A administração norte-americana instruiu a embaixada dos EUA em Madrid a investigar a atuação das autoridades espanholas no caso da morte de Noelia Castillo, a jovem paraplégica que recorreu à eutanásia para colocar fim à vida na semana passada. Segundo o New York Post, os EUA querem perceber qual foi a atuação das autoridades relativamente aos repetidos episódios de abusos sexuais e de uma suposta violação em grupo de que a jovem terá sido vítima. Já na manhã desta quarta-feira, o governo espanhol reagiu, exigindo ao Presidente dos EUA, Donald Trump, que “pare de alimentar a agenda ultra-internacional, intrometendo-se em tudo”.
A instrução do Departamento de Estado norte-americana, liderado por Marco Rubio, foi remetida através de um telegrama diplomático, obtido pelo diário nova iorquino, esta terça-feira. Para além disso, na missiva, o Departamento de Estado dá também instruções à embaixada dos EUA em Espanha para que transmita ao governo espanhol as “sérias preocupações” da Administração Trump para com as “inúmeras falhas sistémicas em direitos humanos” que levaram Castillo a procurar a eutanásia.
“Estamos profundamente preocupados com as denúncias de que a senhora Castillo foi agredida sexualmente de forma reiterada enquanto estava sob tutela do Estado e de que nenhum responsável foi levado à Justiça”, indica o documento.
A jovem terá sofrido episódios de abuso e agressão sexual. Na sequência de uma suposta violação coletiva, por vários jovens (chegou a falar-se em imigrantes), a jovem tentou suicidar-se, atirando-se de um quinto andar de um prédio, em outubro de 2022. O impacto da queda provocou uma lesão medular grave e irreversível, fazendo com que ficasse paraplégica. Noelia tentou o suicídio noutras ocasiões, nomeadamente através da ingestão de comprimidos. Chegou também a ser internada num hospital psiquiátrico.
EUA dizem que sinais de dúvida da jovem em avançar com eutanásia foram ignorados
No telegrama enviado para a embaixada norte-americana em Madrid, o Departamento de Estado dos EUA sublinha que a jovem manifestou “dúvidas” sobre a eutanásia horas antes de o procedimento ser levado a cabo (o que aconteceu na última quinta-feira), referindo que esses sinais foram ignorados. “Também estamos cientes de relatos de que a Sra. Castillo expressou hesitação em se submeter à eutanásia nos seus momentos finais, mas que essas indicações foram ignoradas”, refere o comunicado, acrescentando que o caso “levanta sérias preocupações sobre a aplicação da lei de eutanásia na Espanha, particularmente em casos que envolvem condições psiquiátricas e sofrimento não terminal”.
A alegação dos EUA de que a jovem terá levantado dúvidas sobre a eutanásia horas antes de morrer não encontra respaldo nas declarações públicas da jovem. Na última entrevista que deu, à Antena 3, Noelia Castillo disse estar decidida. Questionada sobre se arrependia da decisão tomada, a jovem respondeu: “Não, eu tinha isso muito claro desde o início”. Depois disso, também não surgiram quaisquer notícias ou relatos que apontem para qualquer hesitação, como sugerido pelos EUA. Aliás, houve uma batalha judicial contra a sua decisão, interposta pelo pai, que durou mais de 300 dias.
O Departamento de Estado norte-americano pediu também à máxima representação diplomática dos EUA em Espanha para que trabalhe com as autoridades espanholas para obter informações sobre os jovens que terão violado a jovem, em 2022, sugerindo que se tratavam dos tais imigrantes ilegais, e deixando críticas à política migratória espanhola.
“Estamos a investigar alegações de que a agressão sexual contra a Sra. Castillo foi perpetrada por indivíduos com histórico de migração. A migração em massa e ilegal é uma questão de direitos humanos, e a facilitação da migração em massa e ilegal por parte de Espanha representa uma ameaça perigosa aos direitos e liberdades dos cidadãos espanhóis, bem como à segurança regional e global em geral”, refere a administração Trump no telegrama.
Trump ameaça Espanha com retaliações comerciais por não cumprir metas da NATO
Contudo, não há indícios que apontem para que os jovens que violaram Noelia, em 2022, fossem menores estrangeiros desacompanhados, como escreve a agência EFE. As alegações nesse sentido começaram a surgir nas redes sociais e foram amplificadas pelo presidente do Vox, Santiago Abascal. Noelia Castillo relatou que em 2022 sofreu uma agressão sexual dias antes de tentar suicídio, mas sem especificar a nacionalidade dos agressores. E terá havido um histórico de abusos anteriores nunca investigados.
“Espanha é um país sério”, responde ministra da Saúde
Já esta quarta-feira, o governo espanhol reagiu às instruções dadas pelos EUA, acusando a administração Trump de se “intrometer em tudo”. A ministra da Saúde, Mónica García, exigiu ao Presidente dos EUA, Donald Trump, que “pare de alimentar a agenda ultra-internacional, intrometendo-se em tudo“.
“A Espanha é um país sério, com um sistema de saúde sólido e um quadro de direitos que protege e cuida de todas as pessoas, incluindo aquelas que decidem pedir ajuda para morrer com dignidade em contextos regulamentados por lei, avaliados por comissões clínicas e homologados pelos tribunais”, declarou a governante, citada pelo El País.
Este é mais um caso a abalar a relação entre a Casa Branca e o Palácio da Moncloa. Nos últimos meses, a administração norte-americana e o governo de Espanha têm divergido publicamente em temas como a guerra no Irão ou o investimento em Defesa de acordo com a integração na NATO.