Depois de, na quinta-feira, terem entrado em vigor as novas taxas alfandegárias definidas pela Presidência de Donald Trump, vários países desdobram-se em busca de respostas às novas relações comerciais com os Estados Unidos.

O Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas, assim como o bloco económico da União Europeia, alcançaram acordos com Washington para reduzir ou mitigar o efeito no comércio. Porém, há vários países que não conseguiram nenhum entendimento.

Estados como o Brasil ou a Índia foram hostilizados por diferentes razões pelo Presidente norte-americano, sofrendo com taxas maiores. Há quem ainda queira negociar com Trump e quem já tenha sentido um duro golpe comercial, mesmo antes desta semana.

  • Brasil aposta no investimento público

No caso do Brasil, tudo se deve ao processo instaurado a Jair Bolsonaro, ex-Presidente do país e aliado de Trump acusado de tentativa de golpe de estado, levando o líder norte-americano a aplicar um agravamento das taxas para 50%.

O ministro da Fazenda (o equivalente ao ministro das Finanças português), Fernando Haddad, apresentou um plano de contingência na quarta-feira, um dia antes da entrada em vigor das novas tarifas, com medidas de apoio do Estado às empresas que serão mais afetadas.

Uma das medidas que pode vir a ser aplicada é a movimentação de cerca de 4,7 mil milhões de euros de um fundo do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social para ser usada nessa ajuda estatal, diz a agência de notícias Reuters.

O vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, afiançou ao jornal Estadão que o plano já está a ser analisado pelo Presidente Lula da Silva, e pode ser lançado “até terça-feira“.

  • Na Índia, Modi promete não recuar

Já na Índia, a compra de petróleo à Rússia está na base de uma penalização de 25% à taxa de 25% pré-anunciada, efetivamente duplicando a tarifa para 50%. Para Donald Trump, o país está “a alimentar a máquina de guerra russa” na Ucrânia, algo que o Chefe de Estado norte-americano quer combater.

A reação indiana foi a de manter a sua posição e recusar, por razões de “interesse nacional”, ceder às pressões dos EUA para parar de comercializar com a Rússia. Como explica o The Guardian, a pressão sobre Nova Deli é também para que o país importe alimentos geneticamente modificados produzidos na América, algo que a Índia também tem recusado.

Num discurso da última quarta-feira, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, deu a cara pela resistência do país, mesmo reconhecendo que terá, pessoalmente, de pagar um “preço muito alto” por isso.

“A Índia nunca comprometerá o bem-estar dos seus agricultores, do setor leiteiro e dos pescadores“, garantiu Modi, num discurso transmitido na televisão em que assegurou ainda que “o bem estar dos agricultores”, para ele, era “supremo”.

  • Na União Europeia, críticas e adaptações

Apesar do acordo entre a UE e os EUA, a reação negativa de países do bloco europeu também se fez sentir. A França, por exemplo, deixou fortes críticas aos termos atingidos com a visita de Ursula von der Leyen à Éscocia, onde esteve com Donald Trump.

“É um dia sombrio aquele em que uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, decide submeter-se”, escreveu o primeiro-ministro do país, François Bayrou, na rede social X.

Já Friedrich Merz, chanceler alemão, disse que o acordo “põe um grande fardo numa economia alemã virada para as exportações” mas que era o melhor que se podia ter.

No caso da Irlanda, o facto de o país ser sede de vários escritórios de multinacionais norte-americanas, como a Intel, a Pfizer ou a Johnson & Johnson, levou o governo a agir para reduzir esta dependência.

Simon Harris, ministro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio, citado pela televisão RTÉ, defendeu que a aplicação das tarifas sem acordo “seria, sem dúvida alguma, um momento de catástrofe para o bem-estar económico” do país.

Ainda assim, a declaração do ministro, depois da entrada em vigor das tarifas, acabou com um apelo à procura de “outras oportunidades para diversificar mercados para os negócios irlandeses”. “Embora queiramos continuar a fazer negócios com os EUA e, na verdade, queiramos expandir os nossos negócios, é importante aproveitar todas as oportunidades para identificar novos mercados”, sublinhou Harris, que prometeu um “novo Plano de Diversificação de Mercados” para o país ainda esta semana.

  • Portugal saudou o acordo UE-EUA e quer expandir mercados

Já Portugal não lançou quaisquer críticas às medidas tomadas pela União Europeia, aceitando as tarifas de 15%. Depois do anúncio, o primeiro-ministro Luís Montenegro considerou que o entendimento trazia “previsibilidade e estabilidade para as empresas portuguesas“.

“Evita a escalada, mas põe exigências novas na luta por mais acordos de comércio, no corte de barreiras e na agenda transformadora de simplificação e redução de custos“, sublinhou o primeiro-ministro

Segundo o site do Governo, Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, reuniu-se com associações de setores exportadores para “avaliar como estão a absorver as medidas que foram desenhadas para responder ao impacto das tarifas sobre os produtos portugueses”, disse o ministro na quinta-feira.

Há uma nova ordem no comércio entre EUA e União Europeia. Ainda há setores a sonhar com taxa zero, mas o impacto já chegou

Castro Almeida, na mesma publicação, garantiu ainda que o governo está “a ajudar as empresas a diversificarem os mercados para os quais exportam“, através do “Programa Reforçar – Competitividade, Exportação e Internacionalização”, destinado a “mitigar eventuais efeitos adversos” das tarifas, com linhas de financiamento do Banco de Fomento Português e subvenções para apoio à internacionalização.

  • Suíça quer negociar, Trump diz que a “mulher foi simpática, mas não queria ouvir”

Noutros países europeus, a Suíça, país que não faz parte da União Europeia, acordou na quinta-feira com uma nova taxa alfandegária de 39% — entre as mais altas que foram aplicadas nesta leva — mesmo depois de uma última tentativa falhada de negociação na capital norte-americana, informa a Reuters.

“Para os setores afetados, as empresas e os seus empregados, esta é uma situação extremamente difícil“, considerou a Presidente do país, Karin Keller-Sutter, que fez parte da equipa que viajou para os EUA na quarta-feira.

Trump, entrevistado pela CNBC, confirmou que se tinha encontrado com a líder suíça, mas que não a conhecia. “A mulher foi simpática, mas não queria ouvir“, disse.

  • África do Sul quer diversificar exportações

Os EUA aplicaram, a partir desta quinta-feira, uma tarifa de 30% para a maior parte dos produtos, um golpe para um país que, segundo a RFI, depende da exportação de bens como carros, aço e citrinos.

As relações entre a África do Sul e os Estados Unidos tinham-se tornado tensas depois do confronto na Sala Oval em maio entre os Presidentes Cyril Ramaphosa e Donald Trump. Apesar dos conflitos passados, na quarta-feira, o líder sul-africano telefonou ao homólogo norte-americano, concordando em continuar a negociar.

O governador do Banco de Reserva da África do Sul, Lesetja Kganyago, avisou que estas taxas podem vir a custar até cem mil empregos para a economia sul-africana. Já o ministro do Comércio e da Indústria, Parks Tau, diz que são “uma ameaça direta aos empregos nas indústrias chave do país, como a dos automóveis, do agroprocessamento, do aço e de químicos”.

A resposta de Pretória, como afiança a RFI, foi de lançar um “programa de apoio aos produtores” para que possam expandir os mercados para onde vendem os produtos, como explicou o chefe de exportações no Departamento de Comércio, Indústria e Competitividade do governo sul-africano, Willem van der Spuy.

“Através deste gabinete de apoio, iremos ligar os produtores às embaixadas e potenciais compradores para penetrar novos mercados. Mas também, em geral, para ajudar o país a diversificar as suas exportações”, disse.

“Estamos a trabalhar com urgência e determinação para implementar intervenções reais e práticas que defendam os empregos e posicionem a África do Sul de forma competitiva num cenário global em mudança”, sublinhou Parks Tau.

  • Lesoto sente duro impacto apesar da redução da taxa

Encravado na África do Sul, o pequeno reino do Lesoto tinha sido, na primeira declaração de Trump sobre valores das taxas alfandegárias, um dos países com maior percentagem: 50%. Esta, mesmo antes da entrada em vigor, tinha começado a afetar o reino, dependente de exportações de têxteis para o exterior.

Na segunda-feira, a agência Reuters noticiou, citando empresários e representantes do país, que a “incerteza à volta das tarifas já tinha devastado o setor, com encomendas canceladas e empregos cortados“.

“Temos cerca de 12 mil empregos que estão diretamente na linha de fogo por causa desta tarifa“, sublinhou o ministro do Comércio do reino, Mokhethi Shelile.

A taxa foi reduzida, no último decreto de Trump, para 15% sobre a maioria dos bens mas esta descida, como contou Shelile à televisão russa RT na segunda-feira, não aliviou o choque comercial, dadas as margens de lucro baixas dos têxteis. “Efetivamente, não há diferença entre 50% e 15% para a indústria do vestuário“, disse

  • Taiwan fala numa taxa “temporária”

Para Taiwan, a taxa de 20% surge vinda do “maior comprador” de uma economia “potenciada por exportações“, especialmente em produtos ligados ao sector de componentes eletrónicos, como a avançou o New York Times.

Porém, o Presidente do país, Lai Ching-te, vê esta tarifa como “temporária“, pretendendo obter ainda condições mais vantajosas em negociações futuras setoriais.

“Os Estados Unidos são cruciais para o desenvolvimento económico e comercial de Taiwan, e é por isso que Taiwan está a negociar ativamente com os Estados Unidos, na esperança de equilibrar o défice comercial e criar resultados mutuamente benéficos e complementares.”, disse o líder no dia 1, em declarações citadas pelo jornal norte-americano.

  • Laos e Myanmar, vizinhos com tarifas a 40%

No Sudeste Asiático, foi aplicada a mesma taxa aduaneira a dois países vizinhos: Myanmar e Laos, que países vizinhos, tiveram a mesma tarifa de 40%, uma das percentagens mais elevadas. Mas as reações foram muito diferentes.

Em Myanmar, governado por um regime militar depois de um golpe de estado em 2020, não é conhecida a reação às tarifas em si. Porém, como relata a CNN, a receção de uma carta dos Estados Unidos a impor os 40% foi recebida com “sincero apreço” pelo general Min Aung Hlaing, líder da junta militar, já que nem os Estados Unidos, nem nenhum estado ocidental tinha reconhecido o regime militar como o governo legítimo do país.

No caso de Laos, segundo o jornal Laotian Times, “espera-se que a alta taxa tenha um impacto significativo nas exportações do Laos, especialmente no setor de vestuário e têxteis”.

À AFP, Xaybandith Rasphone, presidente da Associação da Indústria de Tecidos de Laos, estimava, no fim de julho, que “cerca de vinte mil trabalhadores ou mais possam ser impactados”, um número que podia ser “maior se fecharem empresas”– avançando que entre 35 e 40 fábricas podem ser afetadas.

“Se a tarifa permanecer em vigor, algumas fábricas irão certamente fechar”, afirmou ainda Rasphone, Encontrar acrescentando que “encontrar alternativas de mercado leva tempo, negociações e muito esforço” e “pode levar anos“.