Quatro anos depois do grande incêndio que atingiu a Serra da Estrela, e que destruiu metade do Parque Natural, os autarcas da região denunciam que os apoios prometidos continuam sem chegar ao terreno e alertam que “a tragédia” pode repetir-se este verão, se nada for feito. Em 2024, foi aprovado pelo Governo do PS o Plano de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela, mas os governantes afirmam que as verbas ainda não foram aplicadas e apontam o dedo ao atual Executivo.

O incêndio começou a 6 de Agosto de 2022 e só foi extinto mais de duas semanas depois. Consumiu cerca de 22 mil hectares, o que equivale a metade do Parque Natural. As chamas atingiram os concelhos da Covilhã, Guarda, Manteigas, Celorico da Beira, Gouveia, Seia e Belmonte.

Na altura, o Governo socialista declarou estado de calamidade e elaborou, juntamente com as autarquias da região, o Plano de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela. A então ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, prometeu até que a região ia ficar “melhor do que estava”.

Fogo. Mariana Vieira da Silva diz que Serra da Estrela vai ficar “melhor do que estava”

Com uma dotação inicial de 155 milhões de euros, o programa foi aprovado em Conselho de Ministros, em Fevereiro de 2024, pelo Governo do PS em funções. Para gerir os fundos, nasceu pouco depois a Associação de Municípios do Parque Natural da Serra da Estrela. O plano tinha um prazo de quatro anos para ser aplicado. Ou seja, vai agora meio.

Ouvido pela Rádio Observador, no programa “Onde Pára o Caso?”, o presidente da Câmara da Guarda e líder da Associação de Municípios do Parque Natural da Serra da Estrela queixa-se de que as verbas ainda não chegaram ao terreno.

O município da Guarda já executou cerca de 2,5 milhões de euros do plano até agora. Recebemos zero. Não temos capacidade financeira nem mais liquidez para continuar a avançar com as medidas enquanto não nos pagarem esta verba. E queremos saber onde vamos buscar o resto do dinheiro”, denuncia o independente Sérgio Costa.

Flávio Massano, presidente da Câmara de Manteigas, também alerta para a espera, que dura há quatro anos. O autarca independente avisa que o risco de incêndio mantém-se, visto que as medidas de reforço, proteção e revitalização do Parque Natural não avançaram.

Incêndio na Serra da Estrela em Folgosinho, Gouveia durante a madrugada de hoje. O incêndio deflagrou no sábado no concelho da Covilhã e alastrou para Manteigas, Gouveia, Guarda e Celorico da Beira. No combate ao incêndio da Serra da Estrela estão dezenas de bombeiros. 12 de agosto de 2022. NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA. NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

O incêndio foi um dos maiores das últimas décadas na região. NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA.

Vai ser muito difícil termos um verão descansado. Seja neste ano, ou no próximo. Estamos em contagem decrescente para a próxima tragédia na Serra da Estrela”, avisa, em declarações à Rádio Observador.

Os autarcas de dois dos concelhos mais afetados pelo grande incêndio de 2022 apontam o dedo ao atual Governo por não avançar com o plano. Acresce que no Orçamento do Estado deste ano não está sequer prevista qualquer verba para o Plano de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela. “Temos tido alguma paciência, mas começa a esgotar-se”, sentencia Sérgio Costa.

Os autarcas ouvidos pela Rádio Observador acusam também PS e AD de fazer um “jogo de empurra” de culpas. Recentemente, numa audição no Parlamento, os governantes avisaram que “não abdicam da aplicação do plano no seu todo”.

Incêndio de agosto foi o maior em 47 anos na serra da Estrela

PS acusa Governo de Luís Montenegro de meter Plano de Revitalização “na gaveta”

O deputado do PS Nuno Fazenda afirma que o Plano de Revitalização “está há dois anos na gaveta”. Na altura dos incêndios, Nuno Fazenda era secretário de Estado do Turismo e atualmente, para além de deputado, é coordenador da Comissão Parlamentar de Economia e Coesão.

Em entrevista à Rádio Observador, no programa “Onde Pára o Caso”, lembra que o Plano de Revitalização “foi um processo moroso” e “trabalhado pela região”, com a participação de autarcas e entidades da região afetada.

Alguns projetos chegaram a avançar [quando o Governo do PS estava em funções]. O que acontece de lá para cá é que nunca mais nada avançou. Porquê? Por vontade política. Os instrumentos de financiamento existem”, afirma Nuno Fazenda.

O deputado socialista resume: cabe ao Governo em funções “avançar”. O Orçamento do Estado para 2025 tinha 1,5 milhões de euros previstos para o Plano de Revitalização, mas o Orçamento do Estado deste ano não prevê qualquer verba nesse sentido.

Nuno Fazenda explica que o PS propôs que o plano fosse incluído no Orçamento do Estado, mas que a AD votou contra essa inclusão. Posteriormente, o PS apresentou também um projeto de resolução para que o projeto avançasse na Serra da Estrela, mas PSD e CDS votaram novamente contra.

A Rádio Observador pediu também um comentário ao PSD, mas não houve disponibilidade por parte dos sociais-democratas para participar no “Onde Pára o Caso?”. No entanto, recentemente no Parlamento a deputada Dulcineia Moura (PSD) defendeu que tem havido “consideráveis avanços” no Plano de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela.

Plano de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela continua sem financiamento

[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]