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A crise migratória em Ceuta, que se intensificou nas últimas 24 horas com a entrada irregular de cerca de 49 mil migrantes que nadaram desde Marrocos até à costa da cidade espanhola no norte de África, está a aumentar as fraturas geopolíticas no interior da União Europeia e do Espaço Schengen, o espaço de livre circulação que abrange quase três dezenas de países europeus. Em alguns pontos da Europa surgem já críticas ao governo espanhol — e até propostas de suspensão ou exclusão do acordo de Schengen em relação a Madrid.

Logo na quinta-feira, quando começaram a surgir as notícias sobre a entrada maciça de migrantes no enclave espanhol de Ceuta, o governo italiano anunciou que estava a considerar suspender temporariamente o acordo de Schengen com Espanha, para travar a livre circulação entre os dois países.

Através do X, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, disse que as imagens de Ceuta são “chocantes e demonstram, mais uma vez, que a imigração ilegal descontrolada representa uma ameaça concreta à segurança das fronteiras da Europa”. Meloni disse que se reuniu com o ministro da Administração Interna italiano, Matteo Piantedosi, e garantiu que “Itália não ficará de braços cruzados”.

“Estamos a convocar os órgãos competentes e, após essas reuniões, estaremos prontos para intervir, inclusivamente com medidas extraordinárias para defender as nossas fronteiras e garantir a segurança dos nossos cidadãos, como a suspensão do Espaço Schengen com a Espanha”, assinalou. “Não recuaremos nem um milímetro no combate à imigração ilegal: defender as nossas fronteiras, deter os traficantes de pessoas e garantir repatriações eficazes continuarão a ser a política deste governo.”

Já esta sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, convocou o embaixador italiano em Espanha para discutir este assunto.

No mesmo sentido, França anunciou que iria reforçar o controlo fronteiriço com Espanha. A informação foi avançada pelo ministro da Administração Interna de França, Laurent Nuñez, numa mensagem no X. “Tendo em conta a situação no enclave de Ceuta, dei instruções ontem à noite para reforçar imediatamente os controlos na fronteira espanhola”, assinalou, acrescentando que deu também ordens para ativar as forças de intervenção rápida das autoridades fronteiriças para fazer “controlos minuciosos” nas fronteiras.

Ainda em França, a líder do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional, Marine Le Pen, acusou Espanha de incentivar a entrada em massa de migrantes em território espanhol. Marine Le Pen referiu que a França deve procurar travar o que considera ser uma “loucura” restringindo “a livre circulação” dentro do Espaço Schengen aos cidadãos da União Europeia.

A reação mais dura veio da Finlândia, onde a ministra da Administração Interna defendeu mesmo a exclusão de Espanha do Espaço Schengen. “A Espanha falhou completamente em proteger a fronteira externa do espaço Schengen contra infiltrações”, escreveu no X a ministra Mari Rantanen, do Partido dos Finlandeses, da direita radical. “Isto não pode continuar. Todos os países europeus devem apoiar a proposta de Meloni. Países que não cumprem a sua obrigação de proteger a fronteira externa não podem ser membros do Schengen.”

Ainda nos nórdicos, o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, defendeu esta sexta-feira que “é crucial que a Espanha aja com urgência para retomar o controlo da situação e cumprir os seus compromissos no âmbito do Espaço Schengen”.

Se a crise afetar “a segurança ou a situação migratória da Suécia, o governo está preparado para tomar as medidas necessárias para salvaguardar a ordem e o controlo”, assegura Kristersson, sublinhando que “o governo social-democrata de Espanha não deve cometer o mesmo erro dos social-democratas suecos em 2015 — quando um ‘não’ não significava um ‘não'”.

“Desde que recebemos informações sobre o assunto, o ministro da Migração, Johan Forssell, tem mantido contacto com os seus homólogos nórdicos e não descarta a possibilidade de tomar as medidas necessárias para garantir que a situação de 2015 não se repita”, afirmou ainda o governante sueco.

Só nas últimas 24 horas, de acordo com estimativas do governo espanhol, entraram cerca de 49 mil migrantes em Ceuta, vindos a nado de Marrocos, numa das maiores crises migratórias da história recente em Espanha.

O “colapso”, como lhe chamou o jornal El País, da fronteira, uma das fronteiras externas da União Europeia mais pressionadas pela migração, estará relacionado com uma recente sentença do Supremo Tribunal de Espanha, que determinou que os migrantes que chegam a Espanha ilegalmente por via marítima não podem ser devolvidos imediatamente às autoridades de outro Estado. Esta decisão terá criado um “efeito chamada” que atraiu, sobretudo, jovens rapazes marroquinos em busca de trabalho em Espanha.

Esta manhã, continuavam a entrar centenas de migrantes em Espanha, como pôde testemunhar o Observador no local.