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Quem é Rama Duwaji, a artista de 28 anos de origem síria e pró-Palestina que vai ser primeira-dama de Nova Iorque?

Este artigo tem mais de 6 meses

A mulher de Zohran Mamdani manteve-se discreta durante a campanha, mas no discurso da vitória surgiu num look preto que fala por si, ao misturar peças de designers palestiniano e nova-iorquinas.

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▲Rama juntou-se ao marido ao final do discurso em que celebra a vitória nas eleições autárquicas

Getty Images

▲Rama juntou-se ao marido ao final do discurso em que celebra a vitória nas eleições autárquicas

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Ao som de Dhoom Machale, banda sonora de um popular filme indiano, Zohran Mamdani já ia na parte dos agradecimentos depois do seu discurso de vitória nas eleições autárquicas de Nova Iorque, quando de repente o público passa a aplaudir e gritar ainda mais alto. A euforia foi pela chegada ao palco de Rama Duwaji, que acena discretamente para os eleitores e depois abraça o marido. Num look preto, a combinação de um top do designer palestiniano Zeid Hijazi com uma saia da nova-iorquina Ulla Johnson, manteve-se em silêncio, colocando-se apenas ao lado do futuro presidente da Câmara, que fez história ao vencer esta corrida eleitoral. Pela primeira vez a cidade terá uma primeira-dama da geração Z. Uma ilustradora de 28 anos com ascendência síria e que sem ter sequer falado publicamente já mostra a sua forte voz política.

A história da artista cruza-se com a do futuro autarca de Nova Iorque precisamente no ano em que Duwaji mudou-se para a cidade, em 2021. Os dois conheceram-se numa app de namoro chamada Hinge, quando Mamdani tinha recém sido eleito deputado para a assembleia estadual de Nova Iorque. O primeiro encontro foi num café yemeni em Brooklyn, o Qahwah House, seguido de uma caminhada pelo McCarren Park. No segundo encontro os dois passearam por Astoria, em Queens, o distrito legislativo do político, que é o primeiro muçulmano, de origem indiana e assumidamente socialista a chegar à presidência da Câmara Municipal.

A campanha para as eleições autárquicas foi lançada em outubro, dias depois do noivado de ambos, que foi celebrado em dezembro de 2024 no Dubai. Fotografias da festa publicadas em abril pela empresa responsável pela decoração do espaço geraram comentários nas redes sociais, principalmente pelo posicionamento de Mamdani como alguém que vem da classe trabalhadora — mas afinal faz comemorações de luxo nos Emirados Árabes.

Com a repercussão, o então candidato decidiu partilhar as imagens do casamento civil, realizado em fevereiro de 2025 na conservatória da zona sul de Manhattan. “Se forem ao Twitter hoje, ou em qualquer outro dia, verão como a política pode ser cruel. Normalmente ignoro, sejam ameaças de morte ou pedidos de deportação. Mas é diferente quando se trata das pessoas que amo”, começou por escrever o socialista. “Há três meses, casei-me com o amor da minha vida, Rama, na conservatória. Agora, trolls de direita estão a tentar transformar esta eleição — que deveria ser sobre vocês — numa eleição sobre ela”, defendeu Mamdani. “Rama não é apenas a minha mulher, ela é uma artista incrível que merece ser reconhecida por seus próprios méritos. Podem criticar as minhas opiniões, mas não a minha família”, concluiu.

A polémica pode ter tido um papel decisivo na opção de Rama Duwaji em manter-se afastada do escrutínio público. Recusou dar entrevistas, evitou partilhar sobre o tema nas redes sociais e apareceu pouco ao lado do marido. No Instagram mostrou o apoio ao companheiro apenas em junho, quando Mamdani venceu as primárias do Partido Democrata. “Não poderia estar mais orgulhosa”, escreveu. Mas nos bastidores, Rama teve um papel definitivo para a campanha, especialmente na identidade visual e na estratégia para as redes sociais.

Artista, ativista e fashionista

A família de Rama vem de Damasco, na Síria, mas ela nasceu em Houston, no Texas. Aos nove anos mudou-se para o Dubai com os pais, onde viveu até à juventude. Começou a faculdade no Qatar, na Virginia Commonwealth University School of the Arts, concluindo a licenciatura no campus de Richmond, nos EUA. Em 2021 mudou-se para Nova Iorque para iniciar a carreira como ilustradora. Ao longo de quatro anos já teve trabalhos publicados em meios como a The New Yorker, a Vogue, a BBC ou a The Cut.

As ilustrações de Duwaji escancaram as suas posições políticas. Mulheres do Médio Oriente, a fome em Gaza, bandeiras da Palestina, são apenas alguns dos protagonistas nos seus desenhos. A visão da ilustradora sobre o conflito entre Israel e o Hamas vai ao encontro daquilo que o marido defendeu nos últimos anos, ao chamar a ofensiva israelita “crime de guerra” e “genocídio”, como recorda o Wall Street Journal.

Em abril, numa das raras entrevistas que deu à revista especializada em arte Yung, Rama falou sobre o regresso de Trump ao poder, as operações do ICE contra imigrantes ilegais e a Palestina. “Não vou mentir, o momento atual é sombrio em Nova Iorque. Preocupo-me pelos meus amigos e família, e as coisas parecem completamente fora do controlo”, disse a artista. “A minha arte permanece o reflexo daquilo que acontece ao meu redor, mas agora sinto-me mais útil no meu papel como cidadã americana. Com tantas pessoas a serem expulsas e silenciadas pelo medo, tudo o que posso fazer é usar a minha voz para falar sobre o que se passa nos EUA, na Palestina e na Síria o máximo que eu puder”, afirmou Duwaji. “Acho que todos têm a responsabilidade de falar contra injustiças, e a arte tem esta habilidade de se espalhar. Não acho que todos precisem de fazer trabalho político, mas a arte é inevitavelmente política na forma como é feita, financiada e partilhada. Até criar arte como refúgio dos horrores que estamos a ver é um ato político para mim”, disse ainda.

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▲ Rama Duwaji acompanhou o marido no momento do voto esta segunda-feira. Foi a primeira vez que o casal posou para os jornalistas

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De acordo com a CNN, a ilustradora foi a responsável pela imagem visual da campanha do marido, incluindo as letras com uma mistura do amarelo típico do metrocard, o cartão do metro nova-iorquino, e o azul dos New York Mets, a equipa de baseball da cidade. Rama também teve um papel ativo na construção da estratégia nas redes sociais, que ajudou a impulsionar o nome de Mamdani entre os eleitores. Já nas aparições públicas, Duwaji foi mais comedida. Há cerca de uma semana acompanhou-o numa participação no The Daily Show e assistiu ao seu discurso no estádio Forest Hills, em Queens, num comício com Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders. Mas foi só esta segunda-feira que a ilustradora posou ao lado do marido para as lentes da imprensa, quando ambos foram votar. Mais tarde, no discurso em que reconhece a vitória, Zohran Mamdani fez um agradecimento especial à mulher chamando-a “hayati”, palavra que em árabe significa “minha vida”. “Não há ninguém que eu gostaria de ter ao meu lado neste momento, em todos os momentos”.

No primeiro compromisso como futura primeira-dama de Nova Iorque, Rama Duwaji ignorou o power dressing dos coordenados de fato e calças. Na verdade, seguiu uma estratégia de fashion diplomacy ao misturar peças de designers independentes palestinianos e nova iorquinos. Por um lado o top com corte estilo Audrey Hepburn em ganga preta com um discreto bordado étnico e acabamento a laser do palestiniano baseado em Londres Zeid Hijazi — cujo trabalho já esteve exposto no Victoria and Albert Museum. A saia em veludo e renda preta é Ulla Johnson, um dos nomes da New York Fashion Week e famosa pelas influências boho. Os brincos são Eddie Borgo, outro designer nova-iorquino que aposta numa mistura de joalharia com streetwear. Escolhas que mostram o envolvimento da artista com a moda — em setembro sentou-se à primeira fila do desfile de estreia da Diotima, marca de Rachel Scott, que venceu o prémio do CFDA em 2024.

▲ Rama Duwaji dá preferência para peças em preto e castanho escuro que combina com botas e brincos de argola

No Instagram, Rama apresenta-se como alguém que entende que aquilo que veste diz muito sobre as suas visões do mundo. Todos os meses a artista partilha trabalhos que a inspiram, sempre a começar por um look próprio, em poses típicas das influencers da geração Z. O seu estilo é, no geral, discreto: pretos, castanhos e cinzas em peças de malha ou ganga, alguma transparência, tops assimétricos, botas (que usou até no casamento), correntes e os inseparáveis brincos de argola. Não se acanha em mostrar a pele, mesmo diante dos críticos a questionar os costumes da religião muçulmana do marido. Um contraste às apostas fashion de Mamdani, que tem escolhido os tradicionais fato, gravata e camisa branca. “Diria que o meu estilo pessoal reflete quem eu sou como pessoa e como nova-iorquino”, disse o recém-eleito autarca à GQ no início do ano. “Como político devo seguir algumas formalidades na forma como me visto durante a semana. Tenho os fatos que comprei numa loja, o que comprei na 31st Avenue, e o que comprei nos saldos numa feira de rua ilegal, e todos eles funcionam”. As suas marcas preferidas são a Uniqlo e uma loja de roupas militares em Astoria. No pulso usa um relógio Casio — presente oferecido pela mulher.

[Há dúvidas até ao fim que acabam na vitória mais curta da História. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir o último episódio aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

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