Nas legislativas de 2022, as tais que resultaram na maioria absoluta de António Costa, Catarina Martins foi responsável pelo pior resultado do Bloco de Esquerda em 20 anos. Nas europeias de 2024, repetiu o feito e ficou abaixo do resultado conseguido pelo partido em 2004. A partir daí, é certo, o partido entrou numa espiral ainda mais negativa, viu-se reduzido a um deputado no Parlamento e praticamente desapareceu do mapa autárquico. Agora, Catarina Martins parte para estas presidenciais apostada em ultrapassar as fronteiras do Bloco de Esquerda. E a campanha tem refletido isso mesmo.
Essa vontade implica fazer escolhas. Até ver, as principais figuras do partido têm estado ausentes da campanha. José Manuel Pureza fê-lo apenas uma vez e discretamente. Mariana Mortágua ainda não apareceu. Fabian Figueiredo, o rosto do partido no Parlamento, tem estado ausente. Quando a caravana de Catarina Martins passou por Setúbal, terra forte de Joana Mortágua, a bloquista esteve lá, mas não discursou — como habitualmente acontecia. A exceção foi Marisa Matias, que se juntou à bloquista numa ação de campanha na Figueira da Foz. Nada mais.
Há uma explicação. Catarina Martins tem privilegiado, para já, aparecer em eventos de campanha com nomes da sociedade civil. É uma forma de mostrar que “as fronteiras do eleitorado de Catarina Martins vão além das do Bloco de Esquerda”, como ouviu o Observador de um bloquista próximo da campanha. Garante-se que não se trata de falta de apoio do partido ou uma tentativa de esconder os principais rostos do Bloco, até porque, garante-se, eles vão aparecer mais perto da data da eleição. Mas houve o cuidado deliberado de tentar dar outra dimensão a Catarina Martins.
José Manuel Pureza, novo líder do Bloco de Esquerda, não está necessariamente maculado pelos resultados mais recentes do partido, mas, até agora, conta apenas com uma presença no primeiro comício de campanha no Porto. Também sem discurso. No mesmo dia em que Rui Tavares apareceu em campo para tentar salvar o que resta da campanha de Jorge Pinto, Catarina Martins foi questionada sobre qual seria a importância de ter novamente Pureza a fazer campanha a seu lado. E desvalorizou. “Eu estou tão bem acompanhada. E tenho a certeza de que terei todas as companhias durante a campanha. Não me falta nenhum apoio”, disse a antiga líder do Bloco.
A prioridade aos independentes e outras figuras
Isabel Moreira marcou presença no lançamento da candidatura de Catarina Martins e, ao que apurou o Observador, provavelmente voltará a aparecer até ao dia 18. A mesma expectativa existe em relação ao recém eleito líder José Manuel Pureza. A jornalista e militante anti-racista Paula Cardoso ou a viúva de José Saramago Pilar del Río, que não se associava publicamente ao Bloco desde as legislativas de 2019, também apareceu.
Nas suas intervenções, estes independentes tentaram dar força à ideia de que, nesta eleição, a antiga coordenadora do Bloco ocupa um espaço político só seu. Também eles respondem ao desafio de Jorge Pinto e à pressão para a convergência dos votos de esquerda em Seguro. “Saúdo-te por não recuares e continuares a persistir na tua candidatura mesmo quando há quem peça uma convergência em não se sabe bem o quê. Saúdo essa tua persistência, é isso que me mobiliza desde que anunciaste a candidatura”, disse Paula Cardoso.
Os independentes, mais do que os principais nomes do Bloco, “são quem se tem aproximado” da campanha presidencial, acrescenta fonte da campanha. Pretende-se também favorecer e promover o carácter unipessoal desta candidatura. Ainda assim, nos próximos dias é bastante provável que se venham a juntar figuras do partido, com garantem fontes da campanha ao Observador. Novas aparições de José Manuel Pureza e a estreia Mariana Mortágua são esperados de forma “natural”.
Fica por perceber exatamente em que termos é que vão participar na campanha, se discursam ou não, se falam ou não à comunicação social. No comício de quinta-feira, na Baixa da Banheira (zona do distrito de Setúbal), Joana Mortágua, que concorreu por este círculo eleitoral, foi presença discreta, não tendo sido sequer uma das oradoras. E não falou aos jornalistas.
Objetivo: voltar à casa dos 5%
Quando se despediu da liderança do Bloco de Esquerda, depois das legislativas de 2022, Catarina Martins não tinha conseguido ir além dos 4,40% dos votos e dos cinco deputados. Era o resultado mais baixo do partido desde 2002. Dois anos depois, já com com Mariana Mortágua, o Bloco caiu para os 4,36%, mas até conseguiu crescer em número total de votos — quase 4o mil. Em 2025, a mesma Mariana Mortágua desceria para os 1,99% dos votos.
Independentemente desta realidade, as pessoas que acompanham Catarina Martins na estrada acreditam que a bloquista será capaz será capaz de superar largamente o peso que o Bloco de Esquerda tem atualmente junto do eleitorado. E até se aponta um exemplo concreto: “Tal como o Cotrim é maior do que a IL, a Catarina é maior do que o Bloco”, resume um bloquista ao Observador.
Há uma evidente diferença entre os dois, naturalmente. Cotrim parece estar perto de conseguir um resultado histórico no universo liberal; Catarina Martins nem nas melhores sondagens parece em condições dos 10% que conseguiu nas legislativas de 2015 ou dos 10% que Marisa Matias alcançou nas presidenciais de 2016. Atingir os 5%, como parece ser o objetivo da campanha da bloquista, seria, no fundo, igualar um dos piores resultados da história do partido. Copo meio cheio: permitiria passar a mensagem de que é possível crescer e, eventualmente, ultrapassar o mau momento que o partido atravessa.
A candidata tem agora pela frente o desafio de chegar aos 5% dos votos, valor a partir do qual os candidatos recebem uma subvenção pública. A campanha da bloquista foi orçamentada para valores próximos do que está previsto para quem obtenha esse valor mínimo (50 mil euros) e existe confiança na caravana de que esse é um patamar atingível.
Até agora, o BE não financiou a campanha e só esta semana passou a estar disponível o mecanismo para fazer donativos à candidatura presidencial, pelo que não se esperam muitos fundos por essa via. Caso Catarina Martins fique àquem dos 5%, existe um entendimento para que o Bloco de Esquerda ajude, pelo menos numa primeira fase, a cobrir as despesas da campanha — questão que atormentou durante vários anos antigos candidatos presidenciais.
*Notícia atualizada às 18h30 de 9/1/26 com a informação que José Manuel Pureza participou no comício do primeiro dia de campanha