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As provocações vão-se somando a um ritmo quase diário. Desde drones a entrar no espaço aéreo de países europeus da NATO a balões meteorológicos, a Rússia vai prosseguindo o que é já considerada uma guerra híbrida contra o Ocidente. Sem uma solução diplomática à vista para a guerra da Ucrânia, o Presidente russo, Vladimir Putin, vai testando os países da Europa. Denunciando o que diz ser a “histeria militarista” no Velho Continente, o Kremlin está empenhado em quebrar a unidade em redor da Ucrânia — e, acima de tudo, que os líderes europeus deixem de influenciar o líder norte-americano, Donald Trump, em relação à gestão do conflito.
Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, Vladimir Putin tem ansiado por negociar os termos iniciais de um acordo com o Presidente norte-americano, mantendo a sua postura maximalista e inflexível em relação às conquistas territoriais na Ucrânia. Se nas primeiras semanas do mandato de Trump essa ainda era uma hipótese provável, esse cenário está atualmente muito longe de se materializar — aliás, Trump acaba de cancelar qualquer hipótese de encontro com Putin. Até porque, com operações de charme, a diplomacia europeia tem conseguido sensibilizar a Casa Branca para os riscos estratégicos de a Rússia sair como a grande vencedora do conflito.
Em fevereiro de 2025, Vladimir Putin esperava mesmo que “as elites europeias abanassem a cauda” às vontades de Donald Trump, que queria um fim rápido para o conflito da guerra na Ucrânia. A Rússia acreditava que ia atingir os seus objetivos delineados no início da invasão que desencadeou contra o país vizinho em fevereiro de 2022. Oito meses depois, isso não se verificou. Na reunião no Alasca, em que o Presidente norte-americano até aceitou dialogar apenas com o homólogo — em agosto de 2025 —, a guerra não ficou resolvida. Suspenso está também, e em definitivo, outro encontro entre os dois líderes em Budapeste.
▲ Putin e Trump no Alasca
GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL/EPA
Ainda que se mantenha ambíguo, Donald Trump nunca cedeu totalmente a Vladimir Putin. E isso não terá sido visto com bons olhos pelo Kremlin, se bem que ainda mantenha a esperança de que tal vá acontecer. Ainda esta quarta-feira, o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, salientou que o Presidente norte-americano “está a demonstrar um compromisso sincero com os ideais de paz” ao tentar resolver o conflito na Ucrânia. “Isso é visto de forma muito positiva em Moscovo, inclusive pelo nosso Presidente Putin.”
A culpada de Vladimir Putin e Donald Trump ainda não terem um acordo? A Europa. Dmitry Peskov já admitiu que os europeus “estão a obstruir a resolução do conflito”, não abandonando as suas “aspirações militaristas”. Assim, a Rússia decidiu intensificar a guerra híbrida contra os países europeus que já levava a cabo desde pelo menos o início da invasão. Os episódios de drones a sobrevoar o espaço aéreo da NATO, a presença de balões meteorológicos (alguns com coisas traficadas) nos céus da Aliança e as operações subversivas em países europeus começaram a ser recorrentes. Ainda esta quinta-feira, um drone não identificado sobrevoou uma base militar belga e o aeroporto da capital lituana foi encerrado.
O que leva Putin a escalar a guerra híbrida contra os europeus?
Todos os países da NATO do flanco leste já sofreram, pelo menos desde setembro de 2025, quando as negociações entre a administração Trump e a Rússia começaram a deteriorar-se, algum tipo de ataque híbrido. Drones já sobrevoaram os espaços aéreos do Países Bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), da Polónia e da Roménia. Mas já chegaram a outras geografias: Bélgica, Alemanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia e até Espanha.
▲ Drone russo encontrado na Polónia em setembro de 2025
WOJTEK JARGILO/EPA
No caso da Dinamarca e da Noruega, dois dos países que mais apoiam a Ucrânia desde o início da invasão, os aeroportos das capitais dos países tiveram de ser encerrados por causa de avistamentos dos drones. Aconteceu o mesmo no aeroporto de Munique, na Alemanha, ou nos aeroportos dos Países Bálticos. Há também vários veículos não tripulados que sobrevoam bases militares da NATO.
Nos últimos dias, balões meteorológicos oriundos da Bielorrússia — o maior aliado da Rússia na Europa — entraram no espaço aéreo da Lituânia. Causaram várias disrupções, uma das quais o encerramento de aeroportos do país membro da União Europeia e NATO, como, aliás, aconteceu esta quinta-feira. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem descrito estes episódios como “provocações”: “Vamos chamá-las pelo nome: são ameaças híbridas”.
Os líderes europeus culpam a Rússia pelo sucedido e prometem não ceder perante as ameaças. O chanceler alemão, Friedrich Merz, já assinalou que, com estas táticas, Vladimir Putin está a tentar “semear o medo e paralisar as sociedades livres para minar a disponibilidade para tomar ações decisivas”. “Ele calculou mal. Não vamos permitir ser intimidados. Não vamos permitir que a nossa sociedade livre seja desestabilizada pelos ataques híbridos”, realçou o líder germânico.
▲ Voos foram cancelados no aeroporto de Munique após avistamentos de drones
Getty Images
Por sua vez, a Rússia recusa ter tido algum papel no que está a acontecer na Europa. “Não há base para acusar a Rússia disso”, afirmou o porta-voz do Kremlin, considerando ser “estranho” o que está a acontecer com drones. No mesmo sentido, sobre o caso dos balões, a Bielorrússia garantiu não ter nada a ver com o que aconteceu nos céus lituanos. No entanto, praticamente todos os líderes estrangeiros e analistas responsabilizam Moscovo — que teria a ganhar muito com estas operações híbridas.
“Os ataques têm dois objetivos”, começou por dizer Elisabeth Braw, especialista sueca e membro do think tank Atlantic Council, que não tem dúvidas de que a Rússia está por trás dos mesmos. “O primeiro é criar disrupções. O segundo é confundir e assustar [os europeus] para que percamos a nossa fé nas nossas autoridades e na democracia liberal”, explicou, em declarações ao The Guardian, acrescentando que este tipo de provocação são “atrativas” para a Rússia porque “geram caos e desarmonia”.
Mais do que isso, o analista político Luigi Scazzieri, num artigo publicado no site do think tank European Union Institute for Security Studies, considera que a Rússia está a tentar perceber o “quão rapidamente os europeus detetam e reagem a ameaças” e o “quão coordenada a resposta é”. “Ao mesmo tempo, Moscovo está a tentar fomentar divisões ao explorar diferentes perceções de ameaça em vários países europeus. A Rússia está provavelmente também a minar o apoio europeu à Ucrânia ao forçar os europeus a priorizar na própria defesa mais do que a fortalecer a da Ucrânia.”
Dito doutro modo, Vladimir Putin está a testar e a perceber até onde vai a capacidade de resposta europeia a estas ameaças, tentando transmitir a ideia de que os países precisam de se focar na sua própria segurança, em vez na da Ucrânia. Tentando que seja essa a perceção que se cria nas sociedades civis europeias, o Presidente russo deseja também que as populações fiquem assustadas — e exijam mais respostas aos seus líderes políticos.
Além disso, durante a administração Trump, os Estados Unidos da América (EUA) praticamente deixaram de ceder equipamentos militares à Ucrânia. O esforço incide agora sobre os países europeus da NATO que, através de um mecanismo criado no seio da Aliança, financiam a compra de material bélico norte-americano que depois é entregue aos ucranianos. A Rússia não vê com bons olhos esta iniciativa; e estas ameaças híbridas são uma forma de tentar que a Europa deixe de sustentar o esforço de guerra da Ucrânia.
Mas também há uma componente geopolítica, realçou Luigi Scazzieri. Ao “escalar a guerra híbrida” nos últimos tempos, a Rússia está a tentar perceber até “onde vai a disponibilidade de Donald Trump para apoiar a Europa”. Praticamente todos os países europeus são parte da NATO; assim sendo, Vladimir Putin tenta dar-se conta até aonde vai o compromisso dos Estados Unidos da América no cumprimento do artigo 5.º do Tratado de Washington, a base da aliança transatlântica e que estipula que um ataque a um é um ataque a todos.
▲ Vladimir Putin está também a testar a união da NATO em resposta a estas ameaças híbridas
CLEMENS BILAN/EPA
Vários serviços secretos militares europeias, como os alemãs ou francesas, advertem que a Rússia está a planear um ataque contra um Estado-membro da NATO dentro de alguns anos. Mesmo que não se concretize, Vladimir Putin quer tentar perceber se Donald Trump apoia efetivamente uma resposta militar da NATO, ou se mantém as dúvidas e reservas que foi manifestando ao longo do primeiro mandato. Este ano, o Presidente norte-americano, após praticamente todos os Estados-membros da Aliança (à exceção de Espanha) terem aceitado cumprir a meta de 5% na Defesa, mostrou estar satisfeito com a organização. Mas pode mudar a sua opinião a qualquer momento.
Gerar desconfiança entre os dois lados do Atlântico é uma tática estratégica para Vladimir Putin vencer na Ucrânia. O Presidente russo quer que os europeus não confiem em Donald Trump e que Donald Trump não confie nos europeus. Ao quebrar esta aliança histórica, o chefe de Estado da Rússia pretende transformar-se na única voz a dialogar com os norte-americanos para obter um acordo favorável, secundarizando a Europa e a Ucrânia no processo negocial.
As ameaças nucleares. Como Putin tenta também desestabilizar os Estados Unidos
Nas suas declarações públicas, o Kremlin não tem hostilizado os Estados Unidos, mesmo que Donald Trump tenha admitido que está cada vez mais “desiludido” com o homólogo russo. O Presidente norte-americano adiou indefinidamente a cimeira de Budapeste e assegurou que “não quer perder tempo” com “bonitas conversas” com Vladimir Putin, acabando por anunciar esta sexta-feira que não vai haver mesmo qualquer encontro. Além disso, os EUA aplicaram sanções a duas petrolíferas russas, as primeiras do segundo mandato de Trump, a Lukoil e a Rosneft, com o objetivo de travar a máquina de guerra russa,
Se bem que a presidência russa tenha mantido a cordialidade, já agiu a estas ações norte-americanas. Num tom que lembra a Guerra Fria, Vladimir Putin divulgou ao mundo, nos últimos dias, o sucesso dos treinos decisivos com dois equipamentos de guerra poderosos: o míssil de cruzeiro com propulsão nuclear Burevestnik que pode atingir alvos a 20 mil quilómetros de distância, e o drone submarino movido a energia atómica Poseidon, que gera tsunamis radioativos. O Presidente russo enfatizou que estas duas armas são “únicas no mundo”, no que pode ser interpretado como um recado para os Estados Unidos.
▲ Drone submarino Poseidon cujos testes foram completados "com sucesso", segundo Vladimir Putin
Ainda que não seja necessariamente uma tática de guerra híbrida, Vladimir Putin pretende continuar a semear o pânico. E não só na Europa; também nos Estados Unidos, o antigo grande rival da União Soviética. Em declarações ao canal australiano SBS, a professora de Relações Internacionais na Universidade de Melbourne, Maria Rost Rublee, disse que os testes aos equipamentos nucleares serviam como “uma mensagem para Trump, para a Ucrânia, para a Europa e para o mundo”: a Rússia é um “país forte, não vai ceder, está a aumentar as capacidades”.
Publicamente, os dirigentes russos argumentaram que a aposta nestes equipamentos de guerra é uma forma de se protegerem contra uma ameaça da Aliança Atlântica. “A liderança russa tem repetidamente declarado” que o desenvolvimento de mísseis consiste em “manter o equilíbrio estratégico”, justificou, esta quinta-feira, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova. “Em particular, o nosso país está forçado a responder às ações crescentemente desestabilizadoras da NATO na área da defesa de mísseis em particular”, continuou.
Nem os Estados Unidos ficam de fora deste aviso. Embora tenha tecido elogios à administração Trump na resolução do conflito na Ucrânia, o Kremlin mantém a postura maximalista na guerra, reivindicando as conquistas terrotoriais e exigindo garantias de seguranças. Negociar só nos termos da Rússia que, como fazem questão de lembrar os dirigentes russos sempre que podem, é uma potência nuclear.
Como Trump e os europeus estão a reagir à guerra híbrida
O Presidente norte-americano naturalmente não demonstrou grande satisfação com os testes com mísseis nucleares. “Putin devia estar a acabar com a guerra, não a testar mísseis”, criticou Donald Trump, quando foi questionado sobre os testes bem sucedidos do Burevestnik. “Esta guerra, que deveria durar uma semana, entrará em breve no quarto ano. É isso que ele deveria fazer, em vez de andar a testar mísseis”, atirou o líder dos Estados Unidos da América.
Diante das ameaças, o chefe de Estado norte-americano decidiu tomar uma atitude na sequência dos anúncios de Vladimir Putin do armamento nuclear. Numa farpa ao Presidente russo, Donald Trump escreveu na Truth Social que “os Estados Unidos têm mais armas nucleares do que qualquer país”. “A Rússia é segunda e a China está em terceiro lugar, de forma distante.”
“Por causa dos testes de outros países, instruí o Departamento da Guerra para testar as nossas armas nucleares na mesma intensidade”, destacou Donald Trump, garantindo que o “processo vai começar imediatamente”. Num clima já de tensão com Vladimir Putin por este não ceder nas suas ambições na Ucrânia, o Presidente norte-americano parece dar assim uma resposta ao teste do Burevestnik e do Poseidon.
Por sua vez, na Europa, para se proteger as ameaças híbridas, a NATO já tem curso a Sentinela Oriental. Uma nova missão, que foi lançada em meados de setembro, que é a “primeira linha de defesa” contra ameaças aéreas da Rússia e consiste no reforço da presença militar no flanco leste da Aliança transatlântica. Já a União Europeia, quer colocar em prática o “muro contra drones” como uma forma de travar as violações de espaços aéreos dos 27 Estados-membros.
Recentemente, em termos mais concretos, a Lituânia, por conta dos balões meteorológicos, ordenou o encerramento de alguns pontos da fronteira terrestre com a Bielorrússia. Os Países Bálticos também estão a ter cada vez mais precauções nos pontos fronteiriços com a Rússia. Os países europeus estão a tentar coordenar-se, mas tem existido a falta de um comando operacional — o que pode criar problemas a lidar com este tipo de ameaças.
Focado na Ucrânia, Vladimir Putin, um antigo agente do KGB, vai continuar a usar várias táticas de desestabilização na Europa para não só dividir e gerar receio nas opiniões públicas europeias, como também para diminuir o apoio europeu a Kiev. Para os EUA, a ameaça nuclear é novamente a opção usada pelo Presidente russo para criar medo na sociedade norte-americana. O líder da Rússia não está disposto a ceder e vai continuar a lembrar que o país que chefia nunca deve ser desvalorizado.
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