Ian Wilkinson, o único sobrevivente do crime de envenenamento com cogumelos levado a cabo pela ex-mulher do seu sobrinho, Erin Patterson, na Austrália, declarou esta segunda-feira em tribunal que perdoa a arguida pela tentativa do seu homicídio, mas não a desresponsabiliza nem desculpa pelas mortes dos restantes familiares — a sua mulher e os cunhados, que eram ex-sogros da acusada.

“Ofereço o perdão a Erin”, afirmou Wilkinson esta segunda-feira no Supremo Tribunal de Victoria, em Melbourne, relata o The Guardian. “No que diz respeito aos homicídios de Heather [mulher], Gail e Don [cunhados], sinto-me obrigado a procurar justiça“. Em julho de 2023, Erin preparou um almoço para os seus ex-sogros (Gail e Don) e para os tios do ex-marido (Heather e Ian). Serviu uma especialidade inglesa, Beef Wellington, contendo death cap — um dos cogumelos venenosos mais perigosos do mundo — e o único sobrevivente foi Wilkinson, depois de ter estado semanas hospitalizado. O ex-marido, Simon Patterson, recusou o convite para o almoço.

Já em julho deste ano, um júri de 12 pessoas considerou Erin Patterson culpada por três crimes de homicídio e um de tentativa de homicídio. Durante o julgamento, a arguida disse que o envenenamento foi acidental. No entanto, o Ministério Público destacou as relações tensas entre Erin e Simon, assim como a frustração que sentia em relação aos ex-sogros.

Júri considera australiana culpada de matar familiares com cogumelos venenosos

A audiência das alegações finais decorreu esta segunda-feira, duas semanas antes da leitura da sentença, marcada para 8 de setembro.

Wilkinson explicou que ficou marcado para a vida pela decisão “fria e calculista” da acusada. “Estou angustiado pelo facto de Erin ter agido com total desprezo pela minha vida e pelas vidas de quem eu amava”, disse o sobrevivente, questionando: “Que insensatez leva alguém a pensar que o homicídio poderia ser a solução para os seus problemas, especialmente contra pessoas que só lhe queriam bem?”

[Meses depois de confessar o crime, o assassino de Sartawi é finalmente julgado. Mas, numa reviravolta, o terrorista do quarto 507 garante que é inocente. Como vai tudo acabar? “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Ouça no site do Observador o sexto e último episódio deste Podcast Plus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto episódio aqui]

O viúvo de Heather recordou, ainda, a vida ao lado da mulher, referindo que “ela era sábia, tinha capacidades que compensavam as [suas] falhas”: “Enfrentámos a vida como uma equipa e deliciávamo-nos com a companhia um do outro”. “É horrível viver com a ideia de que alguém decidiu tirar-lhe a vida. A minha consolação é que estaremos reunidos numa outra vida”, acrescentou Wilkinson.

O ex-marido da arguida optou por não comparecer no tribunal, mas enviou uma declaração, que foi lida pela prima. “Sinto a falta dos meus pais e da minha tia mais do que as palavras conseguem expressar”, escreveu, sublinhando que os filhos ficaram privados de uma vida familiar normal. “Vivem numa casa irreparavelmente destruída, apenas com um progenitor, e sabem que foi a mãe que matou os avós”.

O Ministério Público australiano e a defesa concordaram que Patterson deve ser condenada a prisão perpétua, embora a defesa tenha pedido que seja fixado um período mínimo de cumprimento, referindo as condições em que a arguida se encontra detida, desde novembro de 2023, com longos períodos de isolamento.

Erin Patterson manteve-se em silêncio durante toda a sessão, apenas respondendo a perguntas formais de identificação. O juiz, Christopher Beale, classificou os factos como sendo de grande gravidade e afirmou que os terá em conta antes de ditar a sentença final.