O resultado de um padrão de “velhaca maledicência”. É assim que José Sócrates descreve a notícia do Observador em que se revela a abertura de uma nova investigação do Ministério Público (MP) pela repetição do esquema de branqueamento de capitais, alegadamente cometido por ele e por Carlos Santos Silva, com indícios da transação de uma casa na Malveira (Mafra), em 2023, por 775 mil euros, entre Pedro Pinto de Sousa, um primo de Sócrates, e Santos Silva.

Este negócio foi revelado na semana passada pelo semanário Nascer do Sol, sendo que o mesmo foi detetado pelo MP em 2025.

“Treze anos depois conheço os truques, as insinuações e as calúnias“, começa por escrever José Sócrates numa nota divulgada à comunicação social que se intitula “Resposta pública à notícia de uma pretensa ‘investigação'” e na qual descreve o “esquema de sempre” que se “desenvolve em três andamentos”: “Informação – noticia – suspeita.”

MP abre nova investigação a José Sócrates e a Carlos Santos Silva por alegada repetição de esquema de branqueamento de capitais

“A informação soprada à jornalista [do Nascer do Sol], que, por sua vez, a transforma em notícia e que, mais tarde, regressada a casa, é convertida em suspeita pelo próprio Ministério Público que inicialmente a havia traficado com a imprensa. Informação – noticia – suspeita. Os pistoleiros do costume já foram convocados e o processo, dizem, está em marcha”, acusa ainda o antigo primeiro-ministro.

Sócrates volta a negar que tenha recebido dinheiro de Carlos Santos Silva. “Não acompanho a sua vida empresarial e profissional, não conheço casa nenhuma na Malveira, e sou absolutamente alheio a qualquer transação imobiliária”, assegura ainda o ex primeiro-ministro, que diz que “se o método não fosse tão repulsivo, as notícias seriam apenas cómicas”.

“Fizeram o mesmo há uns anos com a empresa para quem trabalhei como consultor; fazem-no agora com a compra e venda de uma casa que não me diz respeito. O arbítrio não tem escrúpulo”, acrescenta.

“Não há na minha vida segredo nenhum e muito menos das pensões que recebo, sendo, aliás, uma delas, pública”, refere ainda Sócrates. É uma novidade que o ex-primeiro-ministro acumule uma subvenção vitalícia enquanto ex-titular de cargo político com outra ou outras pensões.

Na nota, Sócrates diz ainda resistir à devassa da sua vida privada. “Não desejo partilhá-la com estranhos. Já me basta o processo, o julgamento e o truque judicial do ‘lapso de escrita’. “Mas não deixa de ser extraordinário que a ameaça de inquérito resulte do facto de, no entender de alguns, me defender com excessiva energia”, aponta também.

“Dizem que o fazem com todos, não fazem”. Sócrates atira a Montenegro e Passos Coelho

Na mesma nota, José Sócrates coloca-se numa posição de vítima em relação à justiça portuguesa, comparando suspeitas levantadas em relação a outros políticos. “O atual primeiro-ministro [Luís Montenegro] recebia comprovadamente dinheiro de antigos clientes enquanto exercia funções e a Procuradoria-Geral decidiu não abrir um inquérito, tendo igualmente decidido esconder de todos os cidadãos as razões pelas quais tomou tal decisão”, afirma.

Faz questão de recordar a expressão “presente de Natal”, nas “próprias palavras do senhor procurador-geral que, dizem, é um excelente comunicador”. 

O antigo líder do PS faz questão de voltar a lembrar a “suspeita comunicada em 2019 pelo Ministério Público Brasileiro” sobre Pedro Passos Coelho — numa referência a suspeitas de corrupção sobre a construção da barragem do Baixo Sabor que foram investigadas no âmbito do caso EDP.

Tais suspeitas nasceram de uma comunicação formal do Ministério Público Federal brasileiro a partir do famoso caso Odebrecht / Lava Jato. “(…) deste modo é possível que os pagamentos descritos na planilha “ Paulistinha” , ( pagos ao assessor de marketing politico contratado pelo PSD) com referência à obra da barragem do Baixo-Sabor, em Portugal, possam-se referir ao financiamento da campanha eleitoral do Partido Social-Democrata para eleição do cargo de primeiro ministro , disputada em 2015 pelo ex primeiro ministro de Portugal Pedro Passos Coelho”, cita José Sócrates.

O ex-primeiro-ministro, contudo, nada diz, além da frase enigmática: “Fazem-no com todos? Não, não fazem.”

Caso Odebrecht. 81,5% de alegadas luvas terão sido pagas durante Governo Sócrates

O projeto para a construção da barragem Baixo Sabor foi oficialmente apresentado em agosto de 2007 por António Mexia e José Sócrates e foi adjudicado no ano seguinte ao consórcio Odebrecht-Bento Pedroso Construções e Lena Construções. As obras, contudo, só tiveram início em 2011.

José Sócrates omite, contudo, um facto documental enviado igualmente Ministério Público (MP) Federal após a primeira comunicação citada por Sócrates. Tal como o Observador noticiou em setembro de 2020, as autoridades brasileiras informaram o MP português que mais de 80% das luvas alegadamente pagas pela Odebrecht a propósito da construção da barragem do Baixo Sabor terão ocorrido durante o Governo de José Sócrates.

De acordo com documentos da contabilidade paralela da construtora brasileira, terão sido realizados pagamentos num valor superior a 3,8 milhões de euros (de um total de 4,7 milhões de euros) para alguém que é classificado como um nome de código de “Príncipe” em 2008 e 2009.

Além destes pagamentos, André Gustavo, que foi responsável pelas campanhas do PSD em 2011 — e que levou à eleição de Pedro Passos Coelho — e da coligação PSD/CDS em 2015, também terá recebido da Odebrecht cerca de 880 mil euros, entre março e maio de 2015. Os fundos terão sido entregues no Brasil.