Foi há quase um ano, no dia 4 de dezembro de 2024, que Luigi Mangione alegadamente assassinou o CEO da seguradora UnitedHealthcare, Brian Thompson, em Nova Iorque. O caso chamou a atenção da imprensa norte-americana e internacional e o jornal New York Times reconstituiu agora os últimos meses do jovem de 27 anos até ao alegado crime, cruzando passagens do diário que integra o processo judicial e mensagens de Whatsapp que Mangione terá trocado com amigos.
Nascido no seio de uma família rica e com o registo de um dos melhores alunos no colégio privado Gilman School, em Baltimore, e na Universidade da Pensilvânia, onde se formou em ciências informáticas, Luigi Mangione era descrito por colegas e amigos como inteligente e atencioso, o que tornava ainda mais difícil perceber a sua evolução até ao suposto homicídio de Brian Thompson. Porém, também sofreria de dores crónicas nas costas e de ‘brain fog’ (ou névoa mental), segundo as suas publicações nas redes sociais durante a universidade, que lhe causariam dificuldades de concentração e de conexão.
Nos meses que antecederam a morte do CEO da UnitedHealthcare, Mangione encetou uma viagem pela Ásia. Começou pelo Japão, por onde passou em fevereiro de 2024 por Tóquio. Posteriormente, em março, seguiu para a Tailândia, onde terá vivido algumas experiências mais insólitas na noite de Banguecoque, atendendo às informações agora reveladas.
Japão, Tailândia, outra vez Japão e Índia
Conheceu dois expatriados americanos num bar da capital tailandesa. Um desses homens era Christian Sacchini, que cresceu no Texas e rumou à Tailândia para jogar futebol profissional, contando que conversaram sobre os seus percursos, Pokémon e videojogos. Enquanto consumiam várias rodadas de cerveja, falaram também sobre o futuro, inteligência artificial e os custos dos cuidados de saúde nos Estados Unidos, com Sacchini a explicar-lhe que o custo de uma ressonância magnética na Tailândia era muito mais baixo. “Ele não conseguia acreditar”, referiu.
O outro amigo, que pediu para não ser identificado no artigo do jornal norte-americano, revelou que recebeu depois várias mensagens de Whatsapp de Luigi Mangione, nas quais este descrevia as noites agitadas que andava a ter na cidade. Chegou a perder o telemóvel num táxi e disse ter sido agredido por sete “‘ladyboys'” — uma expressão local utilizada para descrever mulheres transgénero —, enviando até uma fotografia dos arranhões sofridos no braço.
Ambos chegaram a falar sobre seguirem para o Vietname, mas Mangione optou por regressar ao Japão. Foi já aí que enviou uma fotografia de Osaca ao amigo e contou, em jeito de piada, que teria tentado pagar a um suposto chefe da Yakuza (a máfia japonesa) por uma prostituta com cartas de “‘pokémon pornstar'”.
A 6 de maio de 2024, no dia em que cumpriu 26 anos, o jovem abrandou e fez check-in numa pousada na remota aldeia de Tenkawa, às portas do Monte Omine, na região de Nara, no Japão. Esta montanha é considerada sagrada há centenas de anos pela associação ao budismo japonês e ao shugendo, uma tradição espiritual japonesa cujas práticas incluem a meditação e treino espiritual em montanhas e no contacto com a natureza. E foi aqui que Mangione, então o único hóspede não japonês, disse a um amigo que iria aproveitar para explorar nascentes, escrever e entrar em ‘modo zen’.
As reflexões sobre o Unabomber no diário
No final de maio, Luigi Mangione seguiu para Mumbai, na Índia. Aqui encontrou-se com Jash Dholani, um autor que partilha ideias e conceitos de livros clássicos de inspiração filosófica. De acordo com o New York Times, este autor chegou a partilhar na rede social X várias reflexões de Ted Kaczynski, o matemático americano que ficou conhecido como Unabomber e cujos atentados provocaram três mortes e 23 feridos.
Dholani descrevia Kaczynski de “filósofo terrorista”. E esta análise vem refletida posteriormente por Mangione quando este já tinha voltado em julho aos EUA (para se instalar em São Francisco), com algumas notas do jovem no seu diário, no qual criticava os métodos, mas elogiava ideias do Unabomber.
“O problema com a maioria dos atos revolucionários é que a mensagem não é compreendida pelas pessoas comuns. Por exemplo, Ted K [Ted Kaczynski, o Unibomber] apresenta alguns argumentos válidos sobre o futuro da humanidade, mas, para defender a sua posição, ele envia indiscriminadamente bombas pelo correio a pessoas inocentes. As pessoas comuns classificam-no como (…) um assassino em série insano, concentram-se no ato/pensamentos [pouco claros] e rejeitam as suas ideias”, escreveu.
Nessa publicação de 22 de outubro, cerca de um mês e meio antes da morte de Brian Thompson, Luigi Mangione continuou: “Ao cometer atrocidades indescritíveis, ele torna-se um monstro, o que faz com que as suas ideias sejam as de um monstro — não importa o quão verdadeira seja a sua paixão. Ele cruza a linha de anarquista revolucionário para terrorista — a pior coisa que uma pessoa pode ser“.
Luigi Mangione deixa claro a crítica a ataques que afetem funcionários inocentes e identifica um alvo concreto, já antecipando como seriam as notícias sobre o ataque. “O que fazer? Atacar o CEO na convenção anual dos ‘contabilistas parasitas’. É um alvo preciso e não coloca em risco inocentes. Mais importante ainda, o objetivo torna-se evidente. O objetivo é destacado nas manchetes das notícias: ‘CEO de seguradora morto na conferência anual do setor’. Isso traz à tona o evento em si — um grupo de executivos da JP Morgan e da Morgan Stanley reunidos numa conferência chique em Nova Iorque”, lê-se.
Antes, noutra entrada de 15 de agosto, deixou à vista o percurso mental da ideia para atacar o CEO da UnitedHealthcare. “Finalmente sinto-me confiante sobre o que farei. Os detalhes estão finalmente a encaixar-se. E não tenho dúvidas se é certo/justificado. Estou feliz — de certa forma — por ter procrastinado, porque isso me permitiu aprender mais sobre a UHC [United Healthcare]”, referiu, acrescentando: “O alvo são os seguros, que preenchem todos os requisitos”.
Luigi Mangione foi detido pelas autoridades norte-americanas cinco dias depois num McDonalds em Altoona, na Pensilvânia. Até agora, o jovem declarou-se inocente das acusações de homicídio.
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