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Vasco Pedro, Unbabel
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▲Vasco Pedro fundou a Unbabel juntamente com João Graça, Sofia Pessanha, Bruno Silva e Hugo Silva

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▲Vasco Pedro fundou a Unbabel juntamente com João Graça, Sofia Pessanha, Bruno Silva e Hugo Silva

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A Unbabel tem "os dias contados"? O que se passa com a empresa que há muito ambiciona ser unicórnio

Anos após adquirir outras empresas, é a Unbabel que procura comprador. Ex-trabalhadores falam em "perda de clientes", reestruturações constantes e dizem que ex-colegas estão "preocupados" com futuro.

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Era mais que uma ambição. Há anos que a Unbabel é um unicórnio prometido. E Vasco Pedro, cofundador e CEO, nunca escondeu o objetivo de alcançar esse estatuto, atingido quando uma empresa consegue uma avaliação superior a mil milhões de dólares. Nos últimos anos, o foco esteve numa estratégia de aquisições, primeiro com a britânica Lingo24 (em 2021) e depois com a alemã EVS Translations e a israelita Bablic (em 2023). Agora, o tabuleiro virou e é a tecnológica portuguesa que está à procura de comprador.

A empresa, que atua na área da tradução automática, revelou há pouco mais de duas semanas que “tem estado com um processo de aquisição em curso”, que se segue a uma reestruturação levada a cabo no início do ano, e que está “em negociações avançadas com várias partes” para ser comprada. Pelo meio, falhou um financiamento, com o recuo da Iberis Capital, mas assegurou que essa decisão, que terá sido tomada “à última hora”, não alterou o “foco”. “Continuamos a avançar e partilharemos mais informações na devida altura.”

Tecnológica portuguesa Unbabel está em “negociações avançadas com várias partes” para ser adquirida depois de ter falhado um financiamento

Até ao momento, a Unbabel não partilhou mais detalhes sobre o processo de aquisição. É um silêncio que se estende aos investidores, que se fecham em copas sobre as negociações e o momento atual da empresa. Alguns, como a Iberis Capital ou a Explorer Investments, preferem não fazer comentários. Outros, como a Indico Capital Partners, a Buenavista Equity Partners e a Caixa Capital, ou remetem declarações para a Unbabel ou justificam o silêncio com as negociações que decorrem.

A Faber Ventures e a Shilling, dois dos primeiros investidores da tecnológica, adotam a mesma postura. Se a primeira capital de risco nem sequer responde às tentativas de contacto, a segunda diz apenas que não consegue “colaborar”. O Observador insistiu, diversas vezes, com pedidos de esclarecimento desta posição, mas não obteve resposta.

Antigos trabalhadores da Unbabel não seguem o silêncio dos investidores e falam, sob condição de anonimato, com o Observador. Não se mostram surpreendidos com o processo de aquisição e garantem que os colegas que permanecem na empresa estão “preocupados”: “Acham que a Unbabel tem os dias contados”. “A dada altura, uma empresa que tenta comprar outras e não se consegue consolidar, não consegue chegar a uma posição de mercado sustentável, é natural que tente vender-se a si própria também”, consideram.

Os fundadores da Unbabel

▲ Os cinco fundadores da Unbabel

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“As fusões e aquisições nunca são fáceis”. Como correram as compras da Unbabel?

As idas às ‘compras’ da Unbabel começaram com a Lingo24 e continuaram com a EVS Translation e a Bablic. Mas a empresa não tencionava ficar por aqui, com Vasco Pedro a assumir que os objetivos passavam por “continuar a financiar o crescimento através de aquisições”. Uma nova compra estava planeada para a primeira metade de 2024. “Já estamos em conversas adiantadas”, disse o empresário ao Jornal de Negócios no início do ano passado, sem revelar mais pormenores. O negócio não se concretizou até à data e antigos trabalhadores da Unbabel dizem que a “estratégia de crescimento não orgânico” que estava a ser implementada não correu como esperado.

“Foi-nos dito internamente que iríamos optar por um crescimento não orgânico, através da compra de outras empresas, pois assim podíamos ter lucro através dessas empresas”, afirma um dos ex-trabalhadores, explicando, por exemplo, que a integração da Lingo24 “não correu, de todo, como era expectável” porque “demorou bastante tempo para acontecer”. “No final do ano passado, ainda tínhamos clientes que estavam a trabalhar com os recursos da empresa antiga quando já deviam estar completamente sob o sistema da Unbabel”, acrescenta.

Outros ex-funcionários defendem que a Unbabel não tinha “um plano” para conseguir “rapidamente tirar partido da infraestrutura ou dos clientes” das empresas que comprou e alegam que as aquisições foram feitas de forma “amadora”, com “muito otimismo mal fundado”, o que gerou “uma série de problemas”. Falam numa liderança “mal preparada” e de “má gestão” em compras que “não deram o rendimento que era suposto ou que [as chefias] tinham em mente”. “Houve uma estratégia de mercado na qual persistiram, apesar de não estar a funcionar. Houve muito wishful thinking e má gestão”, afirmam.

"À medida que passámos para uma fase de crescimento mais focada, reavaliámos naturalmente o ritmo e o âmbito de novas aquisições."
Porta-voz da Unbabel

Em 2023, em entrevista ao jornal Eco, Vasco Pedro dizia que a “estratégia de crescimento inorgânico” estava a ter “imensos resultados”, a “ser um sucesso bastante grande”. “Portanto, é fácil de continuar essa estratégia e, felizmente, não temos uma falta de alvos onde executar”, indicava. Questionada pelo Observador sobre o porquê de não terem sido feitas mais aquisições, a Unbabel, através de um porta-voz, começa por contextualizar que as três compras que fez “foram realizadas com objetivos estratégicos claros: alargar as capacidades, aceder a novos mercados e acelerar o desenvolvimento de plataformas”. Reconhece que a integração dos negócios “trouxe complexidade”, “tal como acontece frequentemente com fusões e aquisições”, mas também “valor”.

À medida que passámos para uma fase de crescimento mais focada, reavaliámos naturalmente o ritmo e o âmbito de novas aquisições”, sendo que foi dada prioridade “ao crescimento sustentável em detrimento da velocidade de expansão”.

Quanto aos alegados problemas, bem como à possibilidade de as aquisições não terem correspondido às expectativas, a Unbabel começa por dizer que “as fusões e aquisições nunca são fáceis” — “e não estávamos à espera que fossem”. “Fizemos apostas ousadas e mantemo-las. As capacidades adquiridas continuam a desempenhar um papel fundamental na nossa diferenciação competitiva, na evolução da plataforma e ajudaram a fortalecer a base que nos orgulhamos de estar a construir agora”, afirma, notando que cada compra “veio com uma curva de aprendizagem” e “trouxe valor”.

Unbabel

▲ A Unbabel emprega atualmente 151 pessoas

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Antigos trabalhadores falam em “perda consistente de clientes”

“Se olharmos para as empresas todas que adquirimos e a Unbabel, temos mais ou menos 2.800 logos (número de clientes)”. O número, que “surpreendeu” Vasco Pedro, foi avançado pelo próprio no final de 2023 numa entrevista ao Eco. “Esses clientes gastam com a Unbabel menos de 100 milhões de euros. Não vou dizer exatamente o número, mas são menos de 100 milhões por ano de receitas nossas”, adiantou, na altura. Agora, o cenário será, supostamente, diferente. Os ex-trabalhadores ouvidos pelo Observador alegam que a empresa tem vindo a perder clientes e dizem que aqueles que permanecem tentam renegociar os contratos para gastar menos dinheiro.

“A perda consistente de clientes, tanto em volume como em receita, superando a aquisição de novos, representa um declínio que se tornou particularmente evidente nos últimos anos”, diz um antigo funcionário. “Nós sabíamos que a empresa estava mal porque víamos as coisas a acontecer. Víamos, por exemplo, que não tínhamos contratos novos e que as empresas que eram clientes da Unbabel estavam a renegociar os contratos para gastarem menos”, afirma outro, alegando que a tecnológica perdeu “big spenders“, empresas que tinham “contratos bastante avultados”. Outros “reduziram vastamente os custos e optaram por serviços mais básicos”. Por receios de possíveis repercussões legais, bem como questões de confidencialidade, as fontes não revelam os nomes dos clientes que a Unbabel terá perdido.

Ao Observador, ao ser questionada sobre o cenário de perda de clientes que foi apresentado por antigos trabalhadores, a Unbabel responde que se orgulha de ter “algumas das empresas mais respeitadas do mundo” na lista de clientes, o que descreve como “uma prova do valor” que oferece e “da excelente execução da equipa”. “Desde a nossa fundação, temos visto as relações com os clientes evoluírem — algumas terminam, outras expandem-se — com base na mudança de prioridades e no ciclo do mercado. Verificamos tanto uma rotatividade natural como novos sucessos, o que é expectável num mercado altamente competitivo. Os nossos indicadores de retenção mantêm-se dentro dos limites esperados“, salienta a empresa, que garante que continua a conseguir “reter os principais clientes”.

Vasco Pedro, Unbabel

▲ Vasco Pedro é presença habitual na Web Summit de Lisboa

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Quando há pouco mais de duas semanas avançou a informação de que a Unbabel tinha falhado um financiamento, algo depois confirmado pelo Observador, o Jornal Económico indicou que os prazos para celebrar os acordos finais expiraram e a Iberis Capital teria decidido não avançar porque, alegadamente, também não teria sido informada sobre “passivos existentes inesperados” que impactarão negativamente as entidades do grupo. A gestora Iberis Capital é acionista da Unbabel Inc (empresa sediada nos EUA) e detentora de obrigações da Unbabel Lda (a empresa portuguesa).

Na altura, o Observador questionou logo a Unbabel sobre esses alegados passivos inesperados, mas não obteve uma resposta. Entretanto, após terem sido remetidas novas perguntas, a tecnológica afirma que não comenta “a especulação em torno de negociações privadas”, porém confirma “categoricamente” que “não existem quaisquer responsabilidades financeiras não divulgadas que possam comprometer” a “integridade financeira ou capacidade operacional”.

Enquanto empresa privada, a tecnológica não está obrigada a divulgar publicamente resultados financeiros detalhados. As últimas contas que prestou foram as de 2023, em meados de fevereiro. Quanto às contas de 2024, um porta-voz diz que a auditoria está a ser finalizada e que as informações serão partilhadas com “os investidores e autoridades relevantes, conforme apropriado”.

"Desde a nossa fundação, temos visto as relações com os clientes evoluírem — algumas terminam, outras expandem-se — com base na mudança de prioridades e no ciclo do mercado. Verificamos tanto uma rotatividade natural como novos sucessos, o que é expectável num mercado altamente competitivo."
Porta-voz da Unbabel

Olhando para as últimas contas, as de 2023, é possível perceber que a Unbabel apresentava lucros de 4,9 milhões de euros (menos do que os 5,4 milhões de 2022), com um volume de negócios de 18,7 milhões de euros (face aos 16,8 milhões do período homólogo) e gastos com pessoal no valor de 12,1 milhões de euros (mais do que os 11,1 do ano anterior). A empresa portuguesa fechou o ano com ativos de 60,9 milhões de euros (quase o dobro dos 32,7 milhões de 2022), capitais próprios de 34,9 milhões de euros (face a 14,3 milhões do ano anterior) e passivos correntes de 15,9 milhões de euros (eram 18,4 milhões em 2022).

No final de 2023, a empresa tinha um capital social de 108 euros, sendo a maioria (101 euros) detida pela Unbabel Inc. No primeiro mês de 2024, declarou a realização de uma “emissão de obrigações realizada por oferta particular” de 10 milhões de euros. Até à data, a Unbabel já angariou cerca de 130 milhões de dólares (aproximadamente 112 milhões de euros, à taxa de conversão atual) através de várias rondas de financiamento. A mais recente a ser divulgada publicamente foi no final de 2023, no valor de 21 milhões de dólares (19,5 milhões de euros). Vasco Pedro indicou que o montante seria utilizado para “impulsionar a estratégia de crescimento global”, bem como para “fortalecer a posição” do negócio no “caminho da rentabilidade”.

A Unbabel lidera o consórcio do Center for Responsible AI, que junta várias entidades para acelerar o desenvolvimento de inteligência artificial (IA) de forma responsável. É um projeto apoiado em 51,3 milhões de euros pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A tecnológica portuguesa é a principal beneficiária e já recebeu 12,04 milhões de 18,5 milhões de euros previstos. Um antigo trabalhador tinha levantado a possibilidade de, eventualmente, a próxima tranche estar em risco devido a um despedimento coletivo levado a cabo em janeiro. Em resposta ao Observador, o IAPMEI esclarece que esse não é o caso: “Neste projeto, o despedimento coletivo não configura um incumprimento contratual, na medida em que no âmbito do projeto não está previsto apoio à contratação.”

Portuguesa Unbabel levanta financiamento de 21 milhões de dólares

Vasco Pedro

▲ A Unbabel lidera o consórcio do Center for Responsible AI

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Despedimentos que não causaram “surpresa” e “ajustes estruturais direcionados”

O processo de aquisição surge meses após uma reestruturação, a segunda em menos de cinco anos. Foi no final de janeiro que o Observador avançou que a Unbabel estava a reduzir a equipa, numa decisão que Vasco Pedro enquadrou num mercado tecnológico “em rápida mudança, com a adoção cada vez maior da IA na tradução”. Saíram 66 pessoas da empresa a nível global. Em Portugal, 35 trabalhadores foram integrados num despedimento coletivo. Doze chegaram a acordo com a empresa logo em janeiro, enquanto outros 20 recorreram à Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT) por considerarem que “a proposta não era justa”.

“A diferença entre o mínimo legal e aquilo que a Unbabel oferecia inicialmente eram o computador, uns meses de seguro de saúde e mais um mês de salário. Rapidamente nos demos conta, todos, de que era provável que a empresa já não tivesse quotas de Segurança Social para toda a gente e que ao optar pelo acordo mútuo invariavelmente umas quantas pessoas iam ficar sem acesso ao fundo de desemprego”, afirmam os antigos trabalhadores, que dizem que as negociações foram “renhidas e difíceis”. O acordo chegou após quatro reuniões, quando foram apresentados novos cálculos para as indemnizações. Ficou previsto o pagamento de 30 dias por ano de serviço para os quadros mais recentes (com três ou menos anos de ‘casa’) e de 35 dias para os mais antigos. Aqui, o acesso ao subsídio de desemprego estava garantido.

Unbabel reduz equipa. Tecnológica portuguesa fala “processo de reestruturação” em curso

O despedimento coletivo não apanhou, “de todo”, de surpresa os trabalhadores afetados. Até porque, dizem, assistiram a várias saídas, de pequenos grupos de pessoas e feitas por mútuo acordo, durante o tempo em que estiveram na empresa. “Não foi uma surpresa porque já tinha acontecido várias vezes, no ano passado e no anterior”; “sempre houve saídas por levas, de quantos em quantos meses. A reestruturação era uma constante”, afirmam, indicando que a situação mais recente (antes da de janeiro) teria acontecido por volta de outubro. Em respostas escritas enviadas ao Observador, a Unbabel reconhece que fez “ajustes estruturais direcionados ao longo do ano passado para apoiar a saúde do negócio a longo prazo”.

"Atualmente, a nossa atenção centra-se na maximização do valor da nossa equipa a nível mundial, mantendo a flexibilidade para fazer contratações estratégicas orientadas e alinhadas com os objetivos a longo prazo."
Porta-voz da Unbabel

“Em alguns casos, chegámos a acordos mútuos nas saídas — situações pontuais que fazem parte de processos de reestruturação. Estes casos foram tratados de forma individual e respeitosa, com total supervisão das autoridades laborais competentes para garantir a conformidade legal e equidade”, salienta um porta-voz da tecnológica, enquadrando as saídas num “esforço mais amplo para criar uma maior resiliência operacional e éticas para com os colaboradores”. Além disso, a empresa garante que os funcionários que saíram não foram substituídos e revela que “algumas funções foram eliminadas”. “De acordo com a legislação laboral portuguesa, essas funções não foram preenchidas novamente. Atualmente, a nossa atenção centra-se na maximização do valor da nossa equipa a nível mundial, mantendo a flexibilidade para fazer contratações estratégicas orientadas e alinhadas com os objetivos a longo prazo.”

A Unbabel diz que se trata de uma “abordagem disciplinada” para responder a “novas pressões”, que também afetam outras tecnológicas, e que vai “duplicar as áreas de crescimento estratégico, incluindo a inovação em IA”, expandir a empresa e “a excelência do produto”. Atualmente, a firma conta com 151 trabalhadores. Há cerca de três meses, viu João Graça, um dos fundadores e chief technology officer (CTO), sair para “descansar, reiniciar e passar tempo com a família”. Numa mensagem deixada no LinkedIn, onde desde este mês surge como venture partner da Shilling, agradeceu aos fundadores e a toda a equipa, mostrando-se “especialmente orgulhoso” pela forma como se mantiveram “fiéis” aos seus valores enquanto faziam “coisas difíceis”.

A primeira grande reestruturação da Unbabel aconteceu em 2020, em plena pandemia de Covid-19, quando despediu 35% dos trabalhadores (mais de 80 dos 250 que tinha à época). Vasco Pedro disse que os funcionários dispensados teriam “um pacote de indemnização acima da média”, mas o Expresso avançou que não dava acesso ao subsídio de desemprego. Existiram queixas junto da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), mas um ano e meio depois o CEO disse que “todos” os processos tinham ficado resolvidos. Em entrevista ao Observador, mostrou-se também “convicto” de que os despedimentos tinham sido “necessários” para o futuro da empresa.

Despedimentos de 2020 foram “necessários para o momento bom que se está a viver na Unbabel”, diz fundador

"Ser um unicórnio, entrar em bolsa… serão coisas que vão fazer parte da história da Unbabel."
Vasco Pedro, 2021

A história de uma empresa que há muito ambiciona ser unicórnio

A Unbabel nasceu pelas mãos de Vasco Pedro, Sofia Pessanha, João Graça, Hugo Silva e Bruno Silva em 2013. A ideia surgiu num “fim de semana de surf” em Aljezur. “Pensámos que, se fôssemos capazes de construir uma forma realmente fácil para pessoas corrigirem erros de tradução automática, isso seria muito poderoso e poderia ajudar empresas e pessoas a superar barreiras de linguagem”, contou o CEO em 2020.

Fizeram protótipos, conseguiram apoio financeiro, entraram na Y Combinator, uma das aceleradoras mais conhecidas do mundo, mudaram-se para Silicon Valley em janeiro de 2014 e construíram o produto pelo qual a Unbabel é conhecida: uma plataforma que alia inteligência artificial com pós-edição humana à tradução automática. Para construir o projeto, os fundadores chegaram a morar juntos. “Estamos cinco a viver na mesma casa. É uma grande benesse, porque estar há três meses a trabalhar 24 horas por dia e passar todo este tempo como equipa fundadora permite-nos criar uma relação importantíssima entre nós”, confessou Vasco Pedro, ao jornal Público, em 2014.

Nesse mesmo ano, a tecnológica participou no programa de aceleração Lisbon Challenge, organizado pela Beta-i, que em 2015 fundou a sociedade de capital de risco LC Ventures. Atualmente, as duas partes já não têm qualquer associação. Pedro Falcão, managing partner da capital de risco, diz ao Observador que nunca investiu na Unbabel, embora tenham existido conversas com Vasco Pedro nesse sentido.

Pedro Falcão não sabe precisar quem iniciou as conversações, mas lembra que acabaram por não culminar num financiamento porque o montante que a Unbabel procurava estava “completamente desalinhado” com a missão da LC Ventures, que investe em rondas pequenas, pré-seed e seed. Em conversa com o Observador, numa rápida análise ao momento atual da empresa, lembra que no período pós-pandemia o mercado estava “quente”, com dinheiro e “picos” de investimento. Um contexto, tanto nacional como internacional, diferente do que se vive atualmente. Quanto à possível venda da empresa, defende que “temos poucos casos de sucesso de exits em Portugal” e precisamos “de mais”.

Vasco Pedro

▲ Vasco Pedro nunca escondeu que queria que a Unbabel alcançasse o estatuto de unicórnio

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Ao longo dos anos, Vasco Pedro nunca escondeu o objetivo de elevar o negócio que cofundou ao estatuto de unicórnio. Em 2019, apontou o objetivo para dali a “dois a três anos”, mas acautelou que tudo dependia do futuro. A pandemia atrasou o plano, mas em 2021 o empresário mantinha-se confiante. “Em 2017 sentia mais a ânsia, tinha que ser rápido. Agora, tenho mais a certeza (…) Todos os indicadores estão lá. Não tenho dúvida de que vamos lá chegar”, disse, em declarações à Exame Informática.

As certezas mantinham-se no início de 2024, com Vasco Pedro a afirmar que esperava alcançar esse marco mítico naquele ou “no próximo ano” (2025). Mas isso não aconteceu. A entrada em bolsa também era uma ambição mencionada, mas mais a longo prazo, com o empresário a apontar para 2027/2028. Com várias distinções no currículo, como ser considerada a terceira empresa mais inovadora do mundo em 2020 na categoria “Enterprise” pela revista Fast Company, a Unbabel tem atualmente escritórios em várias cidades do mundo (de Lisboa a Nova Iorque, São Francisco ou Londres).

Entre os trabalhadores, contam ex-colegas, o ambiente é marcado pela “ansiedade”, “desconforto” e “incerteza” quanto ao futuro. “A possibilidade de uma venda pode representar uma boa oportunidade ou um risco, dependendo inteiramente de quem comprar. Acredito que existe um empenho genuíno em encontrar um comprador que alinhe com a cultura da empresa e traga estabilidade”, diz uma dessas pessoas, deixando uma questão “que permanece no ar”. Afinal, “quanto tempo resta para que a transição seja feita de forma responsável?”.

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