Índice
Índice
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já considera apenas uma “questão de tempo” até que o H5N1 — o vírus que causa a gripe das aves — desenvolva a capacidade de ser facilmente transmitido entre humanos. Cada contágio entre animais representa uma “nova oportunidade” para o vírus sofrer uma mutação que o torne apto para mais facilmente saltar de pessoa em pessoa.
O alerta surgiu esta quinta-feira pela voz de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, que deu conta do número de casos humanos de gripe avária registados em 2024, o maior desde 2015. Destacou ainda uma “preocupação particular” com o H5N1 nos EUA, onde estão a ser infetadas não só aves, mas também bovinos e até felinos.
Sobre os casos em seres humanos, além do número cada vez maior registado na América do Norte, é também a gravidade da doença desenvolvida pelas pessoas infetadas que está a fazer soar os alertas das autoridades de saúde. Nos primeiros dias de 2025, mais concretamente a 6 de janeiro, foi confirmada a primeira morte humana nos EUA resultante da gripe das aves. A vítima era um homem de 65 anos que esteve hospitalizado durante o mês de dezembro e acabou por não resistir.
O alerta aumentou de tom com a subida de contágios e também a revelação de um caso de doença grave identificado, não numa pessoa idosa ou com comorbilidades (outras doenças), mas numa adolescente de 13 anos, que chegou ao hospital pediátrico de Vancouver, no Canadá, no início de novembro, com uma infeção por gripe das aves que lhe causou danos respiratórios significativos.
EUA. Confirmada primeira morte humana resultante da gripe das aves
“No espaço de quatro dias, a adolescente, anteriormente saudável, cujos sintomas iniciais eram conjuntivite e febre, viu o seu estado deteriorar-se de forma tão dramática que os médicos do BC Children’s Hospital tiveram de recorrer a uma série de intervenções médicas para lhe salvar a vida”, descreve o Washington Post.
A jovem esteve ventilada mecanicamente e, quando isso não chegou, as equipas médicas mantiveram-na viva com o ECMO (Extra Corporeal Membrane Oxygenation) — um sistema de circulação extra-corporal que força o ar a entrar e a sair dos pulmões. O sangue da doente era alvo de oxigenação externamente para dar aos pulmões uma oportunidade de sarar.
O caso grave, que contrasta com a doença leve, a mais comum, de outras seis dezenas de infetados na América do Norte em 2024, permitiu o estudo do rasto que o agente patogénico H5N1 deixou nos pulmões da doente. Sabe-se agora, com ainda mais certeza, que possui características genéticas que podem vir a potenciar a infeção de seres humanos.
Porque aumentou a preocupação da OMS com a gripe das aves?
No balanço de 2024, ao nível mundial, a OMS registou 81 casos de gripe das aves em humanos, o maior número de casos relatados desde 2015. Destes, 66 casos foram identificados nos EUA, 1o no Camboja e dois no Vietname. A Austrália, a China e o Canadá (caso da pré-adolescente com doença grave) registaram um caso cada.
Nas declarações desta quinta-feira, o diretor-geral da OMS recordou que o H5N1 é particularmente preocupante porque, desde que os primeiros casos em humanos foram relatados em 2003, “o vírus matou quase metade das pessoas que atacou”.
É para os EUA que Bernardo Mateiro Gomes, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, em declarações ao Observador, remete a atenção, pelo menos para já, em relação à gripe das aves. “Os peritos alertam para um fenómeno que está em observação há muito tempo e que este ano conheceu um novo ponto alto na forma como se está a disseminar e a quantidade de casos em humanos, principalmente nos EUA”, salienta.
▲ Também há bovinos contaminados nos EUA e beber leite cru é um perigo
Getty Images
Em território norte-americano, a propagação da gripe entre aves e bovinos gera níveis de preocupação ainda maiores, sendo que o contacto dos humanos com os bovinos é mais próximo e o consumo de leite cru (não tratado ou pasteurizado) nos EUA é comum. “Apesar de não termos tido nenhum caso humano confirmado de H5N1 por causa do leite cru, temos tido muitos exemplos de animais infetados por ele. Se estiver numa dessas áreas, deve ter mais cuidado ou, no caso do leite cru, simplesmente não o consumir”, alerta-se num artigo publicado pela faculdade de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins.
O que está a ser feito e o que se pode fazer para prevenir uma pandemia?
Perante os alertas sucessivos, a OMS confirmou a colaboração estreita com a Organização Mundial da Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura para gerir a ameaça do H5N1. Avisou igualmente os países a reforçarem a sua biosegurança nas explorações agrícolas, incluindo a entrega de produtos e equipamento de proteção para os profissionais dessas instalações, que são sempre quem está mais em risco.
“Nos locais dos EUA em que a multiplicação e a transmissão do vírus entre animais tem sido intensa, tanto em aves como em bovinos e, no interface entre os animais e os seres humanos, sem as proteções devidas, há sempre ocorrência de casos em humanos”, garante Bernardo Mateiro Gomes.
O médico de Saúde Pública assegura que o primeiro passo para a prevenção do contágio entre humanos é mesmo o de munir os trabalhadores de aviários de equipamentos de proteção, e que estes os utilizem com rigor. “São eles que estão na linha da frente na possibilidade de contágio“, explica.
Além disso, destaca a necessidade de “monitorizar de forma apertada as alterações do perfil genético do vírus”. “As pessoas estão com um receio justificado que tem que ser abordado com vigilância e com testagem, para evitar que exista uma mutação que torne o vírus mais transmissível de pessoa a pessoa”.
Surto de gripe das aves em Sintra é motivo para alarme? Sete perguntas e respostas sobre o H5N1
Num edital publicado pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), alerta-se ainda para a necessidade das “aves de capoeira e aves em cativeiro detidas em estabelecimentos, incluindo detenções caseiras” serem confinadas de modo a impedir o seu contacto com aves selvagens. São os animais a circular em ambiente natural as transmissoras do vírus para aves de criação.
Como se dá o contágio entre animais e humanos?
Segundo a OMS, quase todos os casos de infeção pelo vírus H5N1 em pessoas foram “associados ao contacto próximo com aves infetadas, vivas ou mortas, ou com ambientes contaminados pelo H5N1″, por exemplo, mercados de aves vivas ou aviários. A organização menciona igualmente “alguns casos de propagação de mamíferos infetados a seres humanos”.
Uma das questões mais recorrentes, quando são detetados surtos de gripe das aves, é a da segurança na ingestão da carne destas aves. Bernardo Mateiro Gomes afirmou contudo ao Observador que a transmissão pelo consumo “não é provável” e que “devem ser tomadas as mesmas preocupações para todo o consumo do carne de aves, que devem sempre ser cozinhadas devidamente, nomeadamente para evitar a transmissão de infeções bacterianas”.
Já em relação ao que se deve fazer assim que se localiza uma ave morta — um dos maiores focos de contágio — o Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública recorda que é imperativo que não seja feito um manuseamento ou aproximação da mesma por civis, ainda que esta seja encontrada, por exemplo, num pátio ou quintal privado. “Devem ser ativadas as autoridades veterinárias municipais que saberão lidar com a situação com o equipamento de proteção indicado”.
Que surtos recentes foram registados em Portugal?
O surto mais recente de gripe das aves registado em Portugal aconteceu numa numa exploração de galinhas poedeiras em Sintra. O alerta foi lançado pela Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA). A Direção-Geral da Saúde (DGS) revelou ter sido notificada da ocorrência desse foco da gripe do subtipo H5N1 em território nacional e garantiu que estava a tomar medidas para o controlo e prevenção da doença. Não foi registada qualquer infeção de seres humanos.
O número de galinhas que morreram pela doença ou foram abatidas na sequência da confirmação do foco ascende a 55.427, o que corresponde ao total dos animais daquela exploração.
Ao Observador, fonte oficial da DGAV confirma que o surto foi controlado através do abate de todas as aves da exploração afetada. Da mesma forma, a testagem na área circundante foi reforçada, com o intuito de rastrear a disseminação da doença.
Tendo em conta a necessidade do abate generalizado dos animais que possam ter estado em contacto com animais infetados pelo H5N1, Bernardo Mateiro Gomes nota ainda o “impacto económico, da perda de milhares e milhares de aves que seriam disponibilizadas no mercado e que não foram”. Não só em relação ao caso português, mas também ao norte-americano, em que a escala de abate e de prejuízo económico é ainda maior.
Em agosto de 2024, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) confirmou que foram detetados dois casos de gripe das aves, do subtipo H5N1, em gaivotas recolhidas nas praias de Espinho, Aveiro, e entre as praias de Vieira de Leiria e Pedrógão, em Leiria. Poucos dias depois, um foco foi detetado numa exploração caseira de animais de capoeira, em Chafé, distrito de Viana do Castelo.
Gripe das aves detetada em gaivotas em Aveiro e Leiria. Há perigo para humanos?
De acordo com a lei, durante o mês de fevereiro decorre o período obrigatório das Declarações de Existências de Galinhas Poedeiras. A DGAV alerta para a necessidade do registo destes animais para que, mesmo em explorações privadas de pequena dimensão seja possível o rastreamento de vírus. Apela ainda à comunicação imediata no caso de alguma ave de produção caseira mostrar sinais de doença ou apareça morta.
Desde o surto de Sintra, há novos focos registados em Portugal?
O Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública diz não ter informação sobre novos focos de gripe das aves em Portugal, desde o surto que gerou preocupação em Sintra e que levou ao abate de milhares de galinhas. “A comunicação tem sido transparente por parte da DGAV e da DGS e, portanto, para já não há nada de novo que vá acrescentar em território português”, afirma Bernardo Mateiro Gomes.
Ao Observador, fonte oficial da DGAV confirmou a ausência de novos focos ou surtos provocados pelo vírus, ressalvando que, no foco registado em Sintra, foram implementadas todas as medidas do plano de contingência da autoridade veterinária, incluindo o investimento na vigilância epidemiológica.
OMS preocupada com possível mutação do vírus da gripe aviária
Já a DGS garante que “não há registo de pessoas com sintomas ou sinais sugestivos de infeção humana pelo vírus H5N1 em Portugal, nem foram notificados quaisquer casos na plataforma de suporte ao Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE)”.
Informa ainda que, até à data, nunca houve registo de casos de H5N1 em humanos em Portugal e na União Europeia. Ainda sobre o surto em Sintra, diz “continuar a acompanhar ativamente a sua evolução, em articulação com as autoridades regionais e locais, não tendo sido identificada nenhuma situação de risco para a saúde humana”. “A DGS manterá a comunicação regular, atualizando a população sobre eventuais situações de risco para a saúde humana sempre que necessário”.
E na Europa, como está a situação?
O alerta lançado pela OMS esta quinta-feira é mundial e na Europa, entre outubro de 2024 e janeiro de 2025, sobretudo na Hungria e em Itália, foram detetados 840 focos de gripe das aves.
Portugal comunicou, durante este período, quatro focos, três em aves selvagens e um em aves de capoeira. No período em análise, a Hungria reportou 213 focos de gripe aviária, 188 dizem respeito a aves de capoeira, 24 a aves selvagens e uma a aves em cativeiro.
A Itália surge a seguir, com 188 focos reportados, onde se incluem 75 em aves selvagens e 43 em aves de capoeira. Depois aparece a Alemanha, com 72 focos em aves selvagens, 13 em aves de capoeira e nove em aves em cativeiro, num total de 94 focos reportados.