Ao 29º dia do julgamento de Sean “Diddy” Combs no tribunal de Manhattan, em Nova Iorque, e depois de as testemunhas arroladas pela acusação terem sido ouvidas, a equipa de defesa do magnata da música já fez saber que não tenciona apresentar testemunhas próprias, colocando o caso perto da sua reta final.
A NBC News destaca que o facto de a equipa legal de Combs decidir não chamar ninguém para depor em sua defesa foi inesperado, mas está longe de ser invulgar nos EUA. Segundo os peritos jurídicos ouvidos pela estação televisiva norte-americana, os advogados do rapper e produtor musical deverão usar as alegações finais, que decorrerão nos próximos dias, para assegurar que as testemunhas da acusação defenderam o seu caso.
“Poderemos ouvir dizer: ‘Não tivemos o ónus de provar o nosso caso, e o contra interrogatório das testemunhas [da acusação] torna claro que nós temos razão e eles estão errados'”, antecipou Mitchell Epner, antigo procurador federal de Nova Jérsia, em relação à estratégia dos advogados do músico.
Ao longo de sete semanas, foram várias as pessoas que fizeram parte do círculo de Sean Combs a depor contra ele. O testemunho que mais se prolongou e que terá tido mais impacto na decisão que o júri tem em mãos — a de decidir se o músico é culpado de drogar, violar, traficar, intimidar e subornar dezenas de pessoas no seio da indústria da música — foi o de Casandra Ventura, a sua namorada de longa data, com quem manteve uma relação romântica intermitente por mais de dez anos.
Cassie, como é conhecida artisticamente, revelou como muito cedo na relação percebeu que ficaria dependente do humor instável do namorado, que depressa a começou a agredir. “Fazia a expressão errada e, quando dava por mim, estava a levar na cara“, recordou quando depôs em tribunal, quase no final do termo da gravidez do terceiro filho de outra relação, em meados de maio.
Tanto ela como uma ex-namorada mais recente de “Diddy”, que não foi identificada em tribunal para sua proteção, contaram que eram forçadas a participar e organizar “freak-offs”, nome que Combs dava a festas de sexo e drogas, para as quais recrutava trabalhadores de sexo, que por vezes fazia chegar de diferentes estados norte-americanos, para que fossem cumpridos escrupulosamente os seus anseios e desejos sexuais.
Em tribunal foram exibidas mensagens de texto trocadas entre o rapper e estas duas ex-namoradas, em que ambas mostraram desagrado e intenção em não voltar a participar nestes eventos, porque se sentiam usadas e desumanizadas. Combs usava a chantagem — através da gravação de vídeos íntimos — e outros meios de coação para as obrigar a continuar a manter relações sexuais com ele e com trabalhadores de sexo nestas festas que podiam durar mais de 24 horas.
Foram igualmente ouvidos assistentes do produtor musical, que não só revelaram que fazia parte das suas funções profissionais recrutar prostitutos e organizar a logística das festas de sexo, como relataram episódios de violência de “Diddy” para com eles e com as ex-namoradas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]
O testemunho final que a acusação espera que prove o planeamento intrincado e criminoso dos “freak-offs”
Os preparativos para as festas de sexo e droga que faziam parte do dia-a-dia de Sean Combs e das suas namoradas foram detalhados esta segunda-feira em tribunal. Foram mostradas provas, com data de setembro de 2023, de planos de voo, reservas de hotéis, negociações sobre tarifas de acompanhantes e exposta toda uma complexa rede de pagamentos para que todos estes planos não pudessem ser rastreados.
Para expor estes detalhes, sentou-se no banco das testemunhas um agente especial da Divisão de Investigações de Segurança Interna que leu mensagens de texto, extratos das contas da American Express e outros registos. É a 34ª e última testemunha da acusação antes de os procuradores encerrarem o seu caso contra P Diddy.
Segundo o New York Times, a procuradoria norte-americana tentou, uma última vez, provar o padrão de consistência da atividade criminal — que inclui tráfico, extorsão e por vezes roubo — para serem organizadas as maratonas sexuais elaboradas e movidas a drogas que Combs organizava quase como modo de vida.
Desde o momento em que foi acusado, “Diddy” declarou-se inocente em relação a todos os crimes que lhe foram imputados. Ao longo destas sete semanas de julgamento, os seus advogados têm vindo a argumentar que os eventos sexuais em que os seu cliente participava decorreram com total consensualidade de todas as partes envolvidas, alegando que praticava swing regulamente com todas as suas ex-companheiras. Negam igualmente as acusações de violência e de tráfico sexual.