Quando a notícia do voo totalmente tripulado por mulheres saltou para as manchetes dos media na semana passada, o nome de Katy Perry ecoava como já há muito não era habitual. A popstar foi o grande destaque da missão New Shepard NS-31, em grande parte devido à postura teatral que assumiu quando regressou a solo terrestre — Perry demonstrou estar emocionada o suficiente para beijar o chão —, mas também por ser uma celebridade, assim como Lauren Sánchez (noiva de Jeff Bezos) e Gayle King (apresentadora da CBS).
Apesar do espetáculo mediático, que tem sido acusado de não ser nada mais do que um ato de marketing capitalista disfarçado de ato feminista histórico, havia outra passageira a bordo cujos feitos passaram despercebidos à maioria dos relatos de imprensa.
Ao ultrapassar a linha de Kárman, Amanda Nguyen tornou-se na primeira mulher de ascendência vietnamita a ir ao espaço. Foi também o dia em que alcançou um sonho que tinha colocado em pausa durante dez anos para defender os direitos civis depois de ter sido violada após uma festa da universidade, mantendo a promessa de “regressar a si mesma”.
Quando a cápsula que transportava as seis mulheres — o grupo incluía ainda a realizadora Kerianne Flynn e Aisha Bowe, ex-cientista da NASA — atingiu a gravidade zero, Nguyen teve menos de um minuto para realizar duas experiências. As placas de Petri voaram em direções opostas assim que ela as retirou da sua bolsa, o que fez com que perdesse segundos preciosos. A astrofísica estava naquela missão, não pela adrenalina, não pelo mediatismo, mas pela ciência. E pela mulher que deixou para trás quando decidiu trocar a astronomia pela justiça.
O convite da Blue Origin, no final de 2023, trouxe-lhe de volta a oportunidade. Quando questionada pela The Cut sobre se o facto de o espaço se estar a tornar num “parque de diversões para adultos” a incomodava, Nguyen mostrou-se conformada. “Vivemos num mundo capitalista”, afirmou. “No fim de contas, pude voar devido à parceria público-privada que a NASA abriu”.
Antes da conquista espacial, tinha sido nomeada ao Prémio Nobel, em 2019, por ter conseguido que a lei dos Direitos dos Sobreviventes de Agressão Sexual fosse aprovada no congresso dos EUA. Foi também uma das Mulheres do Ano da revista Time, uma das 100 mulheres da BBC, e uma dos “abolicionistas” da lista Frederick Douglas 200. Este ano, escreveu um livro, lançado em março: em Saving Five: A Memoir of Hope, Amanda coloca no papel a sua história como ativista, num relato entrelaçado com a resiliência e a esperança que marcam a própria vida.
A 14 de abril, Nguyen conseguiu, por fim, conquistar o céu: “Neste momento, só quero que os sobreviventes [de crimes sexuais] saibam que é possível ultrapassar. Nenhum sonho é demasiado louco, e mesmo que o seja — como ir ao espaço — é absolutamente possível alcançá-lo”, afirmou Nguyen, numa entrevista imediatamente após o voo.
A violação em Harvard e o abuso na infância
Acontece sempre quando menos se espera. Em 2013, Nguyen estava no último ano do curso de astrofísica na Universidade de Harvard. Estava indecisa entre aceitar um emprego na NASA, onde já tinha estagiado duas vezes, ou na CIA, como espiã. Esta era a sua maior preocupação, o seu maior dilema, o seu maior objetivo. Até à violação.
Tudo se passou num piscar de olhos. “Como se tivesse sido planeado. Como se não fosse a primeira vez. Como se ele já tivesse feito o mesmo antes”, descreve Amanda no seu livro, Saving Five.
Amanda estava paralisada, deitada no chão do seu quarto em Harvard, a arrastar-se com a pouca força que tinha nos braços. A parte de baixo do seu corpo estava completamente dormente e dilacerada. Mas arrastou-se. Os seus dedos trémulos alcançaram o telemóvel. A ajuda estava a caminho.
Já no hospital universitário de Harvard, depois de realizar o exame médico pós-violação, Amanda sentiu-se como “um pedaço frio de carne, enquanto as suas entranhas eram magma líquido”, disse ao The Guardian, usando a mesma imagem que tinha escrito no livro. A enfermeira perguntou-lhe se queria apresentar queixa. Nguyen escolheu guardar o exame médico anonimamente, de modo a poder tomar essa decisão mais tarde. Tinha receio de que o seu envolvimento num processo em tribunal não fosse visto com bons olhos pelas instituições a que tentava candidatar-se. Supostamente, o rape kit seria guardado durante o tempo de prescrição do caso.
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Amanda realizou vários exames — entre eles, um hemograma e um teste de gravidez — e foram-lhe administrados vários comprimidos, que incluíam antibióticos e medicamentos para prevenção da hepatite B e VIH. Quando finalmente recebeu alta, abandonou o hospital com uma conta de 4.863,79 dólares (4.279,02 euros) e um total de 65 documentos.
Já reinstalada no seu quarto em Harvard, vasculhou os papéis. Receitas médicas, formulários para assinar, folhetos, um atestado médico. Uma montanha de burocracia que escondia uma informação que se revelou devastadora: um dos documentos declarava que todos os kits seriam destruídos após seis meses.
“O prazo de prescrição é de 15 anos porque reconhece que o trauma leva tempo a ser processado”, disse Nguyen ao The Guardian. “Descobri que os kits nem sequer estavam a ser processados. Porque é que eu haveria de passar por todos aqueles procedimentos invasivos para os destruírem antes de serem testados?”
Nos dias seguintes, Amanda foi informada de que, em casos de violação, um processo em tribunal teria, em média, dois a três anos de duração, e que a taxa de condenação rondava o 1%. Amanda questionou se realmente queria carregar no botão de pausa para lutar por algo que parecia estar destinado a falhar. “O sistema estava contra mim, parecia manipulado, e isso foi uma traição maior do que ser violada”.
Não era a primeira vez que a jovem vietnamita sofria abusos. Durante a infância, o pai de Nguyen revelou ser um homem agressivo e violento, diferente daquele que a mãe conheceu quando chegou aos Estados Unidos, tal como ele, refugiada. As suas histórias eram semelhantes e a sua ligação com o mar e as estrelas fascinou a pequena Amanda desde muito cedo. Porém, em breve, a magia viria a desaparecer. “Algumas casas são marcadas com as alturas das crianças nas paredes, a minha era marcada com formatos de cabeças no gesso”, disse ao The Guardian. Lembra-se de passar dias inteiros com a mãe na biblioteca ou na livraria perto de sua casa, numa tentativa de fugir à ira do pai. Quando a mãe decidia que era seguro regressar, deixava sempre a filha do lado de fora da casa e entrava primeiro, para se certificar que a tempestade tinha mesmo passado. Enquanto esperava, Amanda contava as estrelas. “A ideia de ir ao espaço significava uma promessa extra a mim mesma, de que encontraria uma maneira de escapar”.
Mas o duplo trauma não lhe serviu de barreira. Depois da violação, concentrou-se em colocar a sua vida de volta nos eixos — terminou o curso, mudou-se para Washington DC e começou os treinos de recrutamento da CIA — e estava simultaneamente numa missão para recuperar o seu rape kit. Ligou para laboratórios forenses, falou com a polícia, sempre sem êxito. Porém, mesmo antes de acabarem os seis meses, conseguiu localizá-lo e o laboratório onde este se encontrava concordou em estender o prazo de armazenamento. Para conseguir a autorização, Amanda teve de voar de Washington para Boston, apenas para lhe ser entregue um documento.
De volta a casa, Amanda soltou um suspiro de alívio, mas o ar ficou-lhe preso na traqueia. Tinha conseguido o objetivo. Mas era temporário. Daí a seis meses, teria de fazer tudo novamente. E isso fez com que sentisse uma revolta nas entranhas. “Em casos de assassinato, casos arquivados são resolvidos anos depois porque as provas não são destruídas. Então, porque é que este crime específico, que afeta predominantemente mulheres, tem as provas descartadas?”, disse ao The Guardian.
Nguyen tinha de fazer uma escolha: continuar a percorrer o caminho que a levaria a alcançar todos os seus sonhos científicos e espaciais ou mudar de direção e fazer uso da própria experiência para lutar pelos direitos das vítimas de abusos sexuais. Escolheu a última opção. Mas nunca esqueceu o anseio de flutuar entre os astros, os mesmos que guiaram os pais quando atravessaram o Pacífico em direção aos Estados Unidos, depois da queda de Saigão.
“Há 46 anos, vocês olharam para as estrelas, enquanto refugiados, para navegar rumo à liberdade. Agora, podem ver a menina que criaram tornar-se a primeira mulher vietnamita no espaço”, disse Amanda no seu Instagram.
A fundação Rise e a alteração à lei da vítima
Em 2014, o cosmos era ainda um horizonte distante, mas a justiça começava a traçar novos caminhos no planeta azul. Determinada a procurar mudança para si mesma e para outros, Amanda reuniu um grupo de vítimas de crimes sexuais e criou a Rise, uma organização sem fins lucrativos, com o objetivo de proteger e lutar pelos direitos dos sobreviventes de violência sexual.
Graças ao movimento, em 2016, foi aprovada por unanimidade no Congresso a lei dos Direitos dos Sobreviventes de Agressão Sexual (Sexual Assault Survivors Bill of Rights Act), que garante às vítimas o direito a exames médicos gratuitos. A lei foi aprovada pelo então Presidente americano, Barack Obama. O regulamento exige ainda que as provas forenses sejam mantidas durante, pelo menos, o prazo de prescrição do crime, e oferece a opção de o prolongar em determinadas circunstâncias. Por esta conquista, Amanda foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz em 2019.
A Rise tem participado em muitas outras iniciativas: organizou a primeira Assembleia dos Sobreviventes na ONU, criou o primeiro Refúgio Seguro dos Sobreviventes [de abuso] durante o confinamento devido à COVID-19, e conseguiu até juntar a arte à justiça — em setembro de 2021, a organização concebeu o primeiro desfile de moda composto apenas por vítimas de abuso sexual, na Semana da Moda de Nova Iorque. Três meses depois, estava em exibição a exposição “O que estavas a usar”, na ONU.
Até hoje, o grupo já viu aprovadas 88 leis da sua autoria, assim como a primeira resolução da ONU focada exclusivamente nos direitos de sobreviventes de violência sexual fora de contexto de guerra ou conflito armado. Atualmente, o objetivo da Rise é fazer com que os 50 estados adotem legislações semelhantes de proteção e apoio às vítimas de violência sexual.
A viagem ao espaço
Em 2021, após dez anos a trabalhar como ativista, Amanda decidiu regressar às origens e retomar o seu caminho rumo à exploração espacial. Ingressou no International Institute of Astronautical Sciences, onde se tornou candidata a cientista-astronauta, com foco em investigação sobre saúde feminina no espaço.
Ao descer da cápsula da Blue Origin, Amanda Nguyen não se preocupou com os flashes das câmaras. Com um sorriso largo e genuíno, visivelmente emocionada, olhou para o céu, com os braços erguidos e os punhos fechados. Mas as lágrimas não se deviam apenas à adrenalina da viagem espacial – eram as lágrimas da mulher que, depois de muito sofrimento, se salvou a si mesma. “Esta viagem é sobre cura”, declarou.
Nguyen, tal como as outras cinco tripulantes, levou dois indicadores de gravidade zero (objetos que flutuam assim que se atinge a zona de gravidade zero). Um deles era um pedaço de papel com as palavras Never, never give up (nunca, nunca desistir), que Amanda escreveu quando regressou do hospital, depois de ter realizado o exame pós-violação. Estava indecisa entre trazer o segundo: a pulseira do hospital. “Acabei por trazê-la [a pulseira]”, disse, na entrevista pós-voo. “Hoje, pude honrá-la”.
Apesar de o voo ter significado a realização do sonho de uma vida para Nguyen, os seus objetivos não eram meramente pessoais, nem tampouco egoístas. “Não sou rica e não sou uma celebridade”, disse Nguyen à The Cut. “Estou aqui para fazer um trabalho.”
Nguyen, que é também investigadora de bioastronáutica, levou consigo algumas experiências para realizar no voo de 10 minutos. Um deles envolve testar material absorvente em microgravidade. Caso seja bem-sucedido, este estudo pode ter aplicação na saúde espacial da mulher — uma melhor tecnologia de absorção em condições de gravidade possibilitaria a criação de vestuário adequado para astronautas menstruadas.
“Historicamente, a NASA proibia mulheres de se tornarem astronautas, e um dos motivos mais citados era a menstruação. É por isso que estou a fazer isto”, declarou Amanda ao The Guardian.
A cientista levou ainda alguns materiais que estão a ser testados para fatos espaciais de última geração e um adesivo ultrassónico, ambos projetados por investigadores do MIT e do MediaLab.
O adesivo ultrassónico vestível, que pode ser usado como se fosse roupa, é um protótipo desenvolvido pelo Programa de Saúde da Mulher (WHx) do MediaLab. O projeto pode vir a permitir a monitorização contínua da saúde no espaço. O objetivo a longo prazo é desenvolver um fato com ultrassom incorporado para observar o funcionamento musculoesquelético e o alongamento da coluna em astronautas, assim como detetar cancro da mama em astronautas expostas a radiação.
Nguyen fez questão de ressaltar que a sua investigação sobre a saúde da mulher em microgravidade também se aplica na Terra. “Esta tecnologia vai salvar vidas”, afirmou. “Para mim, essa é a missão cumprida.”
Texto editado por Dulce Neto