O Governo de Israel decidiu levar o The New York Times (NYT) a tribunal após a publicação de um artigo de opinião assinado pelo colunista Nicholas Kristof. Na rede social X, Benjamin Netanyahu  afirmou que tanto o jornal como o colunista “difamaram os soldados de Israel” e “perpetuaram uma calúnia de sangue sobre violação, tentando criar uma falsa simetria entre os terroristas genocidas do Hamas e os valentes soldados de Israel”.

A peça, publicada a 11 de maio, detalha alegações de violência sexual por parte das forças israelitas a palestinianos. O colunista Nicholas Kristof (vencedor de dois prémios Pulitzer) admitiu que “é um artigo difícil de ler”, explicando o seu processo de recolha de testemunhos: “Dediquei algum tempo a investigar os casos generalizados de violação e outros atos de violência sexual contra prisioneiros e prisioneiras palestinianos por parte das autoridades israelitas”. “As vítimas de agressão foram avisadas para não falarem do que sofreram — por vezes, foi-lhes dito que seriam mortas ou violadas se dessem entrevistas —, mas encontraram a coragem para o fazer”.

O NYT já reagiu oficialmente defendendo o trabalho e o rigor do seu colunista. “Os relatos dos 14 homens e mulheres que entrevistou foram corroborados com outras testemunhas, sempre que possível, e com pessoas em quem as vítimas confiaram — incluindo familiares e advogados. Os detalhes foram exaustivamente verificados, com os relatos cruzados com reportagens noticiosas, investigação independente de grupos de direitos humanos, inquéritos e, num caso, com testemunhos da ONU. Foram consultados especialistas independentes sobre as afirmações contidas no artigo ao longo da reportagem e da verificação dos factos”, afirma um porta-voz do jornal no X.

Kristof começa com “uma proposta simples”: a de que, “independentemente das nossas opiniões sobre o conflito no Médio Oriente, devemos ser capazes de nos unir para condenar violações”. Proposta que é repetida ao longo do artigo e nas suas publicações posteriores nas redes sociais: “As agressões sexuais foram horríveis quando as mulheres israelitas foram alvo delas a 7 de outubro, e são igualmente horríveis quando as autoridades israelitas as usam contra os palestinianos dia após dia”.

No artigo intitulado “O silêncio que acompanha a violação dos palestinianos” são expostos casos de homens, mulheres e menores detidos. Kristof sublinha que “diversos relatos indicam que a violência sexual foi direcionada até mesmo a crianças palestinianas, que geralmente são presas por atirar pedras“. “Localizei e entrevistei três meninos que haviam sido detidos, e todos descreveram terem sofrido abusos sexuais”, revela ainda o colunista. Mais do que casos isolados, as entrevistas “comoventes” revelam, segundo o autor, “um padrão de violência sexual generalizada por parte de Israel”, cometida por soldados, colonos, agentes da Shin Bet “e, sobretudo, por guardas prisionais”.

O jornal partilhou depois o trabalho em vídeo nas redes sociais, com uma explicação do próprio autor.

Embora o colunista (cujo trabalho se foca em casos de violação de direitos humanos) ressalve que “não há provas de que os líderes israelitas ordenem violações”, argumenta que, nos últimos anos, foi construído um sistema onde estes atos se tornaram “um dos “procedimentos operacionais padrão” de Israel e “um elemento importante no tratamento desumano dos palestinianos”. A peça inclui ainda declarações de Ehud Olmert, ex-primeiro-ministro de Israel (2006–2009), que não se mostrou surpreendido com os relatos.

Sobre a veracidade dos testemunhos, Kristof antecipa críticas: “Alguns podem perguntar-se se os palestinianos fabricaram acusações de agressões sexuais para difamar Israel. Para mim, isso parece improvável, porque nenhum dos entrevistados me procurou ou sabia com quem mais eu estava a falar, e eles mostraram-se relutantes em falar”.

Em resposta ao que classifica como uma das mentiras mais “hediondas e distorcidas alguma vez publicadas pela imprensa moderna contra o Estado de Israel”, o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita anunciou que iria avançar com um processo, sob instruções diretas de Netanyahu e do chefe da diplomacia Gideon Sa’ar.

Um dia após o anúncio do processo, um relatório da Comissão Civil (ONG criada para investigar os crimes do 7 de outubro) concluiu que o Hamas utilizou a violência sexual de forma “deliberada, coordenada e integrada” tanto no ataque de 2023 como contra os reféns.

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