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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Braga prepara-se para novo ciclo. Um incumbente, um socialista e um ex-líder liberal encontram-se numa feira

João Rodrigues, António Braga e Rui Rocha desfilaram pela feira semanal de Braga num dos derradeiros dias de campanha eleitoral. Houve brindes, tensão e promessas e uma promessa em comum.

Último dia de feira semanal antes das eleições, é dia de trânsito intenso de comitivas em Braga. Há bandeiras por todo o lado, bombos, brindes e uma cor que se destaca em praticamente todos os candidatos — o azul. António Braga, da coligação PSD/PAN, João Rodrigues, que encabeça a lista composta por PSD, CDS e PPM, e o liberal Rui Rocha, uma espécie de outsider, desfilam entre feirantes, prometem mudar a feira de sítio e procuram um lugar numa câmara que muda de mãos devido à limitação de mandatos do social-democrta Ricardo Rio.

Na derradeira semana, é o tudo por tudo. PS e PSD dão seguimento à tradição de oferecer bolas aos bracarenses, uma herança que vem de Mesquita Machado — presidente da autarquia durante 37 anos — e ainda há quem se lembre “das bolas do Mesquita”. “Leve uma para o netinho”, diz António Braga enquanto tenta colocar o brinquedo dentro do saco de pano azul, “um azul que é da cor da bandeira da cidade”. “Já tem uma bola para o filho?”, pergunta João Rodrigues enquanto pede que alguém da comitiva faça chegar o brinde à feirante. Depois da passagem das caravanas, veem-se pessoas com uma bola em cada braço, carrinhas repletas de brindes de todas as campanhas e muitos, muitos sacos aos ombros com as compras do dia, uns de pano, outros de plástico reciclado.

Um incumbente, uma discussão dispensável e uma Spinumviva que não se apaga

Passa pouco das 8h30 da manhã quando o bombo dá o sinal de arranque da comitiva de João Rodrigues. Está bem composta, os tais sacos transparentes com bolas destacam-se, mas o candidato segue à frente. Pára constantemente e não é de poucas palavras ou cumprimentos sem conversa. Chega a estar vários minutos com uma feirante que percebe que é vizinha dos pais e nem sequer lhe pode valer um voto em Braga.

Como foi sendo comum durante aquelas horas, o candidato que está mais perto de ser o incumbente (por ter sido vereador) — e assume que há “continuidade” na candidatura — faz promessas sobre a própria feira, concluindo que ninguém está feliz com o espaço ali e que deve mudar o mais rápido possível. Considera que é preciso falar antes de decidir o local ideal e não coloca de parte o regresso ao estacionamento do Fórum, de onde os feirantes saíram com promessas de regresso que não foram cumpridas.

O tema aquece quando, após um cumprimento de João Rodrigues a Rui Rocha — que estava a ouvir as queixas de um feirante sobre o tema — o homem decide rebobinar uma série de acontecimentos dos últimos anos. Rocha provoca ligeiramente e fica a assistir sem acrescentar uma única palavra: “João, tens aqui muitas críticas.” Entre meias e roupa interior, João Rodrigues está inclinado em cima da banca, a ouvir que a câmara prejudicou os feirantes, com o vendedor a acusá-lo de ter estado presente numa reunião e de ser cúmplice do que se passou.

João Rodrigues assume que houve um sorteio para organizar as bancas, mas assegura que, no rescaldo, não foi ele quem decidiu um não regresso ao ponto inicial após as obras. E, rodeado pela comitiva do PSD e da IL, vai-se defendendo, argumentando que o feirante está a “contar a história ao contrário” e a atirar culpas para quem não teve responsabilidades além do tal sorteio. A discussão — em que chegou a haver acusações de “arrogância” a João Rodrigues — terminou com uma explicação por parte do social-democrata e com um “voto em si se me garantir que muda o mercado” — mas essa promessa é comum a todos.

Se há benefícios em ser o incumbente, há sempre mais probabilidade de haver memórias, ressentimentos ou inconvenientes na campanha. João Rodrigues entende que o legado de Ricardo Rio não o “prejudica nada” e faz questão de destacar o trabalho que fez ao longo dos últimos anos como um ativo. Desde logo destaca o facto Braga ser “o município do país que mais licenças para a habitação emitiu nos últimos anos”, acrescentando que nos últimos três semestres, emitiu “mais licenças do que aquelas que deram entrada na Câmara Municipal”, o que significa uma “limpeza do passivo”. Evidencia ainda, como fez nos debates, o facto de o município prever um “crescimento de 30% da área urbana para receber habitação”, que sublinha ser um “caso único no país”.

Mais do que isso, João Rodrigues tem procurado trabalhar a ideia de que os bracarenses têm de fazer uma escolha entre uma “candidatura de futuro, com plano para a cidade e gente experimentada” e uma “candidatura do PS que está completamente ultrapassada”. De tal forma que, à passagem por uma banca de música com dezenas de CDs, desafiado a escolher uma para António Braga, acaba por escolher “60’s Slows” porque “deve ser da altura dele”. Alguém sugere ABBA e João Rodrigues atira com um “isso é muito recente”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda sobre adversários políticos, que podiam ter sido parceiros, João Rodrigues garante que a IL não entrou na coligação por uma “questão de cargos”. “Do ponto de vista programático, a Iniciativa Liberal concordava quase em absoluto com aquilo que defendemos. Foi uma questão de cargos, de facto. Um partido que acha que numa negociação pode negociar cinco candidaturas a juntas de freguesia, quando nunca tiveram uma e a única coisa que tiveram foi um deputado municipal… Comparando com o CDS, o CDS lidera cinco juntas de freguesia na cidade”, explica, garantindo que a coligação que lidera “não cedeu”.

Rui Rocha, cabeça de lista da IL em Braga, chegou a argumentar que, em parte, o caso Spinumviva pesou na decisão. E esse será sempre um assunto que assombra a candidatura, ainda que haja adversários que já se recusam a falar do tema. A empresa familiar de Luís Montenegro, que levou a uma queda do Governo, tem ligações a João Rodrigues. O pai é dono da gasolineira que pagou mais de 194 mil euros a empresa de Montenegro, e que explicou o pico de faturação em 2022, enquanto Inês Varajão Borges, a mulher do candidato, foi contratada precisamente pela Spinumviva para prestar serviços especializados em proteção dados quando Luís Montenegro deixou a empresa, em 2022.

Além disso, João Rodrigues é também um dos sócios fundadores do escritório de advocacia de Hugo Soares, secretário-geral do PSD braço direito de Luís Montenegro. O social-democrata considera que está “tudo mais do que falado” e afasta qualquer papão: “A minha mulher trabalha, tem vários clientes, entre esses clientes tem uma empresa que já foi do primeiro-ministro, não sei em que país do mundo é que isso é cadastro, sinceramente, honestamente. E o meu pai tem um conjunto de empresas, algumas com mais de 90 anos, e trabalha com dezenas de consultoras, com várias internacionais, e a determinada altura trabalhou com essa empresa.”

João Rodrigues sublinha ainda que não há ligação entre as duas partes e recusa a associação “que tentam fazer” de que “a mulher trabalhava para o pai [neste caso, o sogro] através da Spinumviva”. “São duas coisas completamente distintas”, assegura, acrescentando que tanto a mulher quanto o próprio trabalharam a vida inteira e que houve uma tentativa de “misturar” tudo. Além disso, salienta que é amigo de Hugo Soares há muitos anos e que isso não teve quaisquer implicações na decisão de escolha como candidato, justificando que o nome foi “votado por unanimidade” na Comissão Política Distrital, no Conselho Nacional e na Comissão Política Nacional.

“Tive mais de 400 pessoas a escolherem o meu nome e dessas 400 pessoas houve três, num determinado momento, que escolheram outra pessoa e houve duas que se abstiveram. Processo mais legítimo, mais democrático, mais aberto e mais transparente do que o meu não há”, realça, aproveitando para atacar o processo liberal, frisando que a IL já tinha “escolhido um candidato” e que, depois da demissão de presidente do partido, acabou por assumir a candidatura. “Durante semanas, dezenas de militantes da Iniciativa Liberal de Braga escreviam textos nos jornais, faziam publicações, ninguém falou nisso”, aponta.

João Rodrigues segue caminho pela feira semanal de Braga e continua a puxar dos brindes e da conversa de circunstância em que se mostra confortável. O caminho é apertado, por lá andam vários adversários, e também não foge do principal. Aproxima-se para o cumprimento a António Braga e aponta para os pés: “Foi mais esperto do que eu, veio de sapatilhas.” A conversa não passa da circunstância, o candidato do PS solta um “tem de ser” e continuam caminho, à procura de votos no mesmo sítio, à mesma hora.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

António Braga luta por travar legado de “deserto de ideias” do PSD

As sapatilhas imaculadamente brancas, com uma pequena plataforma, destacam-se nos pés de António Braga, que surge sem gravata, em modo descontraído. Demora a reagir, muitas vezes são as pessoas da comitiva que levam as pessoas até ao candidato. “Venha conhecer o próximo presidente da câmara, ele vai dar-lhe um saquinho”, diz um dos elementos, que estica a mão para encaminhar uma cliente que por ali passa. “Sou eu, se for votar”, pede, em jeito de alerta, o socialista.

Recusa-se a alimentar o tema da Spinumviva e, apesar de já ter criticado a proximidade do adversário à cúpula social-democrata, acredita que essa não deve ser uma questão central. O problema está no facto de ser o rosto da continuidade que representa, explica António Braga, pela “ausência de políticas consolidadas e que respeitassem e respondessem às necessidades de desenvolvimento do concelho”.

O candidato que se apresenta como “alternativa” concentra as críticas na “ausência de planeamento” dos anos em que Ricardo Rio esteve na câmara, que considera uma “incompetência” na previsão da crise de habitação e na mobilidade. “Houve um deserto de ideias, um deserto de programas e de políticas que pudessem continuar a sustentar Braga como uma capital forte, com âncoras da atratividade de pessoas e de empresas”, acusa.

[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]

O ex-secretário de Estado das Comunidades nos governos de José Sócrates foi o escolhido para pôr termo a 12 anos de governação social-democrata que se seguiram a 37 anos do socialista Mesquita Machado, que saiu com uma gestão manchada por múltiplos casos judiciais e de caciquismo. Mas António Braga constrói a narrativa de que a cidade andou para trás nos últimos anos.

“Todas as obras de referência que são âncora para Braga continuar a ser a líder de um distrito pujante, como é o distrito de Braga, foram criadas e nascidas no tempo do governo dos socialistas, quer do Governo nacional, quer do governo local. Houve um deserto de ideias, um deserto de programas e de políticas que pudessem continuar a sustentar Braga como uma capital forte, com âncoras da atratividade de pessoas e de empresas.”

Na campanha, usa-se do apelido do candidato (Braga) para criar uma dinâmica divertida com o slogan “Somos Braga”, dizendo: “Eu sou Braga e somos Braga” — o que resulta com as duas leituras possíveis. De resto, é a comitiva que distribui flyers e brindes e António Braga, à boleia do sítio onde está, vai aproveitando para fazer a mesma promessa do que todos, mas de forma mais assertiva: “Na terça a seguir à tomada de posse, a feira sai daqui e volta para o estacionamento do fórum.”

António Braga

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Rocha joga em casa, assiste a tensão e afasta-se de “aparelhos” de PSD e PS

Rui Rocha chega um pouco mais tarde, tem partida marcada para as 10h00, e está focado nos vídeos para as redes sociais. Num deles, o que teve mais sucesso nas últimas semanas, chegou a medir a “taxa de bazófia” de João Rodrigues, concluindo que “há quem seja político, melhor técnico do que os técnicos, melhor engenheiro que os engenheiros, melhor gestor do debate do que os gestores do debate”.

Depois de mais de dois anos à frente da presidência da IL, Rui Rocha candidatou-se à Câmara Municipal de Braga e o anúncio foi feito pouco depois da demissão. Está a jogar em casa e aquele que foi um desafio durante a liderança dos liberais — a notoriedade — é menos problemático em Braga. “A notoriedade em Braga é muito grande.”

A somar a isso, Rui Rocha considera que essa passagem pelo topo da IL “traz muitas vantagens: uma experiência política que outros candidatos não têm, uma visão dos problemas que permite não olhar apenas para o nosso quintal, mas ter uma perspetiva também regional da importância de Braga e do seu papel no país, no contexto do país”. O candidato liberal acredita que os autarcas que têm estado na cidade “têm-se esquecido disso”, desde logo porque “há um projeto político absolutamente determinante para o futuro de Braga, que é a área metropolitana, e os autarcas de Braga não têm sabido defender essa ideia”.

Está na hora de partir, Rocha comanda a comitiva. Não distribui merchandising, está ali para ouvir e falar. Muitas vezes nem sequer se apresenta, mas quer ouvir o que os feirantes querem dizer, principalmente sobre o tema que ali mais faz sentido: o local da feira. Junta-se às promessas de quem quer mudar o mercado ao ar livre para outro sítio, já que ali é preciso fechar a estrada semanalmente e o piso é irregular. Quem vem atrás distribui sacos, canetas e saca-caricas. Na caravana da IL faltam as bolas que os partidos maiores distribuem, provavelmente devido ao orçamento mais apertado.

Vai ouvindo desejos de “boa sorte” e responde: “Não preciso só de sorte, preciso de votos.” Esses votos podem bem complicar a vida a João Rodrigues — que ficou sem a IL na coligação — na noite eleitoral, tendo em conta que os liberais conseguiram 11.315 votos (9,47%) no concelho nas últimas eleições legislativas. Mas Rui Rocha não se arrepende da decisão.

“O desejo de mudança não podia ser protagonizado nem pelo PSD, nem pelo PS, que são uma espécie de donos disto tudo em Braga, que nós queremos combater, com uma mensagem muito clara: em Braga mandam os bracarenses, não manda o aparelho do PSD, não manda Hugo Soares, não manda o aparelho do PS e não mandam os séquitos de Mesquita Machado que ainda existem pela cidade.”

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O momento alto da passagem de Rocha pela feira foi mesmo a interação mais dura que João Rodrigues teve com o feirante. “Ficar calado às vezes dá votos”, comenta-se na comitiva. E foi o caso. Estava no local certo à hora certa. Na banca de música onde também o adversário parou, ofereceu um CD de “Cantares ao Desafio” a PS e PSD porque nesses partidos “a música é sempre a mesma” e pediu um “Verde Minho” para a IL com a promessa de avançar com a área metropolitana.

E, já no final, valeu-lhe a tal notoriedade de quem joga em casa. Uma senhora com o saco do PSD ao ombro dirige-se ao candidato por vontade própria, conhece-o bem e deixa a promessa que Rocha mais quer ouvir: “Levo o saco do PSD, mas vou votar no Rocha.”

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