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As competições, a pressão psicológica e as acusações de batota. Morte de Daniel Naroditsky, aos 29 anos, abala o mundo do xadrez

Este artigo tem mais de 1 ano

Prodígio do xadrez e famoso streamer morreu aos 29 anos. Enfrentava pressão psicológica após acusações de batota do rival russo Vladimir Kramnik, que nega ligações ao caso que abalou mundo do xadrez.

Daniel Naroditsky
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▲Em 2019, o jogador de xadrez concluiu o curso de História na Universidade de Stanford

Reprodução X / @AlirezaFirouzja

▲Em 2019, o jogador de xadrez concluiu o curso de História na Universidade de Stanford

Reprodução X / @AlirezaFirouzja

Nasceu em 1995 na Califórnia, Estados Unidos, e era filho de imigrantes da antiga União Soviética. Daniel Naroditsky começou a jogar xadrez aos seis anos com o irmão mais velho, Alan, em momentos de lazer familiar. Rapidamente se destacou, tornando-se campeão nacional juvenil. O seu talento precoce levou-o à fama e tinha uma presença marcante nas plataformas digitais, onde era conhecido como “Danya“. No entanto, o seu percurso de sucesso foi interrompido inesperadamente: Naroditsky morreu aos 29 anos, em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, e surgiram várias teorias sobre a causa da morte — algumas ligadas à pressão psicológica que sofreu após acusações públicas de batota feitas pelo ex-campeão mundial russo Vladimir Kramnik.

A notícia da morte foi confirmada na segunda-feira pelo Charlotte Chess Center, clube do qual Naroditsky era treinador principal e jogador residente. “É com grande tristeza que partilhamos a inesperada morte de Daniel Naroditsky. Daniel era um talentoso jogador de xadrez, comentador e professor e um membro acarinhado da comunidade do xadrez, admirado e respeitado por fãs e jogadores por todo o mundo. Era também um filho e irmão amado e um amigo leal para muitos”, lê-se no comunicado divulgado nas redes sociais do clube em nome da família.

De acordo com The Guardian, que cita o grande mestre ucraniano Oleksandr Bortnyk, amigo próximo de Naroditsky, este foi encontrado inconsciente em casa por dois amigos. Naroditsky tinha mostrado sinais de desgaste nos últimos meses, nomeadamente nos últimos vídeos publicados, onde falou sobre as pressões sofridas após as acusações públicas de batota por parte do ex-campeão mundial russo Vladimir Kramnik.

De prodígio do xadrez mundial a acusado de batota: a carreira de Naroditsky

Ainda Daniel estava na escola quando se começou a destacar em campeonatos nacionais. Segundo a BBC e a CNN, tornou-se o mais jovem campeão do California K-12 Chess Championship e, em 2007, conquistou o título de Campeão Mundial Juvenil sub-12, em Antália, na Turquia, ganhando reconhecimento internacional logo aos 12 anos. Atingiu o título de grande mestre em 2013, antes de terminar o ensino secundário, tornando-se um dos prodígios mais jovens da história do xadrez norte-americano.

Em 2019, concluiu o curso de História na Universidade de Stanford ao mesmo tempo que continuava a sua carreira no mundo do xadrez. Naroditsky destacou-se não só como jogador, mas também como professor e comunicador: publicou o seu primeiro livro sobre xadrez aos 14 anos, tornou-se colaborador regular da revista Chess Life e, em 2022, passou a escrever para as colunas do The New York Times.

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▲ Naroditsky tornou-se um dos prodígios mais jovens da história do xadrez norte-americano

San Francisco Chronicle via Gett

Paralelamente, Naroditsky construiu uma presença marcante nas redes sociais. Com quase 500 mil subscritores no YouTube e 340 mil seguidores na Twitch, o jogador transmitia partidas de xadrez em direto, explicava as estratégias e aproximava o xadrez de públicos menos experientes. Segundo Levy Rozman, conhecido como GothamChess, “ele existia no cruzamento perfeito entre jogar brilhantemente e explicar brilhantemente”.

Também a grande mestre Nemo Zhou, amiga próxima, afirmou ao Guardian que Naroditsky era “uma inspiração”, alguém que “fazia o xadrez divertido” e que, sem ele, provavelmente teria abandonado o jogo. Garry Kasparov, o russo considerado melhor jogador de xadrez do mundo até 1993, partilhou uma mensagem nas redes sociais: “A avalanche de amor pelo Daniel e o número incontável de testemunhos sobre o impacto da sua amizade, bondade e amor pelo xadrez, dizem mais sobre a magnitude deste perda terrível do que alguma vez eu conseguiria”.

No entanto, a carreira do norte-americano nos últimos meses esteve marcada por várias controvérsias e perseguição online. O ex-campeão mundial Vladimir Kramnik, também conhecido por acusar vários jogadores de recorrerem à tecnologia para escolher as melhores jogadas, acusou Naroditsky de batota, sem apresentar provas.

Naroditsky negou as acusações, mas reconheceu que tiveram um efeito profundo no seu bem-estar: “Desde o caso Kramnik, sinto que, se eu começar a jogar bem, as pessoas presumem que tenho as piores intenções”, disse durante o seu último direto no Twitch.

“Onde estavam todos quando Daniel estava vivo e doente?” As críticas a Kramnik e os pedidos de demissão do CEO do clube de Naroditsky

O impacto das acusações de Vladimir Kramnik gerou críticas generalizadas e circula a hipótese de que a pressão psicológica das acusações de Kramnik e do ambiente competitivo online possa ter agravado os problemas de saúde mental de Naroditsky.

Magnus Carlsen, cinco vezes campeão mundial, qualificou a conduta de Kramnik de “horrível” e o jovem grande mestre indiano Nihal Sarin, que jogou com Naroditsky na sua última partida online, acusou Kramnik de “tirar literalmente uma vida“, denunciando no The Indian Express que a campanha de acusações deixou o amigo “sob muito stress“.

A Federação Internacional de Xadrez (FIDE), através do seu CEO, Emil Sutovsky, anunciou que está a investigar a conduta de Kramnik, considerando que “a forma como Kramnik aborda isto simplesmente não pode ser aceite”.

Contudo, surgiram pedidos de renúncia depois de uma declaração de Sutovsky, que gerou revolta ao questionar se os amigos de Naroditsky tinham feito o suficiente para ajudá-lo enquanto ele ainda estava vivo: “Onde estavam todos quando Daniel estava vivo e doente?”, escreveu.

“Isto é absolutamente nojento. Tens o dever de proteger os teus jogadores de abusos. É claramente inapto para liderar a FIDE. És uma vergonha para o xadrez e para tudo o que ele deveria representar. Demite-te imediatamente”, escreveu na rede social X a jogadora Zhou. Também a streamer sueca Anna Cramling também criticou a situação, apelidando-a de “cyberbullying” e pediu que a FIDE garanta justiça.

Entretanto, Kramnik escreveu no X que “nunca fez qualquer ataque pessoal ou insulto” a Naroditsky, acrescentando que os esforços para o ligar à morte “ultrapassam todos os limites da moralidade humana básica”.

“Apesar das tensões na nossa relação, eu fui a única pessoa no mundo do xadrez que, apercebendo-me num vídeo dos óbvios problemas de saúde de Daniel, lhe pediu publicamente que recebesse ajuda. Infelizmente esse apelo foi ignorado por todos”, sublinhou o jogador russo.

No comunicado publicado, Kramnik acrescentou, ainda, que condena as “acusações flagrantemente falsas e criminais” contra si em relação à morte de Daniel e saúda o anúncio da abertura de uma investigação criminal nos Estados Unidos para apurar a causa da morte de Naroditsky.

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