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Não é de hoje. Donald Trump é, há décadas, um grande apologista da aplicação de tarifas às importações, tentando dessa forma proteger as indústrias e os postos de trabalho nos EUA. Na primeira Presidência, em que Trump não tinha um controlo tão robusto do Congresso e do próprio partido republicano, os EUA lançaram uma “guerra comercial” – especialmente contra a China – mas os valores envolvidos parecem hoje quase insignificantes, à luz das tarifas anunciadas nas últimas semanas por Donald Trump.
Na primeira presidência, porém, Trump terá sido persuadido por alguns assessores a não ir tão longe quanto quereria – foi o próprio Presidente dos EUA que fez essa revelação, dizendo-se arrependido por ter dado ouvidos a esses assessores. Desta vez, por isso, Trump rodeou-se de uma equipa que partilha mais do entusiasmo do Presidente com as tarifas – que Trump considerou, a dada altura, ser “a palavra mais bonita do dicionário”.
O núcleo de economistas que aconselha Trump sobre este tema (e sobre a política económica no geral) é composto por cinco figuras-chave que formam uma “equipa de rivais”. Uns mais pragmáticos, outros mais ideológicos, uns mais polémicos, outros mais discretos, são muito diferentes os perfis dos homens que aconselham o Presidente dos EUA nas políticas que têm provocado uma enorme volatilidade e incerteza na economia mundial.
O Presidente dos EUA voltou à carga nesta sexta-feira, tendo desta vez como alvo a União Europeia – que ameaçou com tarifas de 50% – e, também, a Apple. O anúncio voltou a gerar fortes quedas nos mercados bolsistas, que tinham dado um “salto” quando Trump anunciou a “pausa” nas tarifas (a 9 de abril) mas voltam, agora, a ser penalizados por novas ameaças de “guerra comercial”.
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Stephen Miran, o nerd da Economia que diz que “muita gente” (até a Fed) “não percebe” o impacto das tarifas
O João coloca uma casa à venda por 250 mil euros num município onde a taxa de IMI está no nível mínimo. A Maria quer comprar essa casa, em parte porque lhe agrada a ideia de pagar um imposto mais reduzido do que nos concelhos vizinhos (onde existem outras casas disponíveis, por preços mais baixos).
Subitamente, enquanto o João e a Maria estão a negociar, a câmara municipal decide aumentar a taxa de IMI para o máximo. A dúvida é: quem é que, na realidade, vai “pagar” aquele IMI mais elevado? Será que a Maria vai aceitar pagar os mesmos 250 mil euros pela casa sabendo que, nos anos seguintes, terá de pagar um IMI na taxa máxima? Ou será que o João terá de aceitar reduzir o preço de venda para conseguir competir com as outras casas nos concelhos ao lado?
▲ Stephen Miran terá conhecido Trump enquanto trabalha no Departamento do Tesouro liderado por Steve Mnuchin, secretário do Tesouro na primeira presidência Trump.
Bloomberg via Getty Images
É com este exemplo (sem a adaptação à realidade portuguesa) que Stephen Miran, doutorado em Economia pela Universidade de Harvard, explicou numa entrevista à Bloomberg que, na realidade, embora as tarifas sejam cobradas às empresas norte-americanas quando estas importam os produtos, acabam por ser os países tarifados que “pagam” essas taxas.
Ou seja, é certo que a Maria não terá alternativa senão pagar do seu bolso um IMI mais elevado, mas irá tentar compensar comprando a casa por um valor mais baixo, pelo que será o João que irá perder alguns milhares de euros na venda. A Maria é a parte “flexível“, porque pode optar por comprar casa no concelho vizinho, mas o João não pode pôr quatro rodas debaixo da casa e mudá-la de concelho – ele é, assim, a parte “inflexível” e, por isso, provavelmente será o João que acabará por assumir todo ou quase todo o impacto da subida do imposto.
Com este exemplo teórico, Stephen Miran rebate o argumento – muito usado pelos democratas e por quem não concorda com a política tarifária desta administração – de que aumentar tarifas nas importações apenas irá sobrecarregar as empresas dos EUA.
“Os consumidores norte-americanos são a parte flexível, têm opções, nós podemos produzir as coisas internamente ou importá-las de vários países – já os países que vendem aos EUA são a parte inflexível, não têm alternativa à venda aos EUA”, o maior mercado de consumo do mundo, sustentou Miran. Por isso, acrescenta, deverá haver consequências “muito limitadas” em termos de passagem de custos para o consumidor norte-americano ou de inflação.
Depois de a Reserva Federal dos EUA admitir riscos inflacionistas associados às tarifas, Miran não quis referir explicitamente Jay Powell e o banco central norte-americano mas asseverou que “muita gente está a errar nesta análise”.
Este economista, que é presidente do Conselho de Conselheiros Económicos da Casa Branca (desde março), é visto como o arquiteto da política tarifária desta administração. Logo em novembro de 2024, quando Trump foi reeleito, Stephen Miran publicou um documento de 41 páginas a que chamou um “manual de instruções” para uma reestruturação completa do sistema comercial global. Tudo o que foi feito até agora sugere que Trump está a seguir à risca o que lá está escrito.
Trump terá conhecido Miran, nascido em 1984, quando este era um jovem assessor de Steve Mnuchin – secretário do Tesouro na primeira presidência do republicano (2016-2020). Formado pela Universidade de Boston, em 2005, doutorou-se em Harvard em 2010 e passou os anos seguintes a trabalhar na área dos fundos de cobertura de risco (hedge funds) e, também, com o think tank conservador Manhattan Institute.
Mas nunca perdeu contacto com o partido republicano e, em particular, com Trump – de cuja campanha foi um pequeno doador. Após a vitória nas eleições de novembro, Miran disse numa entrevista que o resultado claro dava a Trump um “mandato forte para tomar as medidas que disse que ia tomar, que têm como objetivo reestruturar o sistema comercial mundial e torná-lo mais justo para os americanos“.
Na visão de Miran, na raiz do que considera serem os “desequilíbrios económicos” dos EUA está uma “persistente sobrevalorização do dólar, que impede o equilíbrio das relações comerciais”. Ou seja, pelo facto de o dólar ser a moeda de reserva internacional, torna-se impossível que a sua cotação se ajuste – como acontece normalmente com as moedas – aos fluxos comerciais.
Em termos simples, se há muita procura por produtos de um país, aumenta a procura pela divisa desse país, contribuindo para que ela se valorize. Mas, ao valorizar-se a moeda, esses produtos tornam-se mais caros e, por isso, numa fase posterior acaba por reduzir-se a procura pela divisa e por aqueles produtos – é uma espécie de equilíbrio em constante adaptação.
Mas porque o dólar é usado para outros fins que não apenas o comércio (por ser moeda de reserva internacional, usada entre países terceiros mesmo podendo não ter comércio com os EUA) o seu valor acaba por não se ajustar adequadamente aos fluxos comerciais, mantendo-se em níveis elevados.
Esta é a teoria de Stephen Miran, que considera que a política tarifária deve ser usada para contrariar este fenómeno (sem abalar o estatuto do dólar como moeda de reserva, que é algo que Trump quer manter). “À medida que o PIB global cresce“, escreve Miran no seu “manual de instruções”, torna-se “cada vez mais oneroso para os EUA fornecer ativos de reserva [dólares e dívida do Tesouro dos EUA]” e, ao mesmo tempo, ser o “guarda–chuva” de inúmeros países na área da defesa.
A partir deste documento, o trabalho de Stephen Miran foi vertido no chamado “Acordo de Mar-a-Lago” (batizado com o nome do resort onde Trump vive, na Flórida). Este Acordo propõe um modelo para remodelar fundamentalmente o sistema financeiro e comercial global, com o objetivo de favorecer mais os EUA. É uma proposta que se inspira no Acordo de Plaza, que em 1985 lançou as bases para uma desvalorização do dólar, mas com uma abordagem atualizada às realidades geopolíticas e económicas de hoje.
Peter Navarro, o “xerife” anti-China que foi para a prisão por lealdade a Trump
Peter Navarro, que também é por vezes referido como o “guru” de Trump nas tarifas, tem um perfil totalmente diferente de Stephen Miran – apesar de tanto um como o outro terem doutoramentos feitos em Harvard. Se Miran tem um perfil mais académico, um nerd da Economia, a persona de “Pete” Navarro assemelha-se mais à de um xerife do Velho Oeste – polémico, abrasivo e, de longe, o mais duro crítico da China, que acusa de há décadas estar a “matar” e a “violar” os EUA.
A obsessão de Navarro com a China vem de longe. Quando já estava a aproximar-se do final de uma discreta carreira como professor na University of California Irvine, Navarro escreveu o livro “Death by China“ – um título que pode ser traduzido por “Morte causada pela China”. A obra saiu em 2011 e, no ano seguinte, foi transformada num filme-documentário com o mesmo título.
▲ Peter ("Pete") Navarro escreveu um livro e produziu um documentário sobre a "morte" que a China está a causar aos EUA.
Getty Images
Terá sido o genro de Trump, Jared Kushner, que aconselhou o sogro a ler o livro (ou ver o documentário, não se sabe ao certo) em 2016. Pouco depois, Trump já estava a citar o trabalho de Pete Navarro numa entrevista que deu enquanto candidato presidencial, para descrever como, dizia o magnata, a China estava há muito a “estuprar” os EUA.
Os dois ter-se-ão conhecido por essa altura, algum tempo antes de Trump vencer Hillary Clinton e iniciar o seu primeiro mandato como Presidente. Logo aí, Navarro passou a aconselhar Trump e, durante a campanha presidencial, chegou a questionar porque é que a Fox News não tinha uma cobertura mais favorável da campanha de Trump – para Navarro, só havia uma explicação para tamanha “auto-censura”: os interesses económicos de Rupert Murdoch, dono da Fox (News Corporation), na China.
No primeiro mandato de Trump, foi diretor do conselho nacional de comércio na Casa Branca e, numa segunda fase, diretor do então recém-criado gabinete para políticas comerciais e industriais. E nos vários livros que foram escritos nos últimos anos sobre a primeira presidência de Trump, Navarro é descrito como um “excêntrico” com “personalidade forte” e “obstinado”. Mas os mais críticos, aqueles com quem Navarro se incompatibilizou durante aqueles primeiros anos, falam de alguém “grosseiro, ignorante” e, até, com propensão para a “desonestidade”.
Avançando rapidamente a fita do tempo, em abril de 2025, no auge da mais recente “guerra comercial” lançada por Trump, os comentários de Pete Navarro sobre a China fizeram com que fosse criticado por outro bilionário com interesses económicos na China – Elon Musk. Apesar de ambos partilharem os corredores da Casa Branca nos últimos meses, Elon Musk escreveu na sua rede social, a X, que Navarro era “mais burro do que um saco de tijolos”.
Horas antes, Navarro tinha dito, numa entrevista na CNBC, que “quando se fala de tarifas e comércio, todos nós na Casa Branca, e o povo norte-americano, compreendemos que Elon Musk é um fabricante de automóveis. Mas não é um fabricante de automóveis — em muitos casos, é um montador de automóveis“. “Se formos à fábrica dele no Texas… as baterias vêm do Japão e da China, os aparelhos eletrónicos vêm de Taiwan”, afirmou Pete Navarro, que nesta segunda presidência Trump é conselheiro-sénior para a política comercial e industrial de Trump.
“O que ele acabou de dizer é completamente falso. Navarro é verdadeiramente um idiota“, ripostou Elon Musk, um insulto ao qual Pete Navarro não deixou, também de responder: “Já me chamaram coisas piores“.
Pete Navarro tem 75 anos e, no ano passado, esteve preso. Foi condenado a quatro meses de cadeia por dois crimes de desrespeito ao Congresso norte-americano – por se recusar a comparecer no Congresso depois de ser intimado a isso, numa investigação à invasão do Capitólio de 6 de janeiro de 2021. Navarro não só se recusou a comparecer como negou dar ao Congresso documentos que lhe tinham sido exigidos, no âmbito da mesma investigação.
Entre 19 de março e 17 de julho de 2024, Navarro esteve preso numa cadeia de Miami. A sua idade e percurso foram respeitados – a cela de Navarro era num dormitório específico para criminosos mais velhos e apenas teve de trabalhar na biblioteca da prisão. Porém, aqueles quatro meses na cadeia, por recusar colaborar numa investigação que tinha Donald Trump como alvo, permitiram a Navarro provar lealdade ao Presidente. “Ele foi para a prisão por mim“, terá dito Trump já a várias pessoas, segundo a CNN.
Durante o primeiro mandato de Trump Peter Navarro era, segundo o The New York Times, visto na Casa Branca como uma figura secundária, cujas posições eram frequentemente desvalorizadas e, até, ridicularizadas. Após essa prova de lealdade, porém, Navarro volta a Washington muito mais legitimado pela proximidade em relação a Trump.
E terá sido da sua cabeça que saiu, por exemplo, a controversa fórmula de cálculo das “tarifas recíprocas” anunciadas por Trump a 2 de abril. Essa foi uma fórmula que, pretensamente, refletia as tarifas e “outras barreiras” ao comércio impostas pelos outros países mas percebeu-se, depois, que afinal era calculada com um simples rácio entre as importações e exportações de cada país em relação aos EUA – o que levou a que fossem aplicadas “tarifas recíprocas” a ilhas habitadas apenas por pinguins e focas.
Howard Lutnick, o sobrevivente do 11 de Setembro (e a um cancro grave) que é muito próximo de Trump
Tenham as tarifas saído mais da cabeça de Stephen Miran ou de Peter Navarro, uma coisa é certa: foi a Howard Lutnick que os grandes líderes empresariais telefonaram, a altas horas da noite, para lhe pedir que tentasse dissuadir Trump de avançar com taxas alfandegárias tão volumosas.
Lutnick, o secretário do Comércio desta administração Trump, é um influente banqueiro que fez fortuna na corretagem bolsista, subindo à presidência da firma onde trabalhava, a Cantor Fitzgerald, no início dos anos 90.
No 11 de Setembro, em 2001, escapou à morte quase certa nos ataques às Torres Gémeas. Naquela manhã fatídica, não foi ao escritório porque decidiu ir levar um dos seus filhos ao primeiro dia no jardim-escola. Os escritórios da Cantor Fitzgerald ficavam entre os andares 101 e 105 da torre norte – e nesse dia morreram 658 dos 960 funcionários que a firma empregava naquela altura. Entre as vítimas estava o irmão de Howard Lutnick, Gary Lutnick, que tinha apenas 36 anos.
Quando soube da notícia do ataque às torres gémeas, Lutnick pegou no carro e, em alta velocidade, dirigiu-se para o local – chegou à zona no momento em que a torre sul desabou, e o banqueiro sobreviveu abrigando-se num carro ali estacionado.
Tal como muitos outros sobreviventes do ataque, sofreu um luto pesado ao longo de anos. Segundo contou o próprio, em entrevistas que deu, nos três anos após o 11 de Setembro não se passou um único dia em que Howard Lutnick não chorasse, pelo seu irmão, pelos colegas e pela empresa que, naquela altura, só a muito custo conseguiu escapar à falência.
▲ Howard Lutnick conheceu Trump há várias décadas e, após a derrota nas eleições de 2020, não abandonou o magnata (como outros republicanos).
Samuel Corum / POOL/EPA
Lutnick terá conhecido Trump vários anos antes, nas inúmeras festas e eventos frequentados pela elite nova-iorquina à qual ambos pertencem. Mas a relação entre ambos terá sido reforçada após o 11 de Setembro, com Lutnick, por força das circunstâncias, a tornar-se um dos sobreviventes com maior notoriedade pública.
Vinte anos mais tarde, o banqueiro, que perdeu os dois pais quando tinha 18 anos (ambos morreram de cancro), também receberia ele próprio um diagnóstico de linfoma. E, segundo o perfil feito pelo jornal Politico, Trump acompanhou de perto a evolução dos tratamentos a que Howard Lutnick foi sujeito, telefonando-lhe com frequência.
Nos anos anteriores, o banqueiro tinha-se afirmado como um dos mais ativos angariadores de fundos para as campanhas de Trump – só num jantar que deu na sua casa em Manhattan, em 2019, Lutnick obteve cerca de cinco milhões de dólares em donativos. E, mais à frente, sobretudo depois de Trump ter perdido as eleições de 2020 e se ter tornado um pária até para muitos republicanos, o banqueiro continuou ao seu lado, voando várias vezes para o visitar no seu resort de Mar-A-Lago, na Flórida.
Com Trump de volta à Casa Branca, Howard Lutnick terá tentado uma nomeação para o importante cargo de secretário do Tesouro – uma espécie de ministro das Finanças nos EUA. Mas a escolha para esse cargo acabaria por recair em outro veterano de Wall Street, Scott Bessent, e a Lutnick foi entregue a pasta do comércio, no que foi imediatamente um sinal de que o tema da política comercial e tarifária iria, mesmo, ser um cavalo de batalha desta administração.
Mais do que Miran ou Navarro, Lutnick dá entrevistas frequentes às televisões e jornais – e nem sempre as aparições públicas lhe correm bem. Primeiro, disse numa audição no Congresso que, mesmo que as tarifas provocassem uma recessão, isso “valeria a pena” já que iria deixar a economia norte-americana em situação melhor no futuro. Poucos dias depois, estava a dizer que “de forma alguma” seria de esperar que a política tarifária de Trump levasse a um abrandamento da economia.
Pela mesma altura, Lutnick afirmou, com um grande sorriso nos lábios, que “o exército de milhões e milhões de seres humanos a apertar parafusinhos em iPhones”, em breve, seriam trabalhadores norte-americanos – uma descrição que gerou uma série de memes jocosos nas redes sociais. Noutra ocasião, o secretário do Comércio falou sobre um conjunto de isenções de tarifas no setor automóvel que não era suposto revelar naquela fase. Esse percalço alimentou a ideia de que, embora seja um defensor das tarifas, Lutnick tem, na realidade, uma posição mais cautelosa do que Trump, sobretudo no que diz respeito às taxas aplicadas aos vizinhos Canadá e México.
A perceção prevalecente entre os comentadores e analistas é que nem sempre o secretário do Comércio tem contribuído para dar mais clareza à labiríntica política tarifária de Trump, pelo contrário. Ainda assim, embora exista quem especule sobre a continuidade de Lutnick no cargo, várias fontes citadas pela imprensa norte-americana garantem que a relação entre Trump e Lutnick tem, de facto, alicerces sólidos e não é provável que este venha tão cedo a ser substituído (como foi o conselheiro de segurança nacional Mike Waltz).
Kevin Hassett, o economista que se enganou sobre a bolsa (e sobre a pandemia)
As justificações de Trump para o lançamento das tarifas não se limitam a alegadas injustiças comerciais. Outro dos argumentos usados pela administração é pressionar certos países – como o Canadá, o México e, por outro lado, a China – a colaborarem mais com os EUA no combate ao tráfico de droga e à crise do opióides. E Kevin Hassett, o atual diretor do Conselho Económico Nacional da Casa Branca, já por mais do que uma vez referiu publicamente uma experiência pessoal que o marcou a esse respeito: uma viagem a Edmonton, capital do estado canadiano de Alberta.
“Visitei Edmonton no verão passado e, quando saí do meu hotel, a caminhar, vi uma ambulância a chegar para assistir uma pessoa que, infelizmente, tinha tido uma overdose de fentanil. Pouco depois, quando ia a sair de um restaurante, vi duas pessoas à luta com a polícia por causa de drogas – isto passou-se tudo ali, na baixa de Edmonton, em apenas um dia”, recordou Kevin Hassett.
Essa experiência levou o economista a ficar convencido de que “o Canadá tem uma crise com drogas e essa crise está a alastrar-se para os EUA” – “e isto precisa de parar, é isso que querem tanto os canadianos como os norte-americanos”.
▲ Kevin Hassett é uma voz muito respeitada por Donald Trump e é um nome frequentemente referido como possível substituto de Jay Powell na Reserva Federal.
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Para o diretor do Conselho Económico Nacional de Trump, a política tarifária é uma das principais ferramentas que podem ser úteis neste combate – e também podem ajudar os EUA a reduzir a dependência norte-americana face a outros países rivais em determinados setores produtivos importantes. Ou seja, é a segurança nacional que, em última análise, está em jogo, defende o economista que Trump conheceu na campanha para as eleições de 2016.
Nessa altura, antes da primeira presidência do empresário (2016-2020), Kevin Hassett era um dos mais prestigiados economistas ligados ao American Enterprise Institute, um think tank conservador que é um lago onde o partido republicano foi pescando, nas últimas décadas, muitos dos seus quadros. Hassett, em particular, já tinha no currículo a assessoria das campanhas de John McCain, George W. Bush e, também, Mitt Romney.
Ao cabo de poucos meses na presidência Trump, em 2017, Hassett já tinha sido chamado para a liderança do Conselho de Conselheiros Económicos, outro importante organismo da Casa Branca. Na altura, este economista foi escolhido para substituir Jason Furman (que tinha sido nomeado por Barack Obama).
Hassett acabaria por sair do cargo ao fim de dois anos, mas tanto Trump como o economista anularam rapidamente quaisquer suspeitas de incompatibilização. “Quero agradecer ao Kevin por todo o trabalho que fez – ele é um verdadeiro amigo”, escreveu o Presidente na rede social então designada de Twitter. A boa relação entre os dois ficou comprovada poucos meses depois, quando Hassett regressou à Casa Branca, temporariamente, para ajudar Trump a gerir os impactos da pandemia de Covid-19 na economia.
Apesar de não ter qualquer experiência em epidemologia, Hassett concebeu um modelo matemático que previu que as mortes devido ao coronavírus seriam muito menos do que aquelas que viriam, depois, a contabilizar-se. Também se previu, nesse modelo, que as medidas sanitárias poderiam levar a uma quebra de uns estonteantes 40% no produto interno bruto norte-americano, atirando dezenas de milhões de pessoas para o desemprego.
De acordo com o The Washington Post, Hassett foi, nessa fase, um dos principais incentivadores para Donald Trump reabrir a economia. Mas o seu modelo foi uma “falha catastrófica”, disse uma fonte da Casa Branca que falou com o The Washington Post e que, na altura, teve conhecimento do relatório elaborado por Kevin Hassett – em vez de passar o “pico” ao longo de abril, como o economista previu, as mortes atribuídas à infeção pela Covid-19 continuaram a acelerar ao longo desse mês, aumentando ainda mais a pressão sobre a administração Trump.
Essa não foi, aliás, a primeira vez na carreira de Hassett que as suas previsões falharam com estrondo. Em 1999, o economista publicou, com James K. Glassman, um livro intitulado “Dow 36.000” – uma obra que se baseava em cálculos que defendiam que os mercados acionistas poderiam quadruplicar de valor em poucos anos. As ações estavam “baratas” e, defendiam os autores, nessa altura ainda “não era tarde” para investir e tirar partido dessa hipotética valorização.
Poucos meses após o livro ser publicado, deu-se o histórico rebentar da “bolha das dotcom“, que fez desaparecer da bolsa quase 38% do valor que registou no pico. E, olhando para trás, algum analistas criticaram o facto de o livro de que Kevin Hassett foi coautor ter ignorado por completo todos os indicadores que já sinalizavam que os mercados acionistas tinham subido a níveis completamente desajustados em relação à capacidade da generalidade das empresas de gerarem resultados.
Apesar destes falhanços, Hassett nunca perdeu a confiança de Trump – e o seu nome (a par de outros) é frequentemente referido como possível substituto de Jay Powell na liderança da Reserva Federal, o banco central norte-americano. Para já, contudo, Hassett continua na Casa Branca, no Conselho Económico Nacional, a aconselhar o Presidente sobre política tarifária. E também aqui arrisca uma previsão que está longe de ser consensual: as tarifas, acredita o economista, podem introduzir alguma volatilidade nos mercados financeiros mas, a longo prazo, os frutos dessa política vão ser evidentes.
Scott Bessent, o banqueiro ligado a George Soros que terá convencido Trump a recuar nas tarifas
A disputa pelo cargo foi aguerrida, mas a Secretaria do Tesouro dos EUA nesta segunda administração Trump ficou para Scott Bessent, um veterano dos mercados financeiros que fez carreira ao serviço da gestora de ativos de George Soros e participou na histórica operação em que o investidor húngaro conseguiu “quebrar” a libra esterlina, em 1992. Bessent viria, aliás, a tornar-se líder da unidade britânica da empresa de George Soros.
Na viragem do século, Bessent cortaria o cordão umbilical para criar o seu próprio fundo de cobertura de risco (hedge fund), com o seu nome (Bessent Capital), mas essa aventura acabaria por não correr de feição e o fundo foi fechado ao fim de cinco anos. Daí, o banqueiro viria a regressar à Soros Fund Management em 2011, voltando também aos sucessos: por exemplo, com uma aposta negativa contra o iene japonês, em 2013, deu à empresa um lucro de 1,2 mil milhões de dólares em apenas três meses.
▲ Scott Bessent é um defensor das tarifas mas terá sido ele um dos principais membros da Casa Branca que convenceram Trump a fazer "pausa".
WILL OLIVER/EPA
Mas nem sempre os investimentos de Bessent tiveram bons resultados. Em 2015, o banqueiro voltaria a sair da Soros Fund Management para criar outro hedge fund – o Key Square – que recebeu dois mil milhões de dólares num investimento inicial de Soros. Mas o desempenho do fundo foi fraco, mesmo em anos de valorização nos mercados acionistas, o que acabou por resultar numa debandada de investidores.
Ao mesmo tempo que fazia carreira na banca de investimentos, Scott Bessent alternava entre o apoio ao partido republicano e ao partido democrata. Em 2000, organizou um evento de angariação de fundos em favor do democrata Al Gore. Mas nesse mesmo ano também fez, segundo o The Wall Street Journal, um donativo à campanha do republicano John McCain.
Nas décadas seguintes, Bessent aproximou-se do partido democrata, com donativos às campanhas de Barack Obama e de Hillary Clinton – foi uma fase em que o banqueiro, que é casado com um antigo procurador nova-iorquino (John Freeman), assumiu posições públicas em defesa dos direitos dos homossexuais e outras causas mais associadas ao partido democrata. Além disso, o seu “patrão”, George Soros, é há muito, também, um importante financiador do mesmo partido.
Após a vitória de Trump nas eleições de novembro de 2016, Scott Bessent desligou-se do partido democrata e doou um milhão de dólares à comissão que preparou a tomada de posse de Donald Trump. E outro donativo de um milhão de dólares foi feito a Trump durante a campanha presidencial de 2024. E não foi apenas o dinheiro que Bessent doou, também organizou várias iniciativas de angariação de fundos que renderam ao republicano dezenas de milhões de dólares.
Logo aí, o agora Presidente deu a entender que contava com Scott Bessent para um cargo importante na Casa Branca. “É um dos homens mais brilhantes em Wall Street, respeitado por toda a gente… e um tipo bem parecido, também“, afirmou Trump, semanas antes de vencer as últimas eleições.
Ainda antes de ser nomeado secretário do Tesouro, Scott Bessent apresentou a Donald Trump um plano de três pontos para reestruturar a economia norte-americana e colocá-la nas melhores condições para o futuro – um plano que incluía uma política tarifária agressiva. A importância das taxas alfandegárias na visão económica de Scott Bessent está vertida, também, no “acordo de Mar-a-Lago”, do qual foi um dos autores (com Stephen Miran e outros).
No entanto, apesar da sua defesa clara das taxas alfandegárias, terá sido Scott Bessent que sensibilizou Donald Trump que deveria recuar perante a instabilidade gerada pelo anúncio das “tarifas recíprocas”, a partir de 2 de abril. Não foi totalmente um recuo, apenas uma pausa de 90 dias para serem negociados acordos – mas o episódio foi descrito por Scott Bessent como um “plano” executado na perfeição por Donald Trump para lançar essas negociações.
O secretário do Tesouro de Trump garantiu que a pausa de 90 dias não foi uma decisão súbita – o plano sempre foi este, afirma. “Pudemos testemunhar uma estratégia de negociação bem sucedida que o Presidente Trump implementou há uma semana e que levou mais de 75 países a negociar”, disse Scott Bessent, nunca se esquecendo de elogiar os talentos de Donald Trump no final de cada frase entoada nessa conferência de imprensa.
Em contraste, poucas horas depois, Donald Trump pareceu justificar a pausa de 90 dias não como uma estratégia bem delineada mas porque viu que “muitas pessoas estavam a ficar nervosas” e, por isso, o Presidente decidiu recuar.
Apesar de ser um defensor das tarifas, Scott Bessent é visto externamente como um elemento mais moderado na Casa Branca – alguém com maior capacidade para ouvir argumentos contrários e levar o Presidente a afinar a estratégia, como terá acontecido na crise recente.
Ainda é cedo para perceber se os elogios frequentes de Bessent a Trump vão ser suficientes para que o banqueiro permaneça no cargo muito tempo, mas esta semana os dois voltaram a parecer desalinhados: depois de Trump garantir que vai conseguir fazer com que as empresas (como a retalhista Walmart) “comam as tarifas”, Scott Bessent deu uma entrevista onde admite que, afinal, é possível que sejam passadas aos consumidores, o que resultará em preços mais elevados.