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Volodymyr Zelensky definiu o evento — e as decisões que tomariam no que diz respeito à adesão da Ucrânia à NATO — como aquilo de que "o país, a aliança e a segurança global precisavam"

AFP via Getty Images

Volodymyr Zelensky definiu o evento — e as decisões que tomariam no que diz respeito à adesão da Ucrânia à NATO — como aquilo de que "o país, a aliança e a segurança global precisavam"

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Adesão da Ucrânia à NATO. Zelensky foi da frustração ao otimismo em poucas horas e foi criticado: "As pessoas querem ver mais gratidão"

Zelensky entrou na cimeira com altas expectativas sobre adesão da Ucrânia à NATO, mas isso não aconteceu — e revoltou-se no Twitter. Um dia depois, mudou de tom graças às garantias de segurança do G7.

O estado de espírito de Volodymyr Zelensky mudou radicalmente entre o antes, o durante e o após cimeira da NATO em Vilnius, que terminou esta quarta-feira. Nos dias anteriores ao evento, o Presidente ucraniano tinha esperança de que obteria garantias sobre a entrada da Ucrânia na aliança transatlântica num futuro próximo. Quando, na terça-feira, os 31 Estados-membros se reuniram, o Chefe de Estado entendeu que isso não aconteceria tão cedo — e, nas redes sociais, manifestou o seu desagrado: “Absurdo”, chegou a escrever. Cerca de 24 horas depois, já na Lituânia e tendo-se encontrado com os aliados, Volodymyr Zelensky parecia resignado e até chegou a descrever o desfecho da cimeira como um momento “positivo” na aproximação de Kiev aos aliados.

Confrontado com estas mudanças abruptas de posição, o Presidente ucraniano explicou, numa conferência de imprensa no encerramento da cimeira, que continua a ter o mesmo “ponto de vista”. Como tinha escrito na sua conta pessoal no Twitter na terça-feira, Volodymyr Zelensky continua a considerar que é “sem precedentes e absurdo que não exista nem um calendário, nem um convite para a adesão da Ucrânia”, lamentando igualmente as “palavras vagas” dos dirigentes da NATO.

No entanto, o Chefe de Estado ucraniano mostrou-se mais otimista esta quarta-feira, e até reconheceu que a cimeira foi um “sucesso” para Kiev, que pôde — pela primeira vez na História — participar num evento da NATO. “Ouvi na cimeira palavras que me dão confiança a mim, ao meu povo e aos meus soldados, que é o mais importante”, reconheceu Volodymyr Zelensky, depois de a Ucrânia receber garantias de segurança dos G7, as sete economias mais poderosas do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e União Europeia), que se reuniram à margem da cimeira da aliança.

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Os líderes do G7 à margem da cimeira da NATO

AFP via Getty Images

“Nós, os líderes do grupo dos Sete (G7), reafirmamos o nosso compromisso inquebrável de alcançar o objetivo estratégico de uma Ucrânia livre, independente, democrática e soberana conforme as fronteiras reconhecidas pela comunidade internacional, capaz de se defender e capaz de dissuadir uma agressão futura”, lê-se no comunicado publicado esta quarta-feira pelos sete países. Para tal, as economias mais industrializadas do globo prometeram trabalhar ao lado de Kiev para garantir que são cumpridos os objetivos a “longo prazo”.

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Assim, embora sem a concretização de uma adesão à NATO — e sem um plano ou calendário concretos para essa adesão —, Volodymyr Zelensky sai, ainda assim, com garantias de apoio em várias dimensões — desde a partilha de informações confidenciais ao desenvolvimento da indústria militar ucraniana — de sete poderosos países. E isso pode ter mudado a postura de intransigência do Presidente, que, pelo caminho, não se livrou de algumas críticas por palavras que foram interpretadas como um sinal de “ingratidão” para com o Ocidente.

O fim da esperança e a “ingratidão”

A 10 de julho, na véspera da cimeira, Volodymyr Zelensky definiu o evento — e as decisões que tomariam no que diz respeito à adesão da Ucrânia à NATO — como aquilo de que “o país, a aliança e a segurança global precisavam”. “Estamos a trabalhar arduamente estes dias. Mais ativos do que nunca. E apesar deste trabalho ser quase a 100% nos bastidores, não é menos importante do que o trabalho a que o público pode assistir”, lembrava o Presidente da Ucrânia.

epa10740279 Ukrainian President Volodymyr Zelensky with his wife Olena Zelenska arrive for the dinner hosted by the Lithuanian president at the NATO ​summit in Vilnius, Lithuania, 11 July 2023. The North Atlantic Treaty Organization (NATO) Summit takes place in Vilnius on 11 and 12 July 2023 with the alliance's leaders expected to adopt new defence plans.  EPA/TIM IRELAND

Zelensky ia com expectativas elevadas para a cimeira da NATO

TIM IRELAND/EPA

“Todos entendem. Todos os líderes, todos os Estados. Mesmo se há diferentes posições, é claro que a Ucrânia merece estar na aliança”, sublinhou Volodymyr Zelensky no discurso diário da passada segunda-feira, acrescentando que a segurança da NATO no flanco leste dependia da segurança do território ucraniano. Mais: o Chefe de Estado disse mesmo que a Ucrânia já era um país “de facto” na aliança. “As nossas armas são as armas da aliança. Os nossos valores são os partilhados pela aliança. A nossa defesa é o elemento para uma Europa livre, unida e pacífica.”

Mas as expectativas do Chefe de Estado ucraniano foram logo defraudadas no início de cimeira. Enquanto a Suécia recebia luz verde para entrar na organização militar, após o levantamento dos vetos húngaro e turco na segunda-feira, o mesmo não aconteceu com a Ucrânia. Os aliados pareciam não estar inclinados a permitir a entrada de Kiev na aliança transatlântica num futuro próximo, isto apesar de oito países nórdicos e bálticos (Dinamarca, Estónia, Finlândia, Islândia, Letónia, Lituânia, Noruega e Suécia) terem apelado, num artigo publicado no Washington Post, à adesão do país liderado por Voldoymyr Zelensky.

Ainda os líderes na NATO estavam a começar a primeira reunião à porta fechada, já o Presidente ucraniano reagia com um tweet num tom violento. Destacando que a Ucrânia “merecia respeito”, Volodymyr Zelensky lamentava que não estivesse previsto que a Ucrânia recebesse um convite para aderir à organização militar. “Parece que não há vontade nem para convidar a Ucrânia nem para a tornar membro da aliança. Isto significa que há uma janela de oportunidade para a adesão da Ucrânia à NATO ser uma moeda de troca nas negociações com Rússia. E, para a Rússia, isso significa um motivo para continuar o seu terror.”

A frustração ucraniana tornava-se ainda mais visível com outro tweet a meio da tarde, quando Volodymyr Zelensky já se encontrava na capital lituana. O Chefe de Estado mostrava a sua desilusão com os aliados, estando à espera de encontrar, em Vilnius, uma NATO “que não hesita, que não perde tempo e que não olha para o agressor”.

Poucos minutos depois, numa conferência de imprensa que encerrava o primeiro dia de trabalho, o secretário-geral da NATO, Jens Stotelnberg, confirmava que a aliança não entregar a Kiev o convite para a adesão durante a cimeira de Vilnius. Aliás, sublinhou o norueguês, a Ucrânia receberá o convite apenas “quando os aliados concordarem e quando todas as condições estiverem reunidas”, sem se comprometer com uma data para esse alargamento aconteça.

Para mais, o líder da organização militar enfatizava que, neste momento, o mais importante passava por garantir “apoio militar” à Ucrânia, para que o país possa vencer a guerra frente a Rússia. “É a tarefa necessária, porque sem isso não há adesão à NATO de maneira alguma”, sinalizou, apontando depois para dois entraves da entrada de Kiev na aliança: a guerra e a corrupção, sendo que, sem o segundo ponto clarificado, o país não oferece possibilidades de uma “governança ideal”. 

epa10737450 NATO ?Secretary General Jens Stoltenberg speaks during a joint press conference with Lithuanian president about the NATO ?summit in Vilnius, Lithuania, 10 July 2023. The NATO Summit will take place in Vilnius on 11 and 12 July 2023 with the alliance's leaders expected to adopt new defense plans.  EPA/TOMS KALNINS

Jens Stotelnberg não confirmou entrada da Ucrânia na NATO

TOMS KALNINS/EPA

Porém, o secretário-geral da NATO assinalou que o processo de adesão da Ucrânia seria simplificado e seria posto em marcha um plano, de modo a que Kiev tenha uma entrada mais célere na organização militar.

A mudança de posição de Zelensky com o plano dos G7

Enquanto o primeiro dia de trabalhos incidiu sob variados temas, o segundo tinha praticamente um único assunto na agenda: a defesa da Ucrânia. Ainda para mais, Volodymyr Zelensky esteve presente na cimeira e participou em encontros bilaterais com vários líderes. À entrada do primeiro encontro, o Chefe de Estado ucraniano parecia não desistir, se bem que num tom mais conciliatório do que o do dia anterior, ao garantir que ia “lutar” pelas “condições de segurança” para “entrar na NATO”.

Pouco depois destas declarações, sem que nada o fizesse prever, o G7 anunciava que iria elaborar um “enquadramento internacional para acordos de segurança a longo prazo”, que seria apresentado ainda na quarta-feira. A Rússia até chegou a reagir a esta novidade, com o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, a advertir que, “ao dar garantias de segurança à Ucrânia, [o G7] está a minar a segurança da Rússia”

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Biden e Zelensky no acordo dos G7 à margem da cimeira da NATO

Anadolu Agency via Getty Images

Numa conferência de imprensa a meio da manhã, e já ao lado de Jens Stoltenberg, o Presidente da Ucrânia mudava por completo o tom das 24 horas anteriores. Chegou a “agradecer” à NATO pela simplificação da adesão, ainda que ressalvasse que o “ideal” seria um convite para a aliança. Mas Volodymyr Zelensky não escondeu que as “garantias de segurança” do G7 representavam um “sinal muito específico” para o futuro de Kiev.

O Chefe de Estado ucraniano expressava ainda uma benevolência que, 24 horas antes, parecia não existir. Nesta altura, era “compreensível” para Volodymyr Zelensky que os 31 Estados-membros da NATO (32, em breve) tivessem “medo” de falar sobre a adesão da Ucrânia, porque isso poderia significar o início de uma “terceira guerra mundial”.

Como chegou a admitir o Presidente da Ucrânia, o plano do G7 foi fundamental para esta mudança de opinião. As garantias de segurança das sete maiores economias do mundo acalmaram, pelo menos para já, a vontade de Volodymyr Zelensky de ver Kiev na NATO. Incidindo sob três domínios, o documento prevê:

  • “A formação de uma força sustentável e capaz de defender a Ucrânia e deter a agressão russa no futuro através de equipamento moderno militar.”
  • “O fortalecimento da estabilidade e da resiliência económica da Ucrânia, incluindo através de esforços de reconstrução, criando as condições para promover a prosperidade económica.”
  • “O fornecimento de apoio técnico e financeiro para as necessidades imediatas da Ucrânia causadas pela guerra que a Rússia provocou, assim como a continuidade da implementação da agenda que vai suportar a boa governança necessária para [o país] avançar nas suas aspirações euro-atlânticas.”
epa10724675 Members of Ukraine's 59th Separate Motorized Infantry Brigade named after Yakiv Handziuk during repair work on a tank near a frontline in the Donetsk direction, eastern Ukraine, 02 July 2023 (issued 03 July 2023), amid the Russian invasion. Russian troops entered Ukrainian territory in February 2022, starting a conflict that has provoked destruction and a humanitarian crisis.  EPA/NIKOLETTA STOYANOVA

G7 garante a segurança da Ucrânia

NIKOLETTA STOYANOVA/EPA

Apesar destas vantagens, o G7 também exige que a Ucrânia “continue implementar reformas judiciais, [medidas] anticorrupção e de boa governança” que tenham em conta “o Estado de direito, o respeito pelos direitos humanos e a liberdade dos órgãos de comunicação social”. Para mais, as sete maiores economias solicitam que a Ucrânia faça “reformas” na área da Defesa, “fortalecendo o controlo das forças armadas e promovendo a eficácia e transparência das instituições e da indústria militar”.

As críticas do Ocidente à frustração de Zelensky

Não terá sido apenas o acordo dos G7 a influenciar a mudança de atitude de Volodymyr Zelensky. É que, de acordo com a imprensa internacional, o Presidente ucraniano recebeu críticas nos bastidores pela sua intransigência inicial.

Ao que a Bloomberg apurou, os Estados Unidos foram apanhados desprevenidos com os tweets do Presidente ucraniano, tendo mostrado a sua insatisfação com a presidência ucraniana. Adicionalmente, no jantar que reuniu todos os 31 Estados-membros, além do primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, e que também contou com a presença Volodymyr Zelensky, o Chefe de Estado ucraniano foi aconselhado a acalmar-se e a moderar o tom relativamente aos aliados.

Todas estas movimentações diplomáticas ficaram nos bastidores. O ministro da Defesa britânico, Ben Wallace, foi o único a criticar diretamente o Chefe de Estado ucraniano. Numa entrevista a vários órgãos de comunicação sociais do Reino Unido, o governante mandou um recado Volodymyr Zelensky, salientando que as “pessoas querem ver um pouco de gratidão” por parte das autoridades ucranianas.

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Ministro da Defesa do Reino Unido criticou postura de Zelensky

PA Images via Getty Images

Ben Wallace comparou mesmo os pedidos de armamento por parte de Kiev ao que acontece numa famosa loja online, recordando um episódio em que esteve na Ucrânia e recebeu uma “lista da ajuda militar de que o país necessitava”. “Não sou a Amazon”, foi a resposta do ministro da Defesa do Reino Unido.

Durante esta quarta-feira, os aliados pareciam desvalorizam, por sua vez, a irritação do dia anterior do Presidente ucraniano. O secretário-geral da NATO “entendeu” o que diz serem os “apelos” do líder da Ucrânia, lembrando que Volodymyr Zelensky está numa “situação extremamente difícil”, ainda para mais com uma contraofensiva em marcha. O primeiro-ministro português, António Costa, também falou num “mal-entendido” que foi rapidamente resolvido. E Joe Biden indicou que “entende” a frustração de Volodymyr Zelensky sobre a entrada da NATO.

No final, apesar das críticas iniciais, Volodymyr Zelensky até admitiu um desfecho “positivo” da cimeira da NATO. Para já, o Presidente ucraniano estará satisfeito e os aliados parecem não ter dado grande valor à sua frustração.

 
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