A administração Trump manteve, durante meses, contacto direto com Diosdado Cabello, o ministro da Administração Interna da Venezuela, que era considerado o número dois do “chavismo” e um dos mais ortodoxos do regime venezuelano, noticia este sábado a agência Reuters, citando vários responsáveis norte-americanos com conhecimento desses contactos.
Cabello também é um dos acusados no processo judicial norte-americano contra Nicolás Maduro — e, nos dias que se seguiram à operação militar que resultou na detenção de Maduro, muitos se questionaram sobre porque é que os EUA não detiveram também o número dois do Presidente venezuelano, lembra a Reuters.
A resposta a essa questão poderá estar na notícia agora conhecida: praticamente desde o início do Governo de Donald Trump, Diosdado Cabello tem sido um dos principais interlocutores dos dirigentes norte-americanos na Venezuela e, já depois da remoção de Maduro do poder, Cabello — que tem mantido o contacto com os Estados Unidos — tem sido uma figura fundamental para manter a ordem no país.
Peça fundamental no controlo das agências de informações venezuelanas e próximo das milícias armadas pró-governo, Cabello é uma figura instrumental para garantir a ordem na Venezuela após a saída de Maduro do poder. Por exemplo, nos últimos dias, têm sido menos frequentes as buscas e revistas a residentes em postos de controlo na Venezuela — e vários presos políticos têm sido libertados. Cabello estará a supervisionar este processo.
Para os EUA, é vital manter o contacto com Cabello, uma vez que, como diz a Reuters, bastaria uma decisão do ministro em relação à atuação das autoridades venezuelanas no terreno para mergulhar o país no caos e para minar o poder atualmente detido pela antiga vice-presidente do país, Delcy Rodriguez.
A Reuters não adianta, contudo, detalhes sobre o conteúdo dos contactos entre a administração norte-americana e Diosdado Cabello — nomeadamente sobre se foi abordado ou não o futuro político da Venezuela, país que terá as maiores reservas naturais de petróleo do mundo e às quais os EUA querem aceder. Desde a detenção de Maduro, no início de janeiro, que o país se encontra sob a presidência interina de Delcy Rodriguez, mas não é ainda certo qual o rumo da Venezuela no futuro próximo — nem qual o papel que os EUA terão na liderança política venezuelana.
A acusação dos Estados Unidos contra Diosdado Cabello
Diosdado Cabello foi formalmente acusado pela Justiça norte-americana de ser um facilitador e ajudar no transporte da droga, acabando por beneficiar desse esquema, no qual terá participado até 2025. Tal como acontecia com Maduro e a sua mulher Cilia Flores, o Departamento de Justiça da administração norte-americana também procuram Cabello para o levar à Justiça, de forma a ser julgado por crimes relacionados com o narcotráfico.
A acusação, que pode ser lida aqui, afirma que, “entre cerca de 2003 e 2011”, Cabello “trabalhou com um grupo de traficantes de droga colombianos para despachar contentores de carga em navios porta-contentores”. Estes navios, lê-se, transportavam “cinco a seis toneladas de cocaína cada, e às vezes até 20 toneladas cada, de portos na Venezuela para portos no México e, finalmente, para os Estados Unidos”. Todo o processo era protegido por um grupo de “oficiais militares venezuelanos”, referidos como “os generais”.
Cabello terá feito várias viagens para garantir o transporte de drogas, aterrando em pistas controladas pelo ELN perto da fronteira com a Colômbia. Dessas pistas, alegam os norte-americanos, partiram vários carregamentos de droga que chegaram aos EUA.
Os procuradores mencionam ainda várias operações específicas em que Diosdado Cabello foi parte ativa. Uma delas ocorreu, “por volta de 2006”, afirmando que Cabello, então diretor da agência de espionagem militar, terá ajudado ao transporte de “mais de 5,5 toneladas de cocaína da Venezuela”, a partir do aeroporto de Maiquetia, para o México num jato DC-9” e de receber subornos para garantir que os facilitadores não fossem presos na Venezuela, após a carga ser intercetada no México.
Sete anos depois, com Maduro já na Presidência da Venezuela, Cabello terá participado no envio de 1,3 toneladas de cocaína para França a partir do mesmo Aeroporto de Maiquetia. À chegada, no aeroporto Charles de Gaulle, a droga foi intercetada pelas autoridades francesas. Este incidente levou a uma repreensão do Presidente da Venezuela a Cabello por ter usado o mesmo aeroporto do caso das drogas intercetadas no México e que “deveriam usar outras rotas e locais bem estabelecidos para enviar cocaína”.