dispostos a sentar-nos em qualquer formato, para que não haja becos sem saída“, anunciou o Presidente, citado pela Reuters, admitindo que “não será possível chegar rapidamente a acordo sobre tudo” dadas as vastas diferenças entre as partes.