No dia em que se completam dez anos desde a tomada de posse do Governo da “geringonça”, Pedro Nuno Santos aponta “erros” e “várias insuficiências” que devem pôr a esquerda a “refletir” sobre esse período da governação. O primeiro “erro” foi ter ido “além do que as regras orçamentais europeias exigiam”, comprometendo o investimento público, o segundo foi a gestão da imigração.

Num artigo de opinião publicado no jornal Público, o socialista que coordenou no Parlamento as negociações entre os partidos que faziam parte da “geringonça”, entre 2015 e 2019, começa por elogiar a solução governativa. Acusa a “direita” de se ter “esforçado muito por vilipendiar esta experiência governativa, mas a verdade é que aqueles anos foram os anos em que a confiança dos portugueses nas instituições políticas foi mais alta.” Foi, escreve, “uma experiência extraordinária, de discussão permanente, intensa e difícil entre os parceiros parlamentares e o Governo que trouxe ânimo, esperança e resultados ao país.”

Mas o ex-líder socialista também reconhece que “não correu tudo bem”. “Cometeram-se erros e houve várias insuficiências que devem servir de reflexão para toda a esquerda”, defende agora Pedro Nuno Santos, que se demitiu da liderança do partido em maio, depois de uma pesada derrota nas legislativas.

No mês passado o socialista suspendeu o seu mandato de deputado e tem estado afastado da vida política ativa. Agora, no balanço do período da governação em que foi o principal pivot político (coordenadava as negociações à esquerda do Parlamento), surge a dizer que a esquerda devia “ter feito mais no que ao investimento público diz respeito”: “Invertemos a estratégia austeritária que vinha sendo implementada em Portugal, mas podíamos ter ido mais longe. Não fomos além da troika, mas fomos além do que as regras orçamentais europeias exigiam.”

A área onde regista maior impacto dessa deficiência de investimento é a dos serviços públicos, não só ao nível do funcionamento mas também da remuneração dos funcionários. “Era justo, necessário e havia capacidade para o fazer”, diz agora, criticando a linha seguida pelo então primeiro-ministro António Costa. O mesmo na habitação, embora nessa matéria Pedro Nuno Santos também diga que o esforço “nunca teria sido suficiente”. Nesta matéria, o socialista que foi secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares entre 2015 e 2019 e ministro das Infraestruturas até 2023 (com a tutela da Habitação), defende que o Governo devia ter apertado as regras do mercado.

Quanto à imigração, o ex-líder do PS diz que o Executivo de então “não esteve bem”. Contesta mesmo aqueles que, na sua família política, apontam a entrada de imigrantes naquela fase como “necessária”, para dizer que “o país não estava preparado, nem se preparou, para receber mais de um milhão de pessoas em cerca de meia dúzia de anos.”

Pedro Nuno assinala que “os fluxos migratórios não têm apenas impactos económicos e orçamentais de que um discurso tecnocrático tende a ficar refém“. Em “larga escala”, defende agora, “esses fluxos podem gerar problemas e tensões de cariz social, cultural e político (como se tem visto um pouco por toda a Europa)”. E termina a dizer que “a esquerda tem a obrigação de não desvalorizar” esta situação “sob pena de perder as pessoas e, em particular, aquelas que primeiro pretende representar.”

Antes das últimas legislativas, ainda como líder do PS, Pedro Nuno Santos já tinha criticado a posição da governação Costa nesta matéria concreta, numa entrevista ao Expresso que criou alguma polémica dentro do partido. Nessa altura, o socialista criticava o mecanismo de manifestação de interesse que dizia ter tido um “efeito chamada” de imigrantes para o país. E ainda defendia “exigência” com os imigrantes no “respeito por um conjunto de valores que são partilhados: a nossa cultura, os nossos valores e, obviamente, a lei, mas aí qualquer cidadão está comprometido”. Declarações que foram recebidas com crítica dentro do partido, incluído de José Luís Carneiro que é agora líder do PS.

Pedro Nuno Santos clarificou linha na imigração e dividiu o partido