José Sócrates acusa a juíza Susana Seca, presidente do tribunal coletivo que está a julgar a Operação Marquês, de “maltratar” Pedro Delille e de “prejudicar” a sua defesa em tribunal. Delille informou esta quarta-feira o tribunal de julgamento que renuncia à procuração para continuar a defender o ex-primeiro-ministro.
“A hostilidade do tribunal para com o meu advogado chegou a um ponto insuportável para a sua dignidade profissional. Na passada quinta-feira, a propósito do depoimento da minha mãe, a Senhora Juíza dirigiu-se-lhe afirmando que ‘acabou a brincadeira’”, escreve o antigo primeiro-ministro.
Sem nenhuma razão: o meu advogado tinha delegado a minha representação noutro colega que, infelizmente, chegou atrasado à sessão de julgamento por razões que explicou detalhadamente ao tribunal. E, no entanto, a senhora juíza aproveitou a oportunidade para, mais uma vez, maltratar o meu advogado e prejudicar a minha defesa”, lê-se no comunicado enviado às redações.
Pedro Delille renuncia ao mandato de advogado de José Sócrates
Sócrates invoca ainda as contingências da audição da sua mãe, Maria Adelaide Carvalho, como testemunha no julgamento da Operação Marquês. O advogado Pedro Delille entregou um atestado médico junto do tribunal de julgamento, alegando que a testemunha não estava em condições de testemunhar.
“Quero esclarecer que a minha Mãe tem 94 anos. Legalmente, exatamente por ser minha Mãe, não está obrigada a testemunhar, embora a sua vontade fosse fazê-lo. No entanto, esse não foi foi o conselho do seu médico, que entendeu que a ida ao tribunal poderia agravar as doenças crónicas de que padece”, afirma José Sócrates.
“Assim sendo, não estando eu próprio em Portugal, pedi ao meu advogado que entregasse o atestado médico no tribunal pensando que todos compreenderiam a situação. Estava profundamente equivocado: a senhora juíza achou que estávamos a brincar. Não, não estou a brincar – estou a fazer aquilo que um filho deve fazer: proteger a sua Mãe de noventa anos da humilhação planeada. Facto muito revelador: na mesma sessão o Ministério Público dispensou uma testemunha alegando, entre outras razões, que esta tinha nascido em 1937. A minha Mãe nasceu em 1931”, escreve Sócrates no seu comunicado, em declarações que depois repetiu em declarações às televisões a partir da casa onde vive na Ericeira.
O ex-primeiro-ministro faz ainda acusações contra a comunicação social por alegadamente ter noticiado que “a minha Mãe tinha faltado, que o meu advogado tinha faltado, que eu próprio tinha faltado. Nada disto é verdade”, acrescentando que este episódio está na origem da renúncia de Pedro Delille ao mandato como seu advogado.
“O que é verdade é que o tribunal destratou sem razão o meu advogado levando ao ato extremo de renunciar ao seu mandato por considerar que não tem condições para exercer, de forma conveniente, a minha defesa”, conclui.
José Sócrates faz ainda questão de afirmar, “sem esconder a comoção com que o faço”, que deve “muito ao dr. Pedro Delille -— foi meu advogado, meu companheiro e meu amigo de todos estes anos. Por minha insistência aceitou continuar a representar-me nos processos internacionais que estão em curso”, concluiu.
Defensor oficioso lamentou a recusa do prazo de 48 horas para consultar o processo
Em declarações aos jornalistas no exterior do tribunal quando ocorreu a pausa dos trabalhos para almoço, o defensor oficioso José Ramos, nomeado esta terça-feira para a representação temporária do ex-primeiro-ministro na sequência da renúncia de Pedro Delille, lamentou que a juíza Susana Seca não tenha atendido ao pedido de concessão de 48 horas para a consulta do processo Operação Marquês.
“Entendo que teria sido melhor para nossa defesa ter sido concedido o prazo de 48 horas. Agora, vamos analisar o que foi produzido em tribunal e depois tentarei falar com o senhor Eng. José Sócrates e veremos o que é que podemos fazer a seguir”, disse.
Acompanhado pela assistente que o acompanhou nas primeiras horas neste julgamento, José Ramos considerou que o período de dois dias para estudar os autos era um prazo “bastante parco”, mas que a recusa pela presidente do coletivo não o impediu de aceitar a defesa.
“O que eu pedi penso que seriam condições não ótimas, mas suficientes para fazer um bom trabalho. Não me tendo sido dadas essas condições, achei que, apesar de tudo, teria de aceitar. Senão, seria eu ou seria outro… Até fiz um pedido bastante parco, portanto, aquele mínimo que entendia suficiente para gerir melhor a situação”, concluiu.
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