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O cão de um combatente espanhol que morreu na guerra da Ucrânia em junho — e cujo corpo ainda não foi trasladado para Espanha por ter ficado numa zona sob controlo das forças russas –, regressou no domingo a Avilés, nas Astúrias, depois de um processo de repatriação que durou vários meses, avança o El Mundo. A chegada de Yosy foi uma vitória para a família, que tem enfrentado uma luta para conseguir trazer o corpo de Miguel Carmona, que é também reclamado por uma mulher que diz ser a sua mãe na Ucrânia.

O espanhol partiu para o combate sem avisar a família — já não falava com a irmã, nem com a ex-mulher e decidiu não contar ao filho, Beltrán de 10 anos, “para o poupar ao peso da dor”, segundo o jornal espanhol.

“Nem sequer sabíamos onde estava. Escrevíamos-lhe e ele dizia que estava doente. Depois soubemos que andava pela Ucrânia, mas ao mesmo tempo recebíamos notícias confusas que sugeriam que alguém o tinha visto aqui na rua. Eu estava muito chateada, a verdade é essa. Escrevemos-lhe uma vez a perguntar onde estava, afinal, e ele bloqueou-nos. Pouco depois, o cônsul Manuel Baena ligou-nos a dizer que tinha morrido”, contou Eva, ex-mulher de Miguel, ao El Mundo.

Yosy, o “psicólogo da unidade”, foi o único que Miguel não deixou para trás

Yosy foi o único que o combatente espanhol não deixou para trás — levou o pastor-belga-malinois para a Ucrânia “para lhe fazer companhia” e lá o cão era visto como uma “distração”, explica Danilo, um soldado colombiano que passou a ser o melhor amigo de Carmona em combate e que é identificado pela imprensa apenas com o primeiro nome. “É um animal jovem e muito amigável que nunca mordeu ninguém. Mais do que um soldado, era uma distração: o psicólogo da unidade”, acrescentou.

O combatente espanhol acabaria por morrer a 10 de junho, com 42 anos, na sequência de uma explosão numa trincheira, de acordo com Danilo — que também ficou ferido com gravidade, só tendo sido resgatado ao fim de 20 dias. “No dia 8 de junho fomos atacados e os russos entraram na nossa posição”, explica. “Conseguimos combatê-los, mas eles lançaram-nos um artefacto. Pensámos que era uma bomba de gás, mas era antitanque. Foi exatamente no momento em que entrávamos nas trincheiras para nos abrigarmos que se deu a explosão”.

“O Miguel ficou inconsciente de imediato e nunca mais acordou. Tudo aconteceu na tarde de dia 8 e ele acabou por ser dado como morto às duas da manhã de dia 10”, acrescentou, esclarecendo que foram retirados os soldados feridos, mas não foi possível a remoção dos corpos.

Após a morte do espanhol, Yosy ficou ao cuidado de militares ucranianos. O animal esteve alguns dias numa base militar ucraniana até que a ex-companheira de Miguel iniciou o processo de repatriamento — que lhe custou dois mil euros.

O primeiro passo foi a deslocação do cão para Kiev. “Na capital, [o pastor-belga-malinois] ficou ao cuidado de uma jovem encantadora chamada Natália. E há uns dias saiu de carro rumo a Espanha com voluntárias que vinham para Valência. Teve de ficar em quarentena, porque, embora tivesse a vacina da raiva, obrigaram-nos a refazer a documentação”, explicou Danilo ao El Mundo.

A “mãe na Ucrânia” que está a dificultar o processo de trasladação do corpo

O pedido de trasladação do corpo de Miguel foi feito assim que Eva soube da morte do ex-marido. Para já não é viável por estar numa zona controlada pelos russos, mas esse não é o único obstáculo que a família tem enfrentado. Uma voluntária humanitária norte-americana, de 75 anos, chamada Leslie Wilson, “autointitulou-se mãe de Miguel na Ucrânia” e defende que o corpo fique naquele país, explica a ex-mulher em declarações ao jornal La Voz de Asturias.

Eva esclarece que a mulher também queria “ficar com o Yosy, dizendo que era um cão militar e que iria atacar crianças” caso fosse levado para Espanha. “O Yosy faz um ano, é um cão grande, mas muito carinhoso e um verdadeiro santo”, acrescentou, desvalorizando os argumentos invocados por Leslie Wilson.

Segundo Eva Álvarez, esta mulher insistiu ainda em enterrar o corpo de Miguel na Ucrânia. “Não é possível, porque a decisão cabe à família, mas é miserável aumentar assim a nossa dor, especialmente a de um menino de 10 anos que acabou de perder o pai”, concluiu.

Até ao momento não foi possível às forças de Kiev recuperar os corpos do ataque de 8 de junho, sem pôr em risco mais tropas ucranianas. “Infelizmente, todo o esforço para manter a posição não serviu de nada porque esse território acabou perdido.”, lamentou Danilo.

As autoridades espanholas não descartam, porém, a possibilidade de repatriar os restos mortais de Carmona e de outros combatentes, mas tal depende, em última instância, de negociações com o Kremlin.

Eva acabou por descrever todo o regresso de Yosy na plataforma Substack, incluindo o vídeo que mostra o momento da chegada do animal, no passado domingo, e onde se vê o cão a brincar com as voluntárias ucranianas que o transportaram desde Kiev e com Beltrán, o filho de Miguel.

Texto editado por Carlos Diogo Santos

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