Está encontrada a narrativa do PSD para tentar fragilizar Henrique Gouveia e Melo: o almirante, que formalizou esta quinta-feira a candidatura à Presidência da República, é o candidato-melão; só depois de aberto é que se saberá o que pensa e quer para o país. Isso mesmo sugeriu Luís Montenegro no dia em que deu o embalo que faltava a Luís Marques Mendes — o carimbo de candidato apoiado oficialmente pelo PSD.

A decisão foi formalizada no Conselho Nacional, órgão máximo do partido entre congressos, e foi devidamente explicada por Luís Montenegro aos dirigentes do PSD. Sem nunca criticar abertamente Henrique Gouveia e Melo, o líder social-democrata não deixou de defender que Marques Mendes é um candidato seguro, que o “partido e o país conhecem” e que não trará surpresas negativas a quem votar nele.

Já depois de ter dito que Marques Mendes sempre deu mostras de “neutralidade” ao longo dos últimos anos, desde logo porque nunca deixou mostrar que discordava do PSD em vários momentos, Montenegro defendeu que o seu patrono político — Mendes foi muito importante no processo de afirmação interna do atual líder do PSD — “conhece muito bem os desafios do país, o alcance das competências do Presidente da República e como os órgãos de soberania se devem relacionar”.

“Ficaremos em muito boas mãos para podermos projetar nos próximos cinco anos um período de funcionamento regular das instituições democráticas. Sabendo com o que podemos contar e que não vem aí nenhuma surpresa”, assinalou o social-democrata, numa crítica indireta a Henrique Gouveia e Melo — Luís Montenegro não deixa de ser primeiro-ministro em funções e poderá de ter de conviver institucionalmente com o almirante, caso este venha a ser eleito. Exige-se, portanto, contenção nas críticas.

Horas depois, o Conselho Nacional confirmaria o que já se esperava: um apoio “esmagador” e “convicto” à candidatura de Marques Mendes, com apenas um voto contra, como viria a anunciar Hugo Soares, com grande “regozijo”. Aproveitou para frisar que foi assim aprovado o apoio a uma candidatura de “perfil adequado” para um cargo que é “eminentemente político”, horas depois de ter sido formalmente anunciada a candidatura de Gouveia e Melo. Foi audível um aplauso curto no momento da votação.

Revisão constitucional afastada. Para já

Montenegro aproveitou para deixar claro que a revisão constitucional acontecerá no tempo e no modo em que a AD – que será necessária para aprovar qualquer alteração ao documento – preferir, até porque não gostou de que os partidos tentassem arrastar o PSD para esta discussão. À direita, a IL lançou a proposta e o Chega cavalgou a ideia, pedindo ao PSD que se posicionasse e aproveitasse a maioria que, pela primeira vez na democracia portuguesa, pode fazer alterações sem contar com o PS; à esquerda, os partidos desdobraram-se em avisos sobre o papão da “mudança de regime” que poderia vir aí, se a revisão só contasse com os votos da direita. O PS lançou, de resto, pedidos públicos aos sociais democratas para que o encarassem como um parceiro privilegiado neste quadro, honrando os “compromissos históricos” do centrão.

Ora para Montenegro há assuntos mais importantes a tratar – o Governo não deve distrair-se com “politiquês” nem com temas que se resumem a “divertimento intelectual e político”, mas antes a pôr em prática as promessas que fez na campanha. De resto, acusou, não viu ninguém tratar o tema como prioridade na campanha (talvez só a IL), pelo que não seria “legítimo” fazê-lo agora, depois dos votos contados.

Isto não significa que o PSD não queira alterar pontos da Constituição, nem que vá atirar a discussão “para as calendas”, assegurou. Apenas que tem as prioridades em ordem. Haverá tempo, “lá mais para a frente” e quando o PSD considerar “adequado”, para rever a Constituição – um assunto que até “apaixona” o primeiro-ministro, que participou em vários desses processos no passado. Mas “não é para agora”. Por isso, pediu que o PSD “não olhe para isso” nem se deixe distrair por um dossiê potencialmente polémico – para já, é altura de deixar “orientado” o que é “prioritário”, e os eleitores têm preocupações mais prementes para resolver.

Numa fase inicial do seu discurso, Montenegro prometeu dar “primazia absoluta ao crescimento económico, à capacidade de o país poder aumentar o seu investimento e, por via disso, aumentar o rendimento das famílias, dos trabalhadores e das empresas”. A seguir, o líder social-democrata e primeiro-ministro garantiu que o Governo vai avançar com uma reforma sem paralelo da Administração Pública.

“É fundamental para o crescimento económico. Faremos da modernização da Administração a trave-mestra daquilo que queremos que seja a capacidade de sermos mais competitivos. O país tem de perceber que se quer quebrar este ciclo de burocracia e de atraso tem de saber que isto traz mudanças e que estas mudanças exige confiança e que a confiança exige penalização de quem violar essa confiança.”

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]

PM pressiona oposições e exige “sentido de responsabilidade”

Motivado pela vitória “inequívoca” do PSD, Montenegro pôs-se a fazer contas, como de resto já fizera logo à saída do encontro em que Marcelo Rebelo de Sousa voltou a indigitá-lo primeiro-ministro, para mostrar que a situação no Parlamento será muito mais tranquila para a AD do que foi no tumultuoso ano que passou. Primeiro, porque essa vitória lhe deu uma distância de mais de 30 deputados em relação aos grupos parlamentares do PS e do Chega; depois porque, feitas as contas – próprias de quem está habituado aos tetris parlamentares –, o PSD terá sempre mais deputados do que qualquer conjugação de todos os outros partidos menos um (Chega, IL e restantes partidos não têm mais deputados do que a AD se o PS não alinhar, e vice versa).

Conclusão: por força da matemática e da vontade dos eleitores, há agora condições para que a “estabilidade” que foi “pedra dominante” nos discursos da campanha o seja agora na prática, tornando a dinâmica parlamentar “diferente”. Montenegro começou com promessas de boa vontade, saudando os partidos pelo “sentido de responsabilidade que anunciaram”. E assim pressionou PS e Chega a garantirem que haverá “condições de relacionamento” diferentes com o Governo: não significa que o PSD não vá ter uma postura de “respeito” com a oposição, mas este “figurino parlamentar” oferece – e obriga a – uma estabilidade política maior.

Já o PSD, garantiu, estará “empenhadíssimo” em governar agora que recebeu um voto de confiança reforçada nas urnas, e Montenegro fez uma primeira promessa em relação à sua própria equipa (que, como já tinha dito em Belém, contará com “muitos” dos antigos elementos): dará ordem imediata para “não perder tempo com lateralidades, debates estéreis e politiquices” e “pôr mãos à obra, começar a resolver problemas e corresponder às expectativas criadas” na campanha.