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epa12062600 Deputy Chairman of the Russian Security Council Dmitry Medvedev speaks during a session titled 'Our dangerous world: who is to blame and what to do?' of the Znaniye.Pervye (Knowledge: The First Ones) educational marathon at the Victory Museum on Poklonnaya Gora in Moscow, Russia, 28 April 2025.  EPA/EKATERINA SHTUKINA/ SPUTNIK / GOVERNMENT PRESS SERVICE / POOL MANDATORY CREDIT
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EKATERINA SHTUKINA/ SPUTNIK / GOVERNMENT PRESS SERVICE / POOL/EPA

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Ataques pessoais, ameaças de 3ª Guerra Mundial, retórica inflamada. Como Medvedev passou de "reformista" a provocador-mor da Rússia?

O ex-Presidente russo era visto, durante o seu mandato, como um líder reformista. Mas desde há 3 anos que tem adotado uma retórica infamada contra o Ocidente. Trump não ignorou a última ameaça.

A Rússia precisa de “ter relações boas com o Ocidente em todos os sentidos da palavra”, dizia em 2009 o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, numa entrevista à CNN. Década e meia depois, Medvedev já não pensa da mesma forma e, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, tem-se desdobrado em declarações contra os países ocidentais, muitas delas em tom ameaçador, fazendo eco das fações mais extremistas da sociedade russa. A postura provocatória de Medvedev atingiu o ponto mais alto na última semana, quando o atual vice-presidente do Conselheiro de Segurança russo avisou diretamente Donald Trump quanto à capacidade militar nuclear da Rússia, levando o presidente dos EUA a acionar dois submarinos nucleares — numa escalada de tensão entre as duas maiores potências nucleares do planeta a que não se assistia há décadas.

Quando assumiu a presidência russa em 2008 (durante apenas quatro anos, numa manobra para contornar o limite de mandatos de Putin definido na Constituição), Dmitry Medvedev era visto pelo Ocidente como um potencial Presidente reformador, disponível para melhorar as relações com os Estados Unidos. Nesse sentido, Medvedev e Barack Obama assinaram, em 2009, o tratado New START, de redução do número de armas nucleares. O ex-presidente russo queria também combater a corrupção generalizada e melhorar o estado de direito na Rússia, lembra a Reuters, o que representava um corte com os primeiros oito anos de presidência de Putin, que contribuíram para fechar a Rússia sobre si própria.

Mas a desescalada de tensões com o Ocidente durou pouco. Dois anos depois de Putin reassumir a presidência, em 2014, a Rússia anexou a península ucraniana da Crimeia, gerando um coro de críticas da comunidade internacional. Por essa altura, Medvedev era primeiro-ministro, cargo que ocupou até 2020, quando foi nomeado vice-presidente do Conselho de Segurança, um órgão que inclui os chefes dos serviços de informações da Rússia.

Medvedev faz eco dos setores mais extremistas da sociedade russa

Desde aí, Medvedev tem usado as redes sociais para publicar mensagens criticas dos países ocidentais e também da Ucrânia. O ex-presidente tem 1,7 milhões de seguidores no Telegram, e perto de 6 milhões nas contas em russo e inglês na rede social X. É através destas plataformas que difunde mensagens em tom provocatório e inflamado, afastando-se da linha mais tradicionalista do Kremlin mas indo ao encontro das fações mais extremistas da sociedade russa (compostas nomeadamente por bloggers militares, comentadores e alguns políticos).

2012 Seoul Nuclear Security Summit Begins

▲ Presidência de Medvedev ficou marcada pela aproximação aos EUA (sobretudo na área nuclear). Foram vários os encontros com Obama

Getty Images

Após a invasão em grande escala da Ucrânia por parte da Rússia, Medvedev referiu-se à liderança de Kiev como “baratas a reproduzirem-se num frasco”, lembra a CNN. São frequentes as referências à possibilidade de uma terceira Guerra Mundial e ao nazismo impregnado na Ucrânia, uma retórica repetida pelo Kremlin desde 2022 (usada aliás como um das razões para o início da guerra). “A nova doutrina nuclear da Rússia significa que mísseis da NATO disparados contra o nosso país podem ser considerados um ataque do bloco à Rússia. A Rússia poderia retaliar com armas de destruição em massa contra Kiev e instalações-chave da NATO, onde quer que estejam localizadas. Isso significa a Terceira Guerra Mundial”, escreveu Medvedev em novembro de 2024 no X.

No final de maio deste ano, e ao comentar declarações de Trump sobre Putin, o ex-Presidente russo disse que só conhecia uma “uma coisa REALMENTE MÁ — a Terceira Guerra Mundial. Espero que Trump entenda isso!“.  No início do ano, Medvedev apelou à “destruição do regime neonazi de Kiev”.

Da retórica inflamada do atual vice-presidente do Conselheiro de Segurança russo fazem também parte diversos ataques a líderes ocidentais. Quando foi eleito chanceler alemão, Friedrich Merz ficou na mira de Medvedev. “Sugeriu um ataque à ponte da Crimeia. Pense duas vezes, nazi!”, escreveu no X.

No início deste ano, acusou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de ser “viciado em drogas” e chamou-lhe o “palhaço de Kiev“, “mendigo” e “ladrão”.

Quanto ao presidente francês, Medvedev tentou menorizar Macron chamando-lhe “Micron” e garantiu que vai “desaparecer” em maio de 2027, quando terminar o atual mandato.

Mark Rutte “empanturrou-se de cogumelos mágicos”

Referiu-se ainda ao ex-Presidente norte-americano Joe Biden como Joe The Walking Dead [Joe, o morto-vivo], — acusando-o de ter deixado um “legado sombrio” para o seu sucessor, — e chamou-lhe também Sleepy Joe [Joe, o dorminhoco], imitando a expressão utilizada antes por Donald Trump. Há cerca de um mês, Medvedev apontou baterias ao secretário-geral da NATO, escrevendo, no X, que Mark Rutte “se empanturrou de cogumelos mágicos” e aconselhando o ex-primeiro-ministro dos países Baixos a “aprender russo”, o que lhe poderá ser útil “num campo siberiano”.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

Medvedev já ameaçou atacar o Reino Unido — um dos países que Moscovo considera mais hostis— com mísseis hipersónicos. “A ilha chamada Grã-Bretanha provavelmente vai afundar-se nos próximos anos. Os nossos mísseis hipersónicos ajudarão, se necessário”, escreveu o ex-Presidente russo, a propósito do acordo firmado entre Londres e Kiev em setembro do ano passado.

Num discurso partilhado pelo próprio, Medvedev defendeu, em 2024, que os EUA não ganharam a Guerra Fria e que estavam, de resto, “muito perto de a perder”. “A dada altura, os EUA decidiram que tinham ganhado a Guerra Fria. Foi um grave equívoco. Os EUA não ganharam. Mais: eles estão muito perder de a perder de vez”, disse o ex-presidente russo no Fórum de São Petersburgo.

Em abril de 2022, pouco tempo depois da invasão da Ucrânia, Medvedev referiu-se a Portugal, defendendo a construção de “uma Eurásia unida de Lisboa a Vladivostok [a maior cidade do extremo oriente da Rússia]”.

epa11026895 Deputy head of Russia's Security Council and chairman of the United Russia party, Dmitry Medvedev attends a discussion titled 'The Future of Russia' held by the United Russia party ahead of the 21st party's congress in Moscow, Russia, 13 December 2023. 'United Russia' will support current Russia President Vladimir Putin in the presidential elections in 2024, said party chairman Dmitry Medvedev. According to him, the president acts as a 'society consolidating figure'.  EPA/EKATERINA SHTUKINA / SPUTNIK / KREMLIN POOL MANDATORY CREDIT

▲ O atual vice-presidente do Conselheiro de Segurança russo tem vindo a adotar uma retórica inflamada e provocatória contra os países ocidentais

EKATERINA SHTUKINA / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA

Trump não gostou da ameaça e fez deslocar dois submarinos nucleares

O Instituto para o Estudo da Guerra defende que Medvedev está habituado a “amplificar a retórica inflamatória destinada a alimentar o pânico e o medo entre os decisores ocidentais”, como parte de “uma estratégia informativa concertada e imposta pelo Kremlin”.

Até à semana passada, o discurso provocatório de Medvedev tinha sido ignorado pelos líderes ocidentais, algo que mudou recentemente com Donald Trump. A 28 de julho, o vice-Presidente do Conselheiro de Segurança russo criticou a ameaça de Trump de impor novas sanções contra a Rússia caso o país não coloque um fim à guerra na Ucrânia num prazo de dez dias. “Trump está a jogar o jogo do ultimato com a Rússia: 50 dias ou 10… Ele deveria lembrar-se de duas coisas: 1) a Rússia não é Israel nem mesmo o Irão. 2) Cada novo ultimato é uma ameaça e um passo em direção à guerra. Não entre a Rússia e a Ucrânia, mas com o próprio país. Não siga o caminho do Sleepy Joe!”, escreveu Medvedev no X.

Dois dias depois, surgiu a resposta do presidente dos EUA, com Trump a referir-se a Medvedev como um “ex-Presidente fracassado” e a pedir cuidado com a retórica. “Pensa que ainda é Presidente. Ele que tenha cuidado com as palavras. Está a entrar em terreno perigoso”, ameaçou Donald Trump.  Horas depois, o russo voltou a criticar Trump no seu canal no Telegram e fez alusão à “lendária ‘Mão Morta’”, em referência a um armamento projetado durante a Guerra Fria para disparar mísseis nucleares se a liderança russa fosse decapitada. “Significa que a Rússia está certa e continuará a seguir o seu próprio caminho”.

Entretanto, Trump deu ordens para que fossem enviados dois submarinos com capacidade nuclear para perto da Rússia, uma decisão que ainda não teve resposta por parte de Medvedev. Mas o Kremlin já reagiu:

“Numa guerra nuclear não há vencedores”, disse o porta-voz dapresidência russa, Dmitry Peskov na conferência de imprensa telefónica diária, citado pelas agências de notícias internacionais. Peskov pediu cautela nas declarações sobre arsenais nucleares. “Pensamos que toda a gente deve ter muito cuidado com o que diz sobre a questão nuclear”, afirmou,

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