Henrique Gouveia e Melo escolheu como mandatário Afonso Camões, ex-diretor do JN, amigo de José Sócrates e um homem da estrita confiança do antigo primeiro-ministro, que foi notícia depois de, há uma semana, ter declarado o apoio precisamente ao almirante na reserva. Agora, Gouveia e Melo relativiza a coincidência e garantiu que “há um universo que o separa” de José Sócrates.

Em entrevista à CMTV, o almirante defendeu a escolha de Afonso Camões nada tem de “contraditório” com o discurso de higienização do regime que tem tentando trazer para esta campanha eleitoral. Gouveia e Melo fez questão de sublinhar que o “único critério” que tem para a sua campanha é rejeitar apoio de “pessoas condenadas” ou que “estejam num processo que me indique que a pessoa tem culpa ou um passado que possa fazer considerar”.

“Para mim não há penas perpétuas”, rematou Henrique Gouveia e Melo, desvalorizando a relação de Camões com o principal arguido do processo Marquês. “O engenheiro Sócrates esteve sete anos no poder, há muita gente que se relacionou com ele.”

Gouveia e Melo falou também sobre as escutas em que Afonso Camões falava com José Sócrates sobre a sua nomeação para a liderança do JN. “O que está transcrito provou-se qual era o contexto”, diz o candidato presidencial. “Qualquer pessoa que é apanhada numa escuta, a escuta vem para a comunicação social para denegrir a pessoa. É um sistema que não me parece bom para a democracia portuguesa.”

O candidato presidencial voltou a abordar o apoio de José Sócrates à sua candidatura presidencial, anúncio que considera ter sido feito “contra” si. “Sócrates nem me deu apoio, disse que votaria em mim. Há um universo que nos separa”, diz Gouveia e Melo. “Nenhum apoiante me vai influenciar no sentido de me pedir coisas ou desviar-me do caminho da independência do sistema político.”

Afonso Camões foi apanhado em escutas a negociar com José Sócrates a sua nomeação para diretor do jornal ‘JN’. Na altura, Camões afirmava estar disponível para assumir a direção do ‘DN’, do ‘JN’ ou de ambos, e dizia: “Era bom que eles percebessem que eu sou um joker em qualquer posição para mandar. E que também sei que um general prussiano não se amotina”.

As escutas também revelaram que Camões pediu a Sócrates para interceder junto de Daniel Proença de Carvalho, então presidente da Global Media e advogado do antigo primeiro-ministro. Apesar das suspeitas, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social decidiu não abrir qualquer investigação. Posteriormente, Camões foi presidente da Lusa entre 2009 e 2014, diretor do ‘JN’ durante cinco anos e diretor-geral da Global Media até 2020.  Afonso Camões, então na qualidade de administrador da agência Lusa, chegou a admitiu ter avisado José Sócrates que estava a ser investigado

Além de Afonso Camões, Luís Bernardo, ex-assessor de Sócrates, também colaborou na campanha de Gouveia e Melo. Há sensivelmente uma semana, em entrevista à CNN, José Sócrates disse que Gouveia e Melo é o candidato presidencial “que oferece melhores garantias de que nunca aceitará a extrema-direita no poder”. No mesmo dia, na TVI, e durante o debate com Jorge Pinto, o almirante na reserva irritou-se com a pergunta do moderador, José Alberto Carvalho, sobre o apoio.