Neizan nasceu no Hospital de Sagunto, uma unidade pública sob gestão do governo regional de Valência, no dia 18 de novembro de 2019. Tanto a gravidez como os primeiros momentos do trabalho de parto decorreram sem complicações. Contudo, pouco depois, o fornecimento de oxigénio ao cérebro do bebé começou a diminuir e a situação não foi detetada atempadamente pela equipa médica, nem foram adotadas as medidas necessárias. Como consequência, o caso resultou na maior indemnização alguma vez concedida por negligência médica em Espanha, no valor de 13,3 milhões de euros.

“O resultado foi um dano neurológico extremamente grave devido à hipoxia [falta de oxigénio], que provocou paralisia cerebral, atraso no desenvolvimento, epilepsia, problemas de visão e dificuldades de alimentação, entre outras lesões. Tem um grau de incapacidade reconhecido de 87%”, revelou Rafael Martín Bueno, o advogado que fez a defesa da família de Neizan, com agora 6 anos, ao El País.

Devido à gravidade da situação, o Tribunal de Primeira Instância n.º 103 de Madrid condenou o Hospital de Sagunto ao pagamento de uma indemnização no valor total de 13,3 milhões de euros à família de Neizan. 6.106.275 euros correspondem ao valor principal e o remanescente aos juros de mora, segundo o jornal espanhol.

Andrea Téllez, mãe de Neizan, deu entrada no hospital na região de Valência pelas 6h30 do dia 16 de novembro de 2019, 41 horas antes do nascimento do bebé. De acordo com a sentença do tribunal, após os procedimentos iniciais, surgiram os primeiros problemas devido à “falta de monitorização dos registos cardiotocográficos e à interpretação incorreta pelo obstetra”, o que fez com que “a hipoxia intraparto não fosse detetada”.

Pelas 11h00 da manhã, as alterações no registo cardiotocográfico já eram evidentes e agravavam-se progressivamente. “Apesar das graves alterações observadas no gráfico de monitorização, sugestivas de hipoxia intraparto, não há registo de qualquer avaliação por parte da parteira, nem de que esta tenha contactado o obstetra responsável para avaliação”, refere o tribunal, citado pelo El País.

Perante a evolução do quadro, foi igualmente salientado que “era necessária a extração imediata do feto por cesariana”, recomendação que, segundo a sentença, terá sido reiterada em várias ocasiões. No entanto, só à 00h05 do dia 18 de novembro nasceu Neizan, apresentando um quadro clínico grave, com frequência cardíaca inferior a 60 batimentos por minuto, ausência de respiração espontânea e tensão arterial muito baixa.

“É impressionante que a equipa médica não tenha conseguido monitorizar adequadamente o parto ou detetar os problemas a tempo. Além disso, também não sabem como reagir ou tomar as decisões corretas para os resolver”, afirma Martín Bueno, o advogado da família, citado pelo mesmo jornal.

“O Neizan precisa do dinheiro para crescer da melhor forma possível”

Em entrevista ao El País, Andrea Téllez, que trabalha em turnos duplos aos fins de semana num posto de abastecimento de combustível e num restaurante, descreveu algumas das necessidades que sente não conseguir, atualmente, satisfazer. “O Neizan precisa do dinheiro para crescer da melhor forma possível”, afirmou.

“Vai à piscina uma vez por semana. Gostava de o levar mais vezes, mas não posso porque custa 50 euros por sessão. Também tem terapia da fala. Parte disso está coberto pelo subsídio de doença, mas fazer tudo o que a criança precisa custaria-me mais de 800 euros por mês. Neste momento, não tenho condições para suportar isso”, lamenta a mãe de Neizan. “Com a indemnização, espero poder oferecer ao Neizan um ambiente adequado com todos os cuidados de que ele necessita para o seu desenvolvimento”

Estes problemas são mais frequentes nas pequenas maternidades, alerta especialista

“As evidências confirmam que são assistidos menos partos, ou que isso leva a piores resultados de saúde tanto para a mãe como para o bebé. Uma maternidade pequena terá sempre menos recursos e menos profissionais experientes para lidar com as complicações de um grande hospital. Em França, por exemplo, os serviços que atendem menos de mil partos por ano tendem a ser desativados”, explica Óscar Martínez, presidente do Grupo Espanhol para a Segurança Obstétrica (GESO), ao El País.

No ano passado, Valência pagou 175 mil euros em indemnizações por outros casos de crianças que morreram devido a cuidados inadequados durante o parto no mesmo hospital, ocorridos em 2013. Segundo o jornal espanhol, o governo regional não comentou a decisão e não esclareceu se estava prevista alguma medida para melhorar os cuidados de saúde em pequenas maternidades.

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