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▲Depois do rapto de um conhecido empresário de criptomoedas, no início do ano, o governo francês teve de lidar com uma série de sequestros de milionários

AFP via Getty Images

▲Depois do rapto de um conhecido empresário de criptomoedas, no início do ano, o governo francês teve de lidar com uma série de sequestros de milionários

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A filha grávida de um CEO arrastada pelo chão, dedos cortados e resgates milionários. Como França desmantelou parte dos "cripto-sequestros"

Rapto em janeiro foi a estreia de uma série que visava magnatas das criptomoedas. Uma grávida foi arrastada pelo chão e dois homens foram mutilados. Polícia desmontou parte da rede.

Em plena luz do dia, nas ruas mais movimentadas de Paris, ou nas casas dos seus alvos em várias cidades francesas. Os cenários variaram, mas os métodos utilizados para tentar (e duas vezes conseguir) sequestrar magnatas das criptomoedas e os seus familiares não mudaram muito nos últimos meses em França e há até quem os compare aos que são utilizados no México, pelos cartéis de droga.

As pessoas mantidas em cativeiro eram vistas como um trunfo para dezenas de membros de uma rede criminosa que queriam aceder à fortuna de muitos milhões de euros que, pelo menos quatro empresários do setor de criptoativos, acumularam ao longo dos anos.

Esta onda inédita de sequestros e tentativas de sequestro ligados ao setor das criptomoedas fez com que o governo e autoridades francesas montassem uma operação de grandes dimensões para identificar e levar à Justiça os homens e mulheres que se esconderam por trás de balaclavas, vestes pretas e que arrastaram vítimas diretamente de sua casa, ou até do meio da rua onde davam o seu passeio matinal.

Muitas vezes guiavam carrinhas disfarçadas de veículos de entregas, que se misturavam no trânsito de Paris sem levantar suspeitas. Era para dentro delas que arrastavam as vítimas, para serem transportadas até aos locais de sequestro. À distância estavam os responsáveis pela logística das comunicações que precisavam de ser encriptadas para deixar a polícia às escuras, mas também os líderes da rede — um deles foi esta quarta-feira preso em Marrocos pela Interpol.

Em locais abandonados e casas alugadas, eram feitas as negociações com as famílias e empresas dos milionários e, perante a demora na transferência de quantias em dinheiro e criptomoedas, os sequestradores não tiveram pudor em avançar para medidas mais drásticas. Dois homens, um fundador de uma empresa de criptomoedas e o pai de outro milionário do setor, foram cortados dedos das mãos.

As mutilações não deixavam grande margem para dúvidas: quem estava a capturar empresários ricos e as suas famílias em França estava disposto a quase tudo para aceder a algumas das fortunas mais apetecíveis do país.

O sequestro dentro de casa, a mutilação e o resgate do fundador da Ledger

Foi na madrugada de uma terça-feira, 21 de janeiro, que David Balland, de 26 anos, e a sua mulher, Ammandine, foram retirados à força da casa onde viviam, em Méreau, uma cidade no centro da França que fica a cerca de 200 km de Paris. Na mesma localidade está igualmente sediada a Ledger, uma empresa de gestão e segurança de criptoativos em carteiras digitais que Balland fundou em 2014 e que se tornou numa das líderes no setor em território francês — com um valor de mercado de cerca de 1,4 mil milhões de euros.

Logo na primeira abordagem, os sequestradores deixaram clara a estratégia que utilizariam nos dias seguintes — manter o casal separado e pedir um “resgate substancial em criptomoedas” para garantir a sua libertação.

David e Ammandine foram levados para dois locais diferentes e mantidos em cativeiro nas 48 horas seguintes. Sucederam-se quase dois dias de pressão aos restantes fundadores da Ledger para que fosse pago um resgate avultado em criptomoedas. Parte do valor chegou mesmo a ter sido transferido, mas os raptores queriam mais.

Furiosos por não receberem a totalidade do resgate exigido, cujo valor não foi até hoje revelado, os raptores acabaram por cortar um dedo a Balland e enviar um vídeo da mutilação aos administradores da Ledger, revelou o Le Monde, citando fonte próxima à investigação.

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▲ A polícia francesa montou uma operação policial em Mereau para conseguir localizar Balland e a mulher

AFP via Getty Images

Por essa altura, já a polícia francesa tinha montado uma operação de grandes dimensões para localizar o casal raptado, depois de administradores da Ledger terem denunciado o caso à polícia. As agências noticiosas francesas que tiveram conhecimento da investigação foram, inclusive, instadas a abster-se de publicar quaisquer pormenores para não colocar em risco a segurança do casal.

A polícia localizou David Balland a menos de 50 quilómetros da sua casa, pouco mais de 24 horas após o rapto, acabando o homem por ter de ser hospitalizado devido à mutilação. Ammandine Balland foi encontrada no dia seguinte, enquanto seguia num carro, provavelmente para ser levada para um novo local — os raptores não desistiam de manter pelo menos um dos trunfos que lhes poderia dar acesso a mais milhões de euros em criptomoedas.

Nas redes sociais, Eric Larchevêque, o co-fundador e ex-CEO da Ledger, que negociou diretamente com os raptores que exigiam o resgate avultado, utilizou a rede social X para expressar o “imenso alívio” perante a libertação do casal amigo.

Na sequência deste caso, dez pessoas, nove homens e uma mulher com idades entre 20 e os 40 anos, foram detidas. A maioria tinha já cadastro, segundo informou o Ministério Público francês, citado pelo The New York Times. Foram acusados dos crimes de sequestro, tortura e extorsão com armas, puníveis com prisão perpétua em França.

Depois deste caso de rapto violento, que deixou em alerta vários empresários do setor das criptomoedas, não tardou até que casos inegavelmente semelhantes se repetissem em França. Em maio, o pai de um milionário com ligações ao setor das criptomoedas foi raptado. Os criminosos voltaram a utilizar a mutilação para pressionar a família: cortaram-lhe um dedo para provar que fariam tudo para receber o resgate.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Mais um dedo cortado: pai de empresário raptado no centro de Paris

No meio do 14º. arrondissement — mais no centro de Paris era impossível — e desta vez sem ser de madrugada ou num espaço fechado, mas sim por volta das 10h30 da manhã, no meio de um bairro e até com testemunhas, Dominique B., na casa dos 50 anos, foi raptado.

Não é um homem qualquer. O filho é um conhecido jogador de póquer online que se tornou investidor em criptomoedas, acabando por enriquecer à custa destes investimentos. Subtraindo alguns detalhes, o rapto de Dominique B., no dia 1 de maio, foi semelhante em quase tudo ao de David Balland.

A Ledger, a empresa de gestão e segurança de criptoativos em carteiras digitais fundada por David Balland tem um valor de mercado de 1,4 mil milhões de euros e tornou-se numa das líderes do setor em França

Três homens encapuçados agarraram-no à força e colocaram-no dentro de uma carrinha caracterizada como se fosse de entregas, com matrícula falsa, para o levar até uma casa arrendada. Segundo o Le Parisiense, os raptores terão exigido entre cinco e sete milhões de euros em transferências bancárias em troca da libertação do homem. Mais uma vez recorreram ao método do anterior rapto: cortaram um dedo à vítima sem hesitar.

Mais uma vez, dois dias depois, um departamento especializado em crime organizado da Polícia Judiciária de Paris, através da monitorização de chamadas telefónicas, conseguiu localizar os raptores e, desta forma, chegar ao local onde o pai do milionário era mantido em cativeiro.

Estava em Palaiseau, uma pequena localidade a cerca de 25 quilómetros do centro da capital francesa, e assim que foi encontrado teve de ser imediatamente transportado para o hospital, devido aos ferimentos na mão.

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AFP via Getty Images

O Le Monde revelou como decorreu a sinalização dos raptores e do homem e este caso acabou por ser a chave para dar início ao desmantelamento de uma complexa rede de sequestro, roubo e extorsão. Através de filmagens de videovigilância perceberam que Dominique tinha sido sequestrado inicialmente para dentro de uma carrinha da marca Citroën, sendo transferido pouco depois para um Renault Trafic disfarçado de carrinha de uma empresa de canalização. Foi neste que foi levado para Palaiseau.

O local era discreto, a casa escolhida para confinar o homem fazia parte de um complexo de habitações geminadas e, segundo descobriu a polícia francesa, estava listada para arrendamento em vários sites de classificados. Estava praticamente escondida à vista de todos.

Enquanto as autoridades chegavam a todas estas conclusões os sequestradores dedicavam-se às negociações, que começaram mal Dominique foi raptado. Foi a Malta, onde reside o filho — alvo por ser empresário de criptomoedas — que chegou o primeiro contacto dos sequestradores. Seguiram-se muitos mais, sempre com o mesmo interlocutor, que ia tentando diferentes abordagens. Umas vezes garantia a salvaguarda da integridade física do pai do milionário, desde que o dinheiro fosse entregue. Outras, perante a demora na transferência, passava às ameaças e insultos.

A França está a mexicanizar-se
Pierre Noizat

Mesmo depois de voar de Malta para Paris, para poder responder às exigências dos raptores e estar junto da família, as garantias que o empresário deu aos raptores não chegaram: cortaram o dedo do pai, mas pouco mais de 48 horas depois foram capturados e Dominique acabou por ser libertado.

Grávida de 34 anos, filho pequeno e marido atacados no centro de Paris

Cerca de duas semanas após o rapto de Dominique B., mais uma vez no centro de Paris, houve nova investida contra familiares de um nome bem conhecido do mundo das criptomoedas em França. A filha de Pierre Noizat, CEO e cofundador da Paymium, uma plataforma francesa de câmbio de criptomoedas, grávida e de 34 anos, bem como o marido e o filho pequeno foram atacados por um grupo de quatro homens durante o dia no 11º. arrondissement da capital francesa.

Desta vez, os esforços dos sequestradores foram em vão, apesar dos ferimentos que sofreram, os três familiares conseguiram escapar ao rapto, graças a muita resistência e à intervenção de quem passava na rua por volta das 8h00 da manhã de um dia regular.

Vários vídeos captados a partir de varandas de prédios da rua onde aconteceu a tentativa de rapto foram, inclusivamente, partilhados nas redes sociais, exibindo o nível de violência com que os raptores arrastaram a grávida, tentando colocá-la dentro de uma falsa carrinha de entregas.

O genro de Noizat foi assistido no hospital e teve mesmo de levar alguns pontos na cabeça depois de ter sido atingindo com objetos contundentes na luta. Conseguiu, no entanto, impedir que tanto a mulher como o filho fossem levados. Um homem com um negócio na rua do ataque usou um extintor de incêndio contra os agressores, e é visto, inclusivamente, no final do vídeo, a atirar o objeto contra a carrinha.

“Estou impressionado com resiliência deles e agradeço a coragem exemplar”, afirmou Pierre Noizat, em declarações à emissora francesa BFMTV. “A França está a “mexicanizar-se”, lamentou, numa referência aos raptos comuns naquele país devido à atuação dos cartéis de droga e das muitas redes de tráfico que se regem pela violência e tentativas de extorsão.

Os quatro homens acabaram por conseguir fugir, mas tudo indica que estarão entre os 25 jovens detidos pela polícia francesa esta segunda-feira, acusados de crimes de roubo, sequestro, extorsão e ofensas à integridade física.

Na comunicação das detenções, as autoridades francesas acabaram por confirmar que houve ainda outra tentativa de sequestro frustrada em Nantes, região do oeste de França. Não foram avançados detalhes sobre os factos ou vítimas deste rapto falhado a centenas de quilómetros de Paris, mas a polícia relacionou-o com os restantes casos.

O método continuava a ser o mesmo e estas tentativas falhadas — que revelavam os meios utilizados — foram mais uma ajuda para a polícia chegar à rede de criminosos.

“Não queremos tratamento privilegiado, mas queremos segurança”

“O meu cliente admitiu ser uma peça na engrenagem de uma máquina criminosa e está arrependido por isso”, alegou um dos advogados dos cerca de 25 jovens, seis deles menores, com idades entre os 16 e os 23 anos, que foram presos em vários locais em França, nos últimos dias.

Eram atraídos pela ideia de conseguirem dinheiro fácil, como atesta o advogado de um deles, citado pelo The Guardian. “Dezoito pessoas foram colocadas em prisão preventiva, três pediram um adiamento da audiência e quatro foram colocadas sob supervisão judicial”, revelou o Ministério Público de Paris, citado pelo mesmo jornal.

A maioria dos suspeitos identificados nasceram em França, com alguns nascidos no Senegal, em Angola e na Rússia. O gangue funcionava de forma estruturada, com membros que se dedicavam à execução dos sequestros e outros envolvidos na logística, com alguns dos membros a operar à distância dos locais em que os crimes decorriam.

Caso disso era o de Badiss Mohammed Bajjou, que foi esta quarta-feira detido em Marrocos. O homem, suspeito de encabeçar esta rede de raptos violentos, tem 24 anos e dupla nacionalidade — francesa e marroquina – e era procurado pela Interpol há vários meses. Estava sinalizado com um alerta vermelho da polícia internacional, fazendo parte da lista de criminosos mais procurados.

A notícia foi avançada pelo Le Parisien e confirmada pelo Le Figaro, que referem fontes próximas da investigação para noticiar que o homem foi encontrado e detido em Tânger pela polícia marroquina. Segundo o Le Figaro, os ministros da Administração Interna de França e Marrocos mantiveram contacto próximo desde as primeiras suspeitas de que o Badiss Mohammed Bajjou estava em Tânger, até à garantia da sua detenção.

A França está a mexicanizar-se
Pierre Noizat

O suspeito terá orquestrado, a partir do Marrocos, o rapto, no final de janeiro, do cofundador da Ledger, David Balland. Por encontrar e deter está um seu alegado cúmplice, com quem terá partilhado a responsabilidade no planeamento e coordenação de vários sequestros — ainda não se sabe exatamente se todos os que foram noticiados em França nos últimos meses.

Entretanto, o ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, elogiou esta operação através do X. “Agradeço sinceramente a Marrocos por esta detenção, que demonstra a excelente cooperação judiciária entre os nossos dois países, nomeadamente na luta contra a criminalidade organizada”, escreveu na rede social.

Desde o rapto de Balland que o tema da proteção a magnatas de criptomoeda se tornou motivo de discussão política em França, com alguns a entender que estes empresários não devem ter um estatuto de proteção diferenciado pelas suas fortunas e com muitos outros a defender a necessidade de implementação urgente de medidas de salvaguarda da integridade física e da privacidade deste tipo de profissionais.

Eric Larchevêque, o co-fundador e ex-CEO da Ledger que teve de negociar com alguns dos sequestradores no caso de Balland, foi um dos empresários que se reuniram com Bruno Retailleau, ministro da Administração Interna francês para debater o tema. “Não se trata de privilégios, mas de um direito fundamental: poder viver e fazer negócios sem temer pelas nossas famílias”, garantiu no X.

Na reunião com o membro do governo francês, pediu que seja suprimida a obrigação de publicar o endereço pessoal dos administradores nas bases de dados públicas. Larchevêque considera que esta obrigatoriedade não passa de “uma aberração numa altura em que a exposição digital pode custar a privacidade a qualquer um”.

Foi ainda discutida uma possível permissão às empresas para que lhes seja permitido autorizar o financiamento para garantia da segurança das famílias dos administradores. Segundo a lei francesa, esta despesa corre o risco de ser classificada como um abuso do património da empresa.

Os empresários alegam ainda que o quadro de reconhecimento da legítima autodefesa deve ser alterado para permitir que os executivos ameaçados assegurem a sua própria proteção, de forma legal e inequívoca.

“Não peço que o Estado nos proteja no nosso lugar. Pelo menos, não para aqueles que têm os meios para implementar soluções. O que eu quero é ter os meios legais para nos protegermos”, defendeu Eric Larchevêque.

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