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A pobreza que afeta dez milhões, o novo pacote do FMI e a violência policial. Javier Milei enfrenta terceira greve geral no cargo

A inflação caiu e vem a caminho um novo pacote do FMI, mas ainda há grandes bolsas de pobreza. Claques de futebol, sindicatos e movimentos sociais juntam-se aos pensionistas em protesto nas ruas.

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Raúl completa 72 anos esta quinta-feira. A véspera do seu aniversário foi passada da mesma forma que assinalou todas as outras quartas-feiras dos últimos meses: em frente ao Congresso Nacional da Argentina, em protesto contra o Presidente Javier Milei. A ele juntam-se semanalmente dezenas de outros reformados, um dos grupos mais afetados pelas medidas de austeridade impostas. “Regressamos sempre. Eles batem-nos e, na quarta-feira seguinte, somos mais”, afirmou ao jornal Pagina 12. “Somos a geração que, em miúdos, sofreu a ditadura. Estamos calejados.”

Esta quarta-feira, o protesto teve uma adesão ainda maior que o habitual: a Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior intersindical da Argentina organizou uma manifestação em solidariedade com os pensionistas, que terminou em frente ao Congresso. O protesto serviu ainda de prelúdio para a greve geral de 24 horas convocada para esta quinta-feira, que encerrou aeroportos, bancos, escolas e quase todos os serviços públicos.

Esta greve geral é a terceira que Javier Milei enfrenta em apenas 487 dias de presidência. Num país com uma forte tradição de greves gerais — esta é a 45.ª paralisação em 42 anos de democracia –, estas manifestações têm-se feito sentir de forma mais intensa sob a liderança do ultraliberal. Um estudo da Universidad Austral, publicado esta quinta-feira, mostra que Milei tem enfrentado uma greve geral a cada 162 dias de governação. A média coloca-o já no terceiro lugar entre todos os Presidente argentinos. No entanto, Milei cumpriu apenas 16 meses do seu mandato — os Presidentes que enfrentaram protestos mais frequentes cumpriram, no mínimo, dois anos.

A CGT justifica a paralisação desta quinta-feira com a “desigualdade social intolerável” que os trabalhadores enfrentam. “O ansiado equilíbrio fiscal — obtido através do desmantelamento do Estado, dos seus órgãos de controlo, das suas empresas e do abandono da obra pública — multiplicou o desequilíbrio social”, denuncia a CGT num comunicado em que acusa o governo de alimentar os lucros do “setor financeiro” de não os “trabalhadores ativos e passivos”.

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▲ Todas as quartas-feiras, pensionistas reúnem-se à porta do Congresso

dpa/picture alliance via Getty I

As reivindicações são as mesmas que se têm feito ouvir desde que Javier Milei tomou posse e começou a aplicar a sua política ultraliberal, com cortes no aparelho do Estado. Contudo, há outros dois detalhes que ajudam a explicar o timing da greve. Por um lado, a CGT acusa o governo de “atos de repressão selvagem e injustificada“, numa referência à violência policial de que as autoridades foram acusadas numa das mais recentes manifestações, no dia 12 de março. Nesse dia, um fotojornalista independente foi atingido na cabeça com uma lata de gás lacrimogéneo, atirada por um polícia. Pablo Grillo partiu a cabeça e foi internado, estando em coma.

Por outro lado, a Argentina chegou esta terça-feira a um acordo preliminar para um novo empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI): um pacote de 20 mil milhões de dólares ao longo de quatro anos. O Programa de Financiamento Ampliado (EFF) deverá ser aprovado e formalizado “nos próximos dias”, mas o acordo também foi alvo de críticas da CGT: “Repudiamos todo o alinhamento automático com políticas e decisões estrangeiras e os condicionamentos que o FMI impõe ao nosso país”, pode ler-se no comunicado.

Os elogios do FMI, os louros de Milei e o seu “protagonismo” internacional

“Progressos impressionantes na estabilização da economia, apoiados numa forte âncora orçamental, que está a permitir uma rápida desinflação e uma recuperação dos indicadores sociais”. É assim que o FMI descreve as políticas implementadas pelo governo de Javier Milei, no comunicado publicado na passada terça-feira. Os elogios e a promessa de um novo pacote da agência foram recebidos por Milei com efusão, expressa — como habitualmente — na sua conta do X.

Por trás da felicidade, haverá também algum alívio, escreve a Associated Press. Para o compreender é preciso regressar ao primeiro ano da administração Milei, em que o Presidente conseguiu cumprir algumas das suas principais promessas eleitorais. A principal — e que é destacada pelo FMI — foi o impacto na inflação. Quando tomou posse, era a mais alta do mundo e rondava os 211%. Um ano depois, as políticas de austeridade tinham reduzido os valores para os 117%.

A queda da inflação, o aumento da pobreza e o apoio popular histórico. O primeiro ano da presidência do “louco” Javier Milei

Isto foi possível devido aos cortes profundos na máquina do Estado: Milei despediu 36 mil funcionários públicos, reduziu os gastos estatais em 30%, eliminou dezenas de diretivas dos anteriores governos e desmantelou o Ministério da Igualdade de Género, destaca o Wall Street Journal. Depois da economia argentina se ter retraído em 2,8% em 2024, o FMI prevê agora um crescimento de 5% para 2025.

A isto soma-se a valorização da moeda argentina, o peso, que foi fixado ao dólar. Mas isto também fez com que os preços aumentassem substancialmente, sem serem acompanhados por um crescimento dos rendimentos. Daí que a AP fale em alívio, pois o empréstimo do FMI pode ser utilizado para alterações no sistema cambial que tornem a Argentina menos dependente do dólar — ou num “sistema cambial mais livre e eficiente”, como definiu Milei no seu primeiro discurso ao Congresso este ano.

Foi nestas declarações que o Presidente argentino definiu a aprovação do pacote como uma das prioridades para 2025, com o objetivo de “atrair mais investimento, que se traduzirá em inflação mais baixa, mais crescimento e níveis de emprego”, elaborou Milei. “Deixámos de falar de hiperinflação para falar de estabilidade a longo prazo“, notou ainda. Neste sentido, FMI e Buenos Aires estão em sintonia: os objetivos traçados pelo Fundo no comunicado desta semana são os mesmos que Milei definiu, com foco na estabilidade.

As políticas económicas de Milei tornaram-se o guião para as forças da direita liberal, pró-mercado livre, por todo o mundo — e especialmente nos Estados Unidos. Afinal, foi o economista tornado político que ofereceu a Elon Musk a motosserra que o homem mais rico do mundo passou por cima do governo norte-americano. Na semana passada, enquanto o mundo procurava respostas para tarifas norte-americanas, Milei viajava para a Florida para receber um prémio na gala dos “Patriotas Americanos”. “Passámos de ser motivo de chacota global… para um protagonista inesperado“, auto-elogiava-se Milei no Congresso há vários meses.

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▲ Foi Milei que ofereceu a Musk a motosserra para cortar os gastos públicos

Twitter - Elon Musk

O preço dos medicamentos e dos alimentos sobe, a taxa de aprovação de Milei cai — mas ainda é alta

Laila Goméz tem 64 anos e vive na maior “vila miséria” de Buenos Aires (as favelas argentinas). Desde que Milei subiu ao poder, deixou de conseguir comprar carne e teve de diminuir o número de refeições que faz, devido ao aumento dos preços dos alimentos, descreveu ao The Guardian. Laila faz parte dos 15% da população argentina que vivem em condições de “miséria” — ou seja, cujos rendimentos não são suficientes para cobrir a alimentação.

Os cortes de Milei no Estado e nos programas sociais, bem como o aumento dos preços devido à valorização do peso e à inflação refletiram-se na subida a pique da pobreza no início de 2024: ao longo do ano, chegou a estar acima dos 50%, atingindo mais de metade da população — dados que o governo de Milei justificou como serem ainda uma herança de governos anteriores, “uma consequência do populismo que sujeitou a Argentina a tantos anos de infortúnio e devastação”, nas palavras do porta-voz do governo.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), os números baixaram entretanto no segundo semestre de 2024, com a taxa de pobreza a descer para 38,1% da população, com particular redução entre os mais velhos.

Mas, ao todo, ainda há 11,3 milhões de pessoas que estão abaixo do limiar da pobreza na Argentina. Noutra vila da capital, Norma Canepa trabalha numa cozinha comunitária, onde a procura por refeições aumentou exponencialmente: antes, cozinhava 27 quilogramas de arroz para um dia de refeições. Agora, são precisos 40 quilos para dar resposta à procura. “As crianças é que vêm buscar a comida e os pais escondem-se, com vergonha”, partilhou com o jornal britânico.

O custo de vida se fez sentir só no preço dos alimentos. A renda de Laila passou de 15 mil para 100 mil pesos argentinos (pouco mais de 83 euros). Mas os reformados dizem ser dos grupos mais afetados. Para além de cortes nas pensões (a pensão mínima é agora de 350 mil pesos, cerca de 292 euros), Milei cortou o acesso gratuito a medicamentos e adiou a entrega das pensões. “Não há precedente para um governo que tenha danificado a situação social tão profundamente num período de tempo tão curto“, avaliou à AFP o analista político Artemio López.

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Face a esta situação, são os pensionistas que têm ocupado a praça em frente ao Congresso todas as quartas-feiras. Julia, de 78 anos, começou a manifestar-se há cerca de um ano e relatou ao Pagina 12 que os protestos têm subido de tom. “Cada vez mais gente está a vir. Espero que continuem a apoiar-nos para termos um aumento [nas pensões]”, relatou. Esta quarta-feira, viu os seus desejos serem atendidos quando a CGT, organizações políticas, movimentos sociais e claques de futebol se juntaram ao protesto. “Já não era sem tempo”, comentou Julia.

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▲ Esta é a terceira greve geral desde que Milei assumiu a presidência

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A adesão à greve geral desta quinta-feira parece também animadora para os que protestam. Por volta das 10h15 em Buenos Aires  (14h15 em Lisboa), o secretário-adjunto da intersindical relatou “uma adesão significativa” à paralisação. Centenas de voos foram cancelados, comboios, metros e portos estiveram encerrados, assim como escolas, bancos, correios, serviços de recolha de resíduos e serviços de atendimento ao público. Alguns serviços privados também aderiram à greve. A única exceção foi o sindicato de transportes públicos de passageiros; mas os autocarros também circularam com limitações, depois de alguns veículos terem sido alvo de vandalismo e alguns motoristas terem aderido à greve.

O descontentamento social que tem crescido nos primeiros meses de 2025 traduziu-se numa ligeira queda da taxa de aprovação de Javier Milei. No final de novembro, o Presidente usufruía de uma aprovação de 54% da população. No início de fevereiro, o número tinha caído para 43%. Contudo, esta taxa continua a ser alta, principalmente quando comparada com os valores dos seus antecessores: Milei continua a ser mais popular que os dois últimos Presidentes argentinos.

“Hoje trabalha-se”. A campanha do executivo contra “a casta sindical”

Com a Argentina parada, o governo reuniu-se em reuniões e publicou uma fotografia do momento. De sorrisos no rosto, Milei e os seus ministro levantam polegares em sinal de “fixe” para a câmara. “Hoje trabalha-se“, escreveu o Presidente da câmara baixa do Congresso na legenda. Dúvidas houvesse sobre a posição do Presidente sobre a greve geral, Milei fez questão de partilhar esta fotografia e muitas outras publicações.

“Boa quinta-feira a todos, exceto para os tipos que organizaram a terceira greve geral num ano, mas que enquanto arruinavam o país estavam caladinhos”, pode ler-se numa publicação. “A Argentina deve ser o único lugar do mundo em que os que não trabalham fazem greve”, lê-se noutra. Na tarde de quarta-feira, já tinha surgido uma nova campanha de publicidade nas estações de metro: “A casta sindical atenta contra milhões de argentinos que querem trabalhar. Se te obrigam a parar, denuncia“. A “casta” é uma expressão habitualmente utilizada por Milei para atacar os opositores políticos.

A ideia de que a maioria dos argentinos é contra a a greve geral e os sindicatos são responsáveis pela pobreza dos trabalhadores foi reforçada pelo porta-voz da presidência, na manhã desta quinta-feira. “Esta é a terceira greve que as pessoas rejeitam, detestam e confirmam o que odeiam sobre o sindicalismo argentino. Nos últimos 40 anos de democracia, tudo o que fizeram foi fazer os trabalhadores ganhar menos e menos”, declarou Manuel Adorni. O chefe de gabinete do Presidente reforçou a postura anti-sindicalista ao criticar a lei do trabalho na Argentina e ao antecipar “pequenas reformas no mercado de trabalho” para o flexibilizar. No entanto, medidas como esta também contribuem para a precarização do trabalho.

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▲ A presença das claques nos protestos levou a confrontos com a polícia

SOPA Images/LightRocket via Gett

A reação do governo à greve geral não se limitou, porém, às palavras. A ministra da Segurança Nacional, Patricia Bullrich, convocou um forte dispositivo policial para acompanhar as manifestações e na quarta-feira que foi montado um perímetro de segurança em redor do Congresso. Não é a primeira vez que estas forças são mobilizadas. Bullrich já tinha tomado esta decisão no passado dia 12 de março para “garantir a ordem pública e a segurança”, depois de várias claques de futebol terem anunciado que iam marcar presença nos protestos. A polícia utilizou gás pimenta, gás lacrimogéneo, canhões de água e balas de borracha contra a multidão, que respondeu atirando pedras contra carros da polícia.´

O dia acabou com 124 detidos — que a ministra classificou como “criminosos” —, dos quais 114 acabaram libertados. Também houve 46 feridos, entre eles o fotojornalista que ficou em coma e uma idosa que foi empurrada por um polícia e caiu ao chão. Vídeos de ambos os momentos foram partilhados nas redes sociais e a violência policial foi condenada pela Human Rights Watch.

Menos de um mês depois destes momentos, os sindicatos mostram-se esperançosos que a terceira greve geral seja o ponto de viragem nas políticas de austeridade de Javier Milei e não acompanham os elogios do FMI e de parte da população. “Depois desta greve, eles têm de desligar a motosserra. Acabou, não há mais por onde cortar“, declarou o secretário geral do sindicato dos funcionários públicos.

*Artigo atualizado às 10h30 do dia 11 para corrigir os atuais níveis de pobreza, que tiveram uma descida no último semestre de 2024

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