Nos últimos anos, sobretudo no auge do surto inflacionista, não foram poucas as reuniões em que houve duros confrontos entre os membros do Conselho do BCE. Tanto na fase em que se tentava reagir à subida da inflação (2022/2023) como na fase em que procurava gerir a “aterragem suave” nas taxas de juro, Mário Centeno participou em várias reuniões bastante acrimoniosas. Mas a primeira reunião em que participou o novo governador português, Álvaro Santos Pereira, coincidiu com um dos encontros mais harmoniosos dos últimos anos – uma reunião após a qual Christine Lagarde se congratulou pela “absoluta unanimidade” de que, nos 2%, os juros “estão num bom lugar”. E aí devem continuar nos próximos tempos.

Em Florença, cidade italiana onde nesta quinta-feira aconteceu a reunião que o BCE promove anualmente fora de Frankfurt, os fotógrafos contratados pelo banco central captaram o momento em que a presidente, Christine Lagarde, cumprimentou Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e até há pouco tempo economista-chefe do BCE. O jornal Eco noticiou a 14 de outubro que a francesa terá tentado, no verão, interceder junto de Luís Montenegro para que o primeiro-ministro (e o Ministério das Finanças) reconduzisse o governador para um segundo mandato.

Apesar dessa iniciativa de Lagarde, a opção do Governo acabou, mesmo, por ser a substituição de Centeno por uma das várias pessoas que foram convidadas naqueles dias. E, assim, o Conselho do BCE perdeu um governador que nos últimos anos se tinha afirmado como uma das mais conhecidas “pombas” da política monetária, passando agora a ter alguém que, no parlamento português, disse que “pomba” não era “de certeza”.

Esta é uma referência à gíria que descreve as “pombas” como os governadores mais adeptos de juros mais baixos para estimular o crescimento e o emprego, em oposição aos “falcões“, que são tendencialmente mais temerosos em relação aos riscos de inflação e, por isso, tendem a preferir taxas de juro mais elevadas.

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Independentemente das diferentes sensibilidades que existem no Conselho do BCE, nesta fase elas estão mais esbatidas porque existe um consenso invulgarmente alargado de que, com sinais de que a inflação está controlada perto da meta (2%), o atual nível da taxa de juro está bem adequado ao momento atual. “Com satisfação digo que houve um debate muito amigável e cortês, no Conselho do BCE, sobre as diferentes leituras que existem sobre a inflação”, afirmou Christine Lagarde na conferência de imprensa desta quinta-feira.

“Juros podem permanecer no nível atual ao longo de 2026”, dizem analistas

A presidente do BCE repetiu o mantra dos últimos meses ao dizer que o BCE continua “num bom lugar” nas taxas de juro. Uma posição que tem sido lida pelos analistas como um sinal de que não está iminente qualquer mexida nos juros. Porém, tentando evitar encurralar-se, Lagarde afirma que não é um “lugar fixo” – ou seja, o BCE não exclui que a evolução das perspetivas de inflação possa levar a autoridade monetária a tomar uma decisão diferente daquela que neste momento se prevê.

Apesar de a inflação parecer controlada, o BCE identifica vários motivos pelos quais ela pode afastar-se do objetivo – tanto no sentido descendente como ascendente. Os conflitos comerciais, que podem gerar dificuldades imprevisíveis nas cadeias de abastecimento global, são o principal fator de preocupação na cabeça de Christine Lagarde. Outros são a recente valorização do euro face ao dólar, que pode tornar as exportações europeias menos competitivas, e o mercado laboral que continua “robusto” mas onde se nota uma redução da procura.

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Bas van Geffen, analista do banco holandês Rabobank, ressalva que “a incerteza continua anormalmente elevada, pelo que Lagarde teve o cuidado de não dar quaisquer pistas acerca do que poderá ser decidido em dezembro, próxima reunião do Conselho e altura em que o BCE terá à sua disposição um novo conjunto de projeções elaboradas pelos seus economistas – incluindo uma primeira previsão para [a taxa de inflação em] 2028″.

Em nota enviada aos clientes, e partilhada com o Observador, o analistas destaca que “Lagarde reiterou que o BCE continua a seguir uma abordagem dependente dos dados e que as decisões futuras de política monetária serão baseadas nas perspetivas de inflação, nos riscos que as rodeiam e na força da transmissão da política monetária”. Depois de ouvir falar a presidente do BCE, o Rabobank ficou com uma “ainda maior convicção de que um novo corte das taxas de juro parece improvável nesta fase”.

Outro especialista, Felix Feather, do banco Aberdeen, acrescenta que “havia poucas dúvidas antes desta reunião do BCE quanto à decisão sobre as taxas de juro”, tendo em conta a “inflação moderada, o crescimento resiliente (embora pouco expressivo) e um mercado de trabalho relativamente forte e estável apontam todos para a adequação da atual posição neutra da política do BCE”.

O especialista acrescenta que “está a formar-se um consenso em torno da expectativa de que as taxas se mantenham nos 2% por um período prolongado. Concordamos com essa perspetiva e prevemos que as taxas permaneçam no nível atual ao longo de 2026”.

Para esta convicção dos analistas contribuiu o facto de Christine Lagarde se ter mostrado relativamente tranquila acerca do crescimento económico na zona euro. Depois de o Eurostat indicar que a economia da zona euro cresceu 0,2% no terceiro trimestre, a francesa comentou que “podia ser melhor”, mas, ainda assim, “não se queixaria muito” com um crescimento deste nível. Ou seja, também podia ser pior, deu a entender a presidente do BCE.

Portugal foi uma das economias que mais cresceram

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Portugal foi uma das economias que mais cresceram, com um aumento de 2,4% no terceiro trimestre, em termos homólogos, e 0,8% em cadeia, na primeira leitura anunciada esta quinta-feira pelo INE.

Houve uma “aceleração do consumo privado” e das exportações. Por outro lado, houve uma desaceleração no investimento.

Economia acelerou e cresceu 2,4% no terceiro trimestre em termos homólogos e 0,8% em cadeia com empurrão do consumo privado

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A francesa salientou que o setor dos serviços continua a crescer, graças ao turismo e aos serviços digitais, sendo que nesta última área há indicações de que muitas empresas estão a acelerar os esforços de modernização tecnológica e integração de Inteligência Artificial (IA) nos seus processos produtivos.

Por outro lado, a “indústria tem sido penalizada pelos conflitos comerciais e o euro mais forte”, o que é um fator de incerteza porque “o impacto total das tarifas irá demorar a verificar-se totalmente”. Lagarde afirmou, também, que as “famílias estão a poupar uma proporção invulgarmente elevada dos seus rendimentos”, o que lhes dá margem para potencialmente gastar mais no futuro.

Euro digital? “Talvez daqui a 10 anos haja menos notas em circulação”, afirma Lagarde

No dia em que o BCE anunciou uma passo decisivo no projeto do euro digital, Christine Lagarde respondeu aos críticos desse projeto dizendo que “o dinheiro é um bem público”. “E esse bem público tem sido construído à volta do dinheiro dos bancos centrais, além do dinheiro comercial que é criado pelos bancos, mas a âncora é o dinheiro dos bancos centrais”, explica Lagarde.

Em viva voz, a presidente do BCE salientou que o “euro digital é apenas a forma digital de uma nota”. “Talvez daqui a 10 anos haja menos notas em circulação, mas os cidadãos vão continuar a ter necessidade de saber que um euro é um euro, que é um euro – tal como uma rosa é uma rosa, que é uma rosa”, afirmou Lagarde, citando um famoso poema de Gertrude Stein escrito há mais de 100 anos.

O euro digital, que poderá tornar-se uma realidade em 2029, “será mais barato, de fácil utilização e será usado em toda a zona euro”, o que contrasta com a fragmentação que existe atualmente, em que alguns países têm esquemas nacionais, mais ou menos abertos à escala europeia, outros nem isso. O BCE está a avançar neste processo, disse Lagarde, com a convicção de que “temos de avançar para uma era digital, preparando um mundo em que nem toda a gente irá querer usar notas”.

BCE avança no “euro digital”, que pode começar a ser emitido a partir de 2029

A autoridade monetária concluiu a chamada “fase de preparação” do euro digital e, depois de o conselho de governadores ter aprovado nesta quarta-feira os próximos passos, a autoridade monetária anunciou nesta quinta-feira o calendário previsível para o lançamento. Projetos-piloto vão arrancar em 2027 e, depois de o Parlamento Europeu aprovar a respetiva legislação, será tomada uma decisão final pelo BCE que poderá levar à primeira emissão de euros digitais em 2029.

Este é um processo que o BCE tem gerido com pinças, em passos graduais e sempre garantindo que o euro digital não irá acabar com o dinheiro físico. Mas a ideia é criar uma alternativa digital ao dinheiro físico e, ao mesmo tempo, uma alternativa à utilização de contas bancárias tradicionais para fazer pagamentos imediatos – o que é uma evolução importante sobretudo nos países europeus onde não existem esquemas de pagamentos digitais desenvolvidos.

Mesmo nesses países, como Portugal, o euro digital vai trazer uma alternativa às ofertas da banca comercial, permitindo às pessoas e empresas fazer pagamentos digitais de forma direta – embora usando, sempre, um banco ou uma empresa de pagamentos. Ainda assim, o BCE garante que as transações, mesmo ficando registadas nesses intermediários e no banco central, são tão anónimas quanto a utilização de notas e moedas.

A autoridade monetária garante que esta é uma solução que não será “imposta” aos cidadãos mas, sim, disponibilizada de forma livre. Ao contrário do que se admitiu inicialmente, os cidadãos não poderão ter “uma conta no BCE” mas, sim, utilizar uma empresa de pagamentos (como um banco) para fazer transações que, depois de concluídas, são encriptadas e anonimizadas no registo do banco central.