Janeiro de 2022. A guerra na Ucrânia ainda não tinha começado quando o antigo fuzileiro norte-americano Robert Gilman viajava de comboio pela Rússia. Alegadamente embriagado — versão contestada pela família —, pontapeou um polícia russo. Foi detido e condenado a quatro anos e meio de prisão, pena que viria a ser sucessivamente agravada por vários tribunais.

Esta terça-feira, a Rússia libertou Robert Gilman, após vários pedidos da Casa Branca e do Departamento de Estado nesse sentido. O fuzileiro estará doente e precisará de receber tratamento médico nos Estados Unidos, segundo indica a Reuters. Na semana passada, Eric Lebson, diretor de estratégia da Global Reach, um grupo de defesa que representa a família do fuzileiro, tinha já revelado à agência de notícias que o homem tinha sido “transferido no final de junho do hospital penitenciário para a ala psiquiátrica de um hospital” na Rússia.

Deverá ser encaminhado para o Texas, onde será observado num hospital militar em San Antonio. A família de Robert Gilman viajou também para aquele estado, incluindo a mãe, que se encontrava na Rússia a tentar visitá-lo no hospital. Um dirigente norte-americano desvalorizou, contudo, a gravidade do seu estado de saúde, afirmando que parecia estar “em boa forma”.

Durante a viagem da Rússia para os Estados Unidos, Robert Gilman deverá ser acompanhado por quatro médicos. Na Truth Social, o Presidente norte-americano, Donald Trump, publicou uma fotografia do antigo fuzileiro, que aparenta estar bastante debilitado. “Tenho orgulho em anunciar que o cidadão americano, antigo fuzileiro, está a caminho de casa!”, escreveu.

O líder dos Estados Unidos desvendou que, após “discussões com o Presidente Vladimir Putin”, a Rússia “concordou em libertá-lo, numa base humanitária”. “Apreciamos esta decisão e o facto de a Rússia não ter pedido ninguém em troca — não houve ninguém que tenha sido libertado”, salientou. Donald Trump acrescentou que Robert Gilman deverá aterrar em Washington, D.C., onde será recebido por representantes da sua administração.

Além disso, Donald Trump informou que já tinha falado ao telefone com o antigo fuzileiro e contou um pedido especial de Robert Gilman, quando aterrasse em solo norte-americano: “Um ótimo cheeseburger”. “Vou fazer com que isso aconteça”, prometeu. “Durante a minha administração, queremos que os norte-americanos detidos voltem a casa e fizemos isso a um nível nunca antes visto”, afirmou Donald Trump. O Presidente dos Estados Unidos destacou que “Robert Gilman se reuniu com a sua mãe incrível, Nancy”, que seguia a bordo do avião com ele e que iria estar junto dos restantes familiares.

Já o Departamento de Estado emitiu um comunicado em que agradeceu à Rússia “por ter colaborado com o enviado especial Steve Witkoff” para libertar o ex-fuzileiro e por “lhe ter permitido receber o tratamento médico necessário” nos Estados Unidos.

“Embora valorizemos este passo positivo, continuamos a procurar o regresso imediato de todos os outros americanos detidos injustamente, incluindo o detido injustamente Stephen Hubbard”, recordou a nota da diplomacia norte-americana, referindo-se ao professor reformado que foi detido em 2024 por alegadamente ser um mercenário ao serviço da Ucrânia.

Da agressão ao polícia ao aumento das penas

Robert Gilman, que quando saiu das Forças Armadas se tornou professor, esteve detido desde 2022. Inicialmente condenado a quatro anos e meio de prisão, foi considerado culpado de agredir um polícia. Esta versão foi contestada pelo pai — que sinalizou que o filho tinha “adoecido quando o incidente ocorreu e acidentalmente pontapeou o agente”, que não se feriu e não apresentou provas no julgamento.

O cidadão norte-americano foi posteriormente condenado por acusações de agressão a um inspetor prisional durante uma inspeção a uma cela, espancamento de um investigador e agressão a um guarda, sendo condenado em outubro de 2024 a oito anos e um mês de prisão.

A sua pena foi alargada para 10 anos no ano passado, após ser considerado culpado de agredir guardas prisionais. A família de Robert Gilman detalhou que foram feitas contra ele pelas autoridades russas uma “série de acusações vagas e crescentes” e que, na prisão, foi “instigado” a cometer ilegalidades e a aceitar acusações “através de ingestão de drogas, provocações e tortura”.

[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a não o deixar escapar. Na capital italiana, Carvalhão Gil é seguido pelos inspetores e vai mostrar que todos os anos passados ao serviço do SIS o tornaram mestre na arte da contravigilância. Quando recebem a confirmação de que o espião russo também acaba de aterrar em Roma, as autoridades têm a certeza de que vai acontecer um novo encontro entre os dois. A grande questão é: onde? Já pode ouvir o terceiro episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

Cátia Andrea Costa